Ensino sobre virtudes
Abnegação e Devotamento
1. Caro professor de educação moral, Allan Kardec, nós pedimos que o senhor nos explique por que a virtude da abnegação nos torna felizes e não tristes, ao contrário do que costumamos pensar?
- "Para isso, começarei explicando primeiro o motivo de vosso pensamento errôneo: pensais assim devido à escassez de experiências que tendes a respeito da abnegação. A maior parte de vossos esforços ainda é dirigida na busca do interesse próprio, e frequentemente essa busca pouco leva em conta o vosso próximo. A maioria das experiências que obtivestes até aqui e que classificais como felizes, isto é, aquelas de que mais facilmente vos lembrais, são geralmente originadas por essa busca ainda egoísta. Dessa forma, o caminho que vos propõe a abnegação vos parece imprudente, pois seria trocar o certo pelo duvidoso, o conhecido pelo improvável. Se refletirdes, no entanto, conseguireis lembrar da felicidade que vossos atos verdadeiramente abnegados vos geraram e, se fizerdes mais, se vos esforçardes por realizar novos atos em que preteris o vosso interesse pessoal em prol do interesse geral, tornareis mais frequente a felicidade que a abnegação proporciona. Se o fizerdes com constância, pedindo a Deus que vos mantenha nessa via, em breve só buscareis essa felicidade, pois só ela é durável e verdadeiramente grande como desejais. Portanto, para explicar-vos por que a abnegação é uma virtude feliz, e por isso mesmo desejável, eu vos digo que ela representa a substituição da própria personalidade em prol do amor de Deus. Ninguém nesse mundo falou isso com mais clareza do que o apóstolo, quando disse: "Não sou mais eu que vivo, é o Cristo que vive em mim.1
Sugiro-vos então que peçais a Deus que vos dê forças para empreender os esforços necessários por vos abnegardes em ações práticas, e gradualmente tomareis gosto por essa virtude. Ela não mais vos parecerá um peso, mas sim uma benção que Deus vos outorga."
"Para a maioria dos homens, o dinheiro tem ainda irresistível atrativo, e bem poucos compreendem a palavra supérfluo quando se trata de si. Por isso mesmo, a abnegação da personalidade constitui sinal do mais eminente progresso." Allan Kardec2
2. Poderíamos entender que o devotamento é uma virtude indissociável da abnegação?
- "Sim, pois do contrário esta não passaria de simples mortificação, ou simulacro. Seria negar-se a si mesmo inutilmente, em prol de nada, como o fazem certos ascetas. O devotamento, sem a abnegação, pode tornar-se uma dedicação aos próprios interesses, ainda que disfarçada de busca pelo bem do próximo. Bem compreendidas e bem vividas, ambas as virtudes compõem a verdadeira caridade e por isso encerram toda a sabedoria humana."
"Que é com efeito devotar-se? É doar-se livremente e com todo conhecimento. Eis o sublime do amor, eis o amor digno de uma nobre e generosa criatura, e não o amor ignorante e cego."3
3. E como entender que elas são uma prece constante, como diz o Espírito de Verdade?
- "Porque agir por amor a Deus é uma oração, e o amor a Deus e ao próximo, bem entendidos, são a mesma coisa.
Dito isso, quero propor-vos um exercício simples para que comeceis a desenvolver a virtude da abnegação; proponho que penseis mais vezes em vossos amigos, parentes, mesmo aqueles com quem tendes pouco contato, ou mesmo os desafetos, e que oreis fervorosamente a Deus por eles, ainda que essa prece seja um pensamento breve; fazei isso como se, por um momento, estivésseis ao lado deles, convidando-os a pensar em Deus. Habituai-vos a esse exercício, e a benevolência gradualmente fará parte de vosso caráter. Não há exercício mais eficaz para desenvolver a verdadeira caridade do que, antes de agirdes, vos assegurardes de que em vossos pensamentos mais secretos quereis verdadeiramente o bem do vosso próximo, seja ele um amigo ou um inimigo, um santo ou um celerado."
Allan Kardec
(Por psicofonia, dia 15 de abril de 2022, em reunião familiar.)
"Deus consola os humildes e dá força aos aflitos que lha pedem. Seu poder cobre a Terra e, por toda a parte, junto de cada lágrima colocou ele um bálsamo que consola. O devotamento e a abnegação são uma prece contínua, e encerram um ensinamento profundo; a sabedoria humana reside nessas duas palavras. Possam todos os Espíritos sofredores compreender essa verdade, em vez de clamarem contra suas dores, contra os sofrimentos morais que neste mundo vos cabem em partilha. Tomai, pois, por divisa estas duas palavras: devotamento e abnegação, e sereis fortes, porque elas resumem todos os deveres que a caridade e a humildade vos impõem. O sentimento do dever cumprido vos dará o repouso do espírito e a resignação. O coração bate melhor, a alma se acalma e o corpo não mais desfalece, pois o corpo tanto mais sofre quanto mais profundamente é atingido o espírito. O Espírito de Verdade. (Havre, 1863.)4
1 Gálatas, 2:20.
2 O Livro dos Espíritos, Conclusão, VII
3 Verbete mysticisme, do Dicionnaire des sciences philosophiques, pp. 1158 e ss.
4 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI - O Cristo consolador - Instruções dos Espíritos - Advento do Espírito de Verdade, item 8

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