PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Mediunidade IV - Sobre a nossa saúde física e psíquica
01 / JULHO / 2022
Mediunidade: Sobre a nossa saúde física e psíquica

 

(Quarto artigo)

 

   Como vimos no terceiro artigo desta série, os Espíritos podem dar-nos conselhos e instruções relativos à nossa saúde, seja física ou psíquica, e os superiores o fazem de muito bom grado e com conhecimento de causa.

   Se a medicina terrena é impotente para tratar com eficácia de certos males psíquicos, ou mesmo físicos cuja origem é espiritual, se recorrermos aos bons Espíritos eles podem nos revelar a causa de tais males e indicar-nos os meios para curá-los, como é o caso das obsessões, por exemplo.

 

O que é uma obsessão segundo o Espiritismo?

 

   "Chama-se obsessão à ação persistente que um Espírito mau exerce sobre um indivíduo. Apresenta caracteres muito diferentes, que vão desde a simples influência moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais. Ela oblitera todas as faculdades mediúnicas. Na mediunidade audiente e psicográfica, traduz-se pela obstinação de um Espírito em querer manifestar-se, com exclusão de qualquer outro.

   Pululam em torno da Terra os maus Espíritos, em consequência da inferioridade moral de seus habitantes. A ação malfazeja desses Espíritos é parte integrante dos flagelos com que a Humanidade se vê a braços neste mundo. A obsessão, que é um dos efeitos de semelhante ação, como as enfermidades e todas as atribulações da vida, deve, pois, ser considerada uma prova ou uma expiação e aceita com esse caráter.

   Assim como as enfermidades resultam das imperfeições físicas que tornam o corpo acessível às perniciosas influências exteriores, a obsessão decorre sempre de uma imperfeição moral, que dá ascendência a um Espírito mau. A uma causa física, opõe-se uma força física; a uma causa moral preciso é se contraponha uma força moral. Para preservá-lo das enfermidades, fortifica-se o corpo; para garanti-la contra a obsessão, tem-se que fortalecer a alma; daí, para o obsidiado, a necessidade de trabalhar por sua própria melhoria, o que as mais das vezes basta para livrá-lo do obsessor, sem o socorro de terceiros. Necessário se torna este socorro, quando a obsessão degenera em subjugação e em possessão, porque nesse caso o paciente às vezes perde sua vontade e seu livre-arbítrio.

   Quase sempre a obsessão exprime uma vingança exercida por um Espírito, e frequentemente tem sua fonte nas relações que o obsidiado teve com ele em precedente existência.

   Nos casos de obsessão grave, o obsidiado fica como que envolto e impregnado de um fluido pernicioso, que neutraliza a ação dos fluidos salutares e os repele. É desse fluido que é preciso desembaraçá-lo; ora, um mau fluido não pode ser eliminado por um mau fluido. Por uma ação idêntica à do médium curador, nos casos de enfermidade, é preciso expulsar o fluido mau com o auxílio de um fluido melhor.

   Esta é a ação mecânica, mas que nem sempre basta; é preciso também, e sobretudo, agir sobre o ser inteligente, ao qual é preciso ter o direito de falar com autoridade, e essa autoridade só é dada à superioridade moral; quanto maior for esta, tanto maior será a autoridade.

   Mas, ainda não é tudo: para assegurar a libertação, é preciso levar o Espírito perverso a renunciar aos seus maus desígnios; é preciso fazer que nasça nele o arrependimento e o desejo do bem, com a ajuda de instruções habilmente dirigidas, em evocações particulares feitas tendo em vista a sua educação moral; pode-se então ter a doce satisfação de libertar um encarnado e de converter um Espírito imperfeito."1

 

Cura de obsessões com o auxílio da mediunidade

 

   Como vimos logo acima, a obsessão é a ação persistente que um Espírito mau exerce sobre um indivíduo. Pois bem, com isso fica evidente que a cura desse mal não poderá se dar por via dos tratamentos ordinários, por não se tratar de uma doença física. Nos séculos passados as obsessões eram tidas por ações de demônios, mas sabe-se hoje, graças à Ciência Espírita, que os chamados demônios são apenas Espíritos, ou almas de homens que morreram.

   Por serem tidas por ações de demônios, tentava-se tratar as obsessões e possessões pelo exorcismo, pelas duchas e pela administração de medicamentos fortes que deixavam o obsidiado num estado ainda mais deplorável. Alguns desses métodos ainda são utilizados hoje, mas sem sucesso quando a causa do mal é espiritual.

   Com os recursos ensinados pelo Espiritismo, hoje as obsessões podem ser curadas desde que sejam curáveis, pois há também aquelas cuja cura não é permitida por Deus, por tratar-se de uma prova que ainda não chegou ao seu término.

   Allan Kardec publicou em sua Revue Spirite diversos casos de curas de obsessões e de possessões, a fim de servirem de modelo para aqueles que querem dedicar-se a esse tipo de trabalho. Essas curas, que são levadas a efeito pelos homens sob a assistência dos bons Espíritos devem, portanto, ser gratuitas.

 

A mediunidade na cura de "doenças" comunicadas pelos Espíritos sofredores

 

   Com o Espiritismo prático, descobriu-se que algumas enfermidades também podem ser comunicadas aos vivos, à sua revelia, pelos Espíritos sofredores, sem nenhuma má intenção da parte destes, mas apenas pela sua aproximação. Mostra a experiência que, em sua maioria, esses Espíritos sofredores pensam que ainda estão vivos no corpo físico. Eles se aproximam de seus afetos vivos, em busca de socorro, e assim se dá a transmissão dos sintomas via fluido perispirítico. Nesses casos, com o auxílio da mediunidade, meio pelo qual pode-se buscar instruções dos Espíritos, a cura de tais enfermidades, com os magnetistas poderíamos chamar de simpatismo fluídico, são facilmente obtidas.

   A mediunidade, bem compreendida e bem utilizada, tem ainda muitos outros benefícios, que poderão ser conhecidos estudando-se O Livro dos Médiuns, ou guia dos médiuns e dos evocadores, do Sr. Allan Kardec.

   Reproduzimos aqui a notícia da uma cura de obsessão, tida por epilepsia, publicada na Revista Espírita de fevereiro de 1864:

   "O Sr. Dombre, presidente da Sociedade Espírita de Marmande, manda-nos o seguinte:"

   "Com o auxílio dos bons Espíritos, em cinco dias livramos de uma obsessão muito violenta e muito perigosa, uma jovem de treze anos, do poder de um mau Espírito, desde 8 de maio último. Diariamente, às cinco da tarde, sem faltar um só dia, ela tinha crises terríveis, de causar compaixão. Essa menina mora em bairro distante, e os parentes, que consideravam a doença como epilepsia, não falavam mais nisso. Entretanto, um dos nossos, que mora na vizinhança, foi disso informado, e uma observação mais atenta dos fatos permitiu-lhe facilmente reconhecer a verdadeira causa. Seguindo o conselho dos nossos guias espirituais, imediatamente nos pusemos à obra. A 11 deste mês, às 8 horas da noite, em nossas reuniões, começamos por evocar o Espírito, moralizá-lo, orar pelo obsessor e pela vítima e a exercitar sobre ela uma magnetização mental. As reuniões eram feitas todas as noites, e na sexta-feira, dia 15, a menina sofreu a última crise. Só lhe resta a fraqueza da convalescença, consequência de tão longos e tão violentos abalos, e que se manifesta pela tristeza, pela languidez e pelas lágrimas, como nos havia sido anunciado. Pelas comunicações dos bons Espíritos, diariamente éramos informados das várias fases da moléstia.

   Essa cura, que noutros tempos uns teriam considerado como um milagre, e outros como um caso de feitiçaria, pelo que, de acordo com a opinião, teríamos sido santificados ou queimados, produziu uma certa sensação na cidade."

   Nota de Kardec: "Felicitamos os nossos irmãos de Marmande pelo resultado que obtiveram no caso e somos felizes de ver que aproveitaram os conselhos contidos na Revista, por ocasião de casos análogos relatados ultimamente. Assim, eles puderam convencer-se da força da ação coletiva, quando dirigida por uma fé sincera e uma ardente caridade."2

 

   __________

   1 A Gênese - Os milagres segundo o Espiritismo, cap. XIV - Os fluidos - II - Explicação de alguns fenômenos considerados sobrenaturais - Obsessões e possessões.

   2 Revista Espírita, fevereiro de 1864 - Variedades - Cura de uma obsessão. Os detalhes dessa cura podem ser vistos na Revista Espírita, junho de 1864 - Cura da jovem obsedada de Marmande.

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