PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Reuniões Espíritas no Lar I - Espiritismo consolador
01 / OUTUBRO / 2022
Reuniões Espíritas no Lar

 

(Primeiro artigo)

 

Espiritismo consolador

 

   Allan Kardec, diretor espiritual da Revista Espírita - periódico de divulgação de Espiritismo prático, há alguns meses nos pedira para que publicássemos uma sequência  de artigos sobre a mediunidade, a fim de esclarecer os leitores sobre essa faculdade dada por Deus e espalhada por Jesus, que deve ser vulgarizada, no bom sentido, sob a assistência do próprio Mestre. Tais artigos foram elaborados e publicados nos meses de abril a setembro de 2022. 

   Concluída a série sobre mediunidade, nosso Diretor nos pediu que publicássemos também alguns artigos sobre reuniões espíritas no lar, e é o que faremos com base nas orientações que ele mesmo deu em suas obras.

 

O aspecto mais belo e mais consolador do Espiritismo

 

   Segundo o Espírito de Verdade, nosso bom Jesus, o que o Espiritismo tem de mais belo e de mais consolador são "as relações do mundo visível com o mundo invisível, dos homens com os seres que lhes são caros e que estariam assim perdidos para eles sem retorno. São essas relações que identificam o homem com o seu futuro, que o desprendem do mundo material; suprimi-las é remergulhá-lo na dúvida que faz o seu tormento; é dar um alimento ao seu egoísmo."1

   O Espiritismo é de origem divina, ele veio para todos os que quiserem obter o consolo nas relações com os afetos mortos, identificar-se com a vida futura e desprender-se do mundo material, não importando a que culto pertençam. É para que fique mais clara essa questão que nosso mestre Allan Kardec nos aconselhou a publicar alguns artigos sobre as reuniões espíritas.

   Reproduziremos ao longo deste artigo, trechos da comunicação que recebemos dele nos explicando o objetivo da publicação de tais artigos:

   "O nosso principal objetivo com esses artigos é despertar os leitores da Revista para os benefícios infinitos que eles poderão colher com as reuniões espíritas, tendo obviamente nelas a participação ativa dos Espíritos; se dizemos benefícios infinitos é porque o despertar de um encarnado para a sua realidade espiritual não tem limites, pois são as forças internas do ser espiritual descobrindo-se Espírito, para muito além da vida animal.

   "Devemos mostrar aos leitores a simplicidade que devem ter as reuniões espíritas, retirando o aspecto místico ou sobrenatural com que foram envolvidas, afastando os medos com as luzes da razão, lembrando que a instrução é o melhor antídoto contra a mentira, as falácias, o temor do diabo ou dos maus Espíritos.

   "Aos poucos, cada Anjo, cada protetor auxiliará seus protegidos a superar os preconceitos, os medos que percebam em cada núcleo familiar, e o farão de bom grado porque essa é a missão deles." Allan Kardec2

 

Culto do Evangelho no Lar

 

   Uma prática que se popularizou nos lares espíritas, especialmente no Brasil, é o que se convencionou chamar de "Culto do Evangelho no Lar" ou simplesmente "Evangelho no lar". É um momento em que a família se reúne para ler e comentar os ensinos contidos nas obras espíritas, especialmente em O Evangelho segundo o Espiritismo. 

 

O que é um culto?

 

   A palavra culto tem muitos significados, mas vamos tomar aqui somente os que correspondem ao nosso assunto, ou seja, os cultos domésticos que são: "Leituras piedosas, preces feitas em comum no interior de uma mesma família; tem por sinônimos mais usuais: adoração, devoção, veneração."3

   Para que esses festins de leituras piedosas, essas preces feitas em comum no interior de uma mesma família possam tornar-se uma reunião espírita no verdadeiro sentido do termo, o que é necessário? Convidar a se comunicarem os Espíritos familiares, os protetores, os Anjos guardiães, que muitas vezes delas participam em silêncio. Ou seja, incluir o que aí está faltando: os Espíritos.

    "Um ponto importante que deve ser bem compreendido é o fato de que não há divisão, não há solução de continuidade entre o mundo dos vivos e o dos Espíritos, pois eles se interpenetram incessantemente. É, pois, a naturalidade com que deve ser encarada a comunicação entre vivos e mortos, praticada e registrada em nosso periódico pelos artigos, que se deve colocar a olhos vistos. Cremos que centenas de leitores despertarão para esse tesouro até então ignorado, embora ainda haja um receio quase generalizado com relação à evocação dos Espíritos. É para ir derruindo aos poucos as falsas ideias que os artigos publicados hoje na revista têm contribuído. Esse é o melhor meio de instruirmos os leitores de boa vontade, deixando de lado a crítica injustificada, feita por aqueles que criticam sem se ocuparem eles mesmos do Espiritismo experimental. Propor aos espíritas que abram as portas do seu "Culto do Evangelho no Lar", é a medida mais adequada para acrescentar o que ali estava ausente: os Espíritos. É assim que, de maneira simples e natural, se deve passar a palavra àqueles que amam seus afetos vivos, que querem ajudá-los e, com o olhar mais abrangente de Espíritos livres, consolar, proteger e amar seus seres queridos.

   "Estai certos de que aqueles que se reúnem em nome de Jesus para ler e refletir sobre as palavras do nosso Mestre, terão naturalmente em seu meio os Espíritos familiares, os Anjos guardiães, e Jesus mesmo." Allan Kardec4

 

Jesus, o convidado que jamais faltará

 

   "Em qualquer lugar que se encontrem duas ou três pessoas reunidas em meu nome, eu aí me encontro no meio delas. (S. Mateus, 18:20.)

   "Estar reunidos em nome de Jesus não quer dizer que baste estar juntos materialmente, mas estar-se espiritualmente pela comunhão de intenções e de pensamentos para o bem; então Jesus se encontra no meio da assembleia, ele ou os Espíritos puros que o representam."5

   Essa é uma verdade que infelizmente muitos cristãos têm esquecido, acreditando que a assistência de Jesus só estaria em determinados lugares, sem considerar o ponto principal que é estarem reunidos em comunhão de intenções e de pensamentos para o bem. A afirmativa de Jesus que diz, em qualquer lugar, reiterada por Allan Kardec, bastaria para derruir a falsa ideia de que só se estará sob a proteção de Jesus, ou de um Espírito puro que o represente, em certos locais ditos seguros, ou privilegiados.

 

O roteiro infalível para a felicidade vindoura

 

   "Toda a gente admira a moral evangélica; cada um lhe proclama a sublimidade e a necessidade, mas muitos o fazem por confiança no que ouviram dizer, ou na fé em algumas máximas que se tornaram proverbiais; poucos, no entanto, a conhecem a fundo, menos ainda a compreendem e sabem deduzir-lhes as consequências. A razão está, em grande parte, na dificuldade que apresenta a leitura do Evangelho, ininteligível para a maioria. A forma alegórica e o misticismo intencional da linguagem, fazem que a maioria o leia por desencargo de consciência e por dever, como lêem as preces, sem as entender, isto é, sem proveito. Passam-lhes despercebidos os preceitos de moral, disseminados aqui e ali, intercalados na massa das narrativas; é impossível, então, abarcar o conjunto e tomá-los para objeto de uma leitura e de uma meditação à parte. (...)"

   "Para obviar a esses inconvenientes, reunimos, nesta obra [O Evangelho segundo o Espiritismo], os artigos que podem compor, a bem dizer, um código de moral universal, sem distinção de culto. Nas citações, conservamos o que é útil ao desenvolvimento da ideia, pondo de lado unicamente o que se não prende ao assunto. (...)"

   "Esta obra é para uso de todos; cada um pode nela haurir os meios de conformar sua conduta à moral do Cristo. Os espíritas nela também encontrarão as aplicações que lhes concernem mais especialmente. Graças às comunicações estabelecidas doravante de maneira permanente entre os homens e o mundo invisível, a lei evangélica, ensinada a todas as nações pelos próprios Espíritos, não será mais uma letra morta, porque cada um a compreenderá e será incessantemente solicitado a colocá-la em prática, pelos conselhos de seus guias espirituais. As instruções dos Espíritos são verdadeiramente as vozes do céu que vêm esclarecer os homens e convidá-los à prática do Evangelho." Allan Kardec6

 

Instruir-se com os Espíritos é dar prova de humildade

 

   "Outro ponto importante a considerar é que o hábito de dirigir-se aos bons Espíritos para obter deles conselhos e instruções para bem se conduzir, é dar prova de humildade; e é pela via da humildade que é possível evitar tantas aflições desnecessárias." Allan Kardec7

 

O melhor meio para atrair bons Espíritos

 

   Se, para atrair Jesus ou outro Espírito puro a uma reunião, seja de duas ou mais pessoas, é necessário estarem elas espiritualmente unidas pela comunhão de pensamentos para o bem, qual seria o melhor meio para se obter essas condições, senão na intimidade da família, ou entre amigos sinceros?

 

Da comunhão de pensamentos

 

   "Comunhão de pensamentos! Compreendemos bem todo o alcance desta expressão? É permitido duvidar disto, pelo menos por parte da maioria. O Espiritismo, que nos ensina tantas coisas pelas leis que revela, vem ainda nos explicar a causa, os efeitos e o poder desta situação do espírito.

   "Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento é uma força. É, porém, uma força puramente moral e abstrata? Não, pois do contrário não se explicariam certos efeitos do pensamento e, ainda menos, da comunhão de pensamentos. Para compreendê-lo é preciso conhecer as propriedades e a ação dos elementos que constituem nossa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-las ensina.

   "O pensamento é o atributo característico do ser espiritual. É ele que distingue o espírito da matéria. Sem o pensamento, o espírito não seria espírito. A vontade não é um atributo especial do espírito; é o pensamento chegado a um certo grau de energia; é o pensamento transformado em força motriz. É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. Mas, se ele tem o poder de agir sobre os órgãos materiais, quanto maior não deve ser esse poder sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam! O pensamento age sobre os fluidos ambientes, como o som age sobre o ar; esses fluidos nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Pode-se dizer, portanto, com toda certeza, que há nesses fluidos ondas e raios de pensamentos que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros.

   "Uma assembleia é um foco de onde se irradiam pensamentos diversos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos onde cada um produz a sua nota. Disso resulta grande quantidade de correntes e de eflúvios fluídicos dos quais cada um recebe a impressão pelo sentido espiritual, como num coro de música cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.

   "Entretanto, assim como há raios sonoros harmônicos ou discordantes, há também pensamentos harmônicos e discordantes. Se o conjunto for harmônico, a impressão será agradável; se ele for discordante, a impressão será penosa. Ora, para tanto, não é necessário que o pensamento seja formulado em palavras, porquanto a radiação fluídica não deixa de existir, quer seja ou não expressa. Se todos forem benevolentes, todos os assistentes experimentarão um verdadeiro bem-estar e se sentirão à vontade. No entanto, se ali se misturam alguns maus pensamentos, eles produzem o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido.

   "Essa é a causa do sentimento de satisfação que se experimenta numa reunião simpática; aí reina algo como que uma atmosfera salubre, onde se respira à vontade; daí se sai reconfortado, porque aí nos impregnamos de eflúvios salutares. Assim também se explicam a ansiedade e o mal-estar indefinível que sentimos num meio antipático, onde pensamentos malévolos provocam, por assim dizer, correntes fluídicas malsãs.

   "A comunhão de pensamentos produz, pois, uma espécie de efeito físico que age sobre o moral. É isto que somente o Espiritismo poderia tornar compreensível. O homem o sente instintivamente, porquanto procura as reuniões onde sabe que vai encontrar essa comunhão; nessas reuniões homogêneas e simpáticas, ele absorve novas forças morais. Pode-se dizer que ele aí recupera as perdas fluídicas que ocorrem diariamente pela radiação do pensamento, assim como recupera pelos alimentos as perdas do corpo material.(...)"8

   Nesse primeiro artigo buscamos deixar claro o objetivo dessa série sobre as reuniões espíritas no lar. Continuaremos a tratar desse assunto nas próximas edições, a fim de reunir um conjunto de instruções que possam ser úteis àqueles que desejam aproveitar todos os benefícios que se podem obter na comunicação com os Espíritos. É aconselhável que se leiam os artigos já publicados sobre mediunidade em nossa revista.

 

   __________

   1 O Livro dos Médiuns, cap. XXVII - Das contradições, item 301

   2 Por psicofonia, dia 10 de agosto de 2022.

   3 Dictionnaire Français TLF - Trésor de la Langue Française Informatisé

   4 Por psicofonia, dia 10 de agosto de 2022.

   5 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVIII - Coletânea de preces espíritas - I - Preces gerais - Reuniões espíritas.

   6 O Evangelho segundo o Espiritismo - Introdução - I - Objetivo desta obra

   7 Por psicofonia, dia 10 de agosto de 2022.

   8 Revista Espírita, dezembro de 1864 - Da comunhão do pensamento - A propósito da comemoração dos mortos.

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