A mediunidade na educação moral da infância
A Sra. E., que é espírita, enviou-nos um relato de suas experiências com o Espiritismo prático no lar. Nós compartilhamos a narração dessa mãe dedicada, porque acreditamos que o seu exemplo poderá ser útil aos nossos leitores e quiçá despertar nos pais espíritas o desejo de imitá-la. Eis o que ela nos escreveu:
"A minha intenção ao compartilhar essa experiência é para que outras pessoas se encorajem a realizar em seus lares as reuniões espíritas, evocando seus afetos mortos e buscando a instrução dos bons Espíritos. Com isso, poderão compreender melhor as leis de Deus para viver em conformidade com elas, e fortalecer assim a fé no bom Pai. Eis um pouco da minha história:
Uma amiga e eu participávamos ativamente de um centro espírita e coordenávamos um grupo de estudos da Revista Espírita, o que nos permitiu conhecer o Espiritismo como Allan Kardec e os espíritas o praticavam.
Em 2015, essa amiga me apresentou os sites do Ipeak e do Geak, que passamos a pesquisar e ouvir os áudios dos estudos que realizaram de O Livro dos Médiuns, sobre a mediunidade. No final desse mesmo ano, nos encorajamos a iniciar os ensaios para o desenvolvimento da mediunidade escrevente. Obtive êxito e passamos, nós duas, com o auxílio dos membros do Geak, a evocar os Espíritos. Escolhemos Fénelon como nosso presidente espiritual. Percebemos o quanto o Espiritismo prático era vantajoso para a nossa instrução, comunicamos aos dirigentes do Centro que iríamos nos desligar dali.
Gostaria de relatar o espanto e medo que eles demonstraram ao saber que estávamos nos dedicando ao Espiritismo tal como Allan Kardec havia proposto, evocando os Espíritos. Pudemos observar quantas ideias preconcebidas possuíam, (que, aliás, nós também tínhamos, e muitas delas ainda temos). O medo fez com que os amigos tentassem, de todas as maneiras, nos dissuadir da decisão, pois acreditavam que se assim prosseguíssemos estaríamos perdidas. Como não conseguiram nos demover, pediram que saíssemos sem dizer aos demais trabalhadores os reais motivos pelos quais estávamos nos afastando, pois se disséssemos as pessoas poderiam querer vir atrás de nós porque conversávamos com os Espíritos.
Graças a Deus nos mantivemos convictas, e nos dedicamos a estudar com afinco as leis que regem as relações entre vivos e mortos.
Num dia eu realizava em meu lar, sozinha, o estudo com os Espíritos, em outro nos reuníamos na casa dessa amiga, e seguimos estudando e nos esclarecendo sobre a doutrina espírita, até que em 2018 minha filha nasceu, e não foi mais possível participar das sessões.
Como nessa época já havíamos formado um grupo com mais alguns amigos interessados no Espiritismo prático, minha amiga continuou com eles. Eu segui com os estudos e minhas obrigações no lar, mas agora dividindo o tempo também com os meus deveres de mãe. Nos primeiros tempos evocava nossos anjos esporadicamente, na intimidade, para que me dessem conselhos e orientações, sempre tão necessários, especialmente para uma mãe de 'primeira viagem', como se diz.
Em 2021, voltei a realizar semanalmente meus estudos com os Espíritos, à noite, assim que minha filha dormia, e chamava seu Espírito, emancipado pelo sono, a participar. Em algumas de suas comunicações, os Espíritos nos disseram que ela realmente participava da sessão. No entanto, eu queria muito que ela estivesse na reunião em vigília, mas achava que ela ainda não estava 'preparada'.
Um dia, uma amiga do Geak me aconselhou a fazer as reuniões com minha filha acordada, para que desde pequena aprendesse que conversar com os familiares mortos e os anjos guardiães deve ser um hábito natural. Eu imediatamente aceitei seu conselho e organizei a reunião para que ela pudesse participar.
Desde então, preparo uma fábula de Esopo e conversamos a respeito, sempre relacionando com o Espiritismo. Depois evocamos nossos familiares, anjos guardiães e demais Guias.
Antes de realizar a primeira reunião, evoquei meu anjo guardião para que me aconselhasse a respeito. Ele nos disse: "sua filha ansiava por participar das reuniões em vigília, pois queria que os ensinamentos do Espiritismo fossem as sementes plantadas em sua alma desde cedo. Ela rogava a Deus que pudesse participar da reunião para que fortalecesse sua fé, adquirindo a confiança em Deus e nos bons Espíritos."
Assim, em fevereiro de 2022, realizamos nossa primeira reunião espírita no lar, eu, ela, os familiares desencarnados e os bons Espíritos, pois meu esposo ainda não compartilha da crença espírita. Minha filha conheceu os familiares mortos, que lhe deram bons conselhos para que não se desvie do caminho do bem.
Seguimos realizando nossa reunião toda semana, um compromisso que fazemos com alegria. É muito interessante vê-la contar para os familiares que conversa com os Espíritos, especialmente com seu anjo, e que faz reunião com os mortos.
Até nas brincadeiras com as bonecas ela organiza a reunião espírita familiar, fala o que os Espíritos disseram, e geralmente é algo que ouviu na própria reunião.
Esses dias, eu a observei contando para um primo de seis anos: "você acredita que conversamos com um primo numa reunião e na outra com o pai dele, o meu tio, que já morreram?"
Vale ressaltar que durante o período de gestação eu segui o conselho de São Luís e Santo Agostinho que disseram: "não receeis fatigar-nos com as vossas perguntas. Ao contrário, procurai estar sempre em relação conosco." (Questão 495 de O Livro dos Espíritos) Evocava sempre o seu anjo guardião para receber conselhos, saber o que a alma dela precisava, no que eu poderia ajudá-la a progredir moralmente, pois os bons Espíritos nos instruíram que é possível 'pelos pensamentos e pelas preces dos pais, melhorar o Espírito do filho que lhes nasceu e está confiado. Esse o dever deles.' (Idem, 210).
Quando minha filha nasceu, prematura, precisou ficar no hospital por seis dias. Fortalecemos-nos na prece e nos dedicamos a aplicar-lhe o magnetismo com constância.
Os médicos diziam que ela ainda não conseguia respirar pelos pulmões. O pediatra me relatou: 'eu não sei o que está acontecendo com ela, pois já realizamos todos os exames e não encontramos nada.' Dedicamo-nos então com mais fervor à prece e ao magnetismo e, no terceiro dia, ela não precisou mais dos aparelhos para respirar.
O pediatra me perguntou:
- Qual a sua religião?
Eu respondi: sou Espírita.
- Ah, seus Santos são fortes, hein!
Eu lhe disse: eu sabia que daria tudo certo.
- Mas eu não, e fiquei com muito medo. Agarre-se aos Santos que logo sairão daqui.
No outro dia, ela teve alta da UTI, porém ficou em observação por mais dois dias. Quando achei que teria alta, teve icterícia e precisou ficar mais um dia.
Como toda a família e os amigos pediram a Deus por minha filha, uma prima me contou a seguinte experiência: 'eu estava na igreja rezando por sua filha, quando tive uma visão de que muitos seres iluminados estavam ao redor da incubadora, e que sua mãe (desencarnada) velava por ela. Eu não iria contar, porque você poderia achar que eu estava ficando louca, mas foi o que aconteceu.'
Agradeci imensamente por ela ter me relatado esse fato, pois foi mais uma prova para fortalecer minha confiança em Deus e nos bons Espíritos.
Descrevi esse episódio para dizer que, se não fossem as comunicações dos bons Espíritos me fortalecendo e me encorajando, com certeza eu teria desfalecido diante do sofrimento. Graças a Deus eles nos deram provas irrefutáveis de sua solicitude junto a nós.
Logo que minha filha nasceu, como temos o hábito de cantar para ninar o bebê, e sabemos a importância das ideias que ficam gravadas em nossa mente, me foi inspirada a seguinte canção, que até hoje canto para ela adormecer, e também quando desperta:
Chama, que os anjos vêm te cuidar,
fica tranquila, pelo nosso sono eles irão velar.
Chama, que os anjos vêm cuidar,
fica tranquila, pela nossa vigília eles irão velar.
Chama, que os anjos vêm nos proteger,
e a nossa coragem irão fortalecer.
Chama, que os anjos sempre vêm nos ajudar
e ao órgão enfermo irão curar.
Chama, que os anjos vêm nos ajudar,
o corpo e a alma irão curar.
Chama, que os anjos vêm nos instruir,
e nossa ignorância diminuir.
Chama, que os anjos vêm nos instruir,
para que a fé verdadeira possa surgir.
E conforme percebo que estamos precisando de algum outro auxílio, vou pedindo aos anjos para nos ajudarem.
Quando precisa, ela diz: 'mamãe chama os anjos para curar minha barriga?' Pega minha mão e a coloca no lugar para aplicar o magnetismo. E assim faz com todas as dores que sente.
Em uma instrução dada por seu anjo guardião, ele a aconselhou que 'ao ouvir a canção, imaginasse que ao dormir teria um encontro com ele para protegê-la e guiá-la no caminho do bem. Que, se estivesse com alguma dor, imaginasse a mão dele no local dolorido, curando a enfermidade.'
Compartilhei minha experiência no Espiritismo prático, pois tenho absoluta convicção de que as conversas com os familiares e os anjos guardiães, são decisivas para suportarmos com resignação e confiança as provas necessárias para progredirmos moralmente.
Posso afirmar que, para mim, as conversas com os anjos guardiães foram um divisor em minha vida, pois minha fé se fortaleceu. Ouvir daqueles que amamos, que continuam a se ocupar conosco e estão ao nosso lado nos inspirando bons pensamentos; instruir-nos com eles para que possamos corrigir nossos passos e bem aproveitar essa existência; ter a certeza de que são muitos os que velam por nós, e nos guiam pelo bom caminho, fez e ainda faz total diferença em minha vida."
Sra. E.
Outubro de 2022.
Palavras de Allan Kardec sobre o Espiritismo prático na educação das crianças
"Percebe-se que as crianças educadas nos princípios espíritas adquirem uma razão precoce que as torna infinitamente mais fáceis de governar. Nós as vimos em grande número, de todas as idades e dos dois sexos, nas diversas famílias espíritas onde fomos recebidos, e pudemos constatar por nós mesmos. Isso não as priva da natural alegria, nem da jovialidade, mas não existe nelas essa turbulência, essa teimosia, esses caprichos que tornam tantas outras insuportáveis. Ao contrário, têm um fundo de docilidade, de ternura e respeito filial que as leva a obedecer sem esforço, e as torna mais estudiosas. Foi o que pudemos notar, e essa observação nos foi geralmente confirmada.
"Se pudéssemos analisar aqui os sentimentos que essas crenças tendem a desenvolver nas crianças, conceberíamos facilmente os resultados que eles devem produzir. Diremos apenas que a convicção que têm da presença de seus avós, que estão ali, ao seu lado, e podem incessantemente vê-Ias, impressiona-as bem mais vivamente do que o medo do diabo, do qual acabam logo por descrer, enquanto não podem duvidar do que eles mesmos são testemunha todos os dias, no seio da família. Há, pois, uma geração espírita que se eleva e que vai incessantemente aumentando. Essas crianças, por sua vez, educando seus filhos nesses princípios, enquanto os velhos preconceitos se vão com as velhas gerações, é evidente que a ideia espírita será um dia a crença universal.
"Um fato não menos característico do estado atual do Espiritismo é o desenvolvimento de uma corajosa opinião. Se há ainda adeptos reprimidos pelo medo, o número destes é bem pouco considerável hoje em dia, ao lado daqueles que confessam alto e bom som suas convicções e não se constrangem de se confessarem espíritas, como não se constrangeriam de se confessarem católicos, judeus ou protestantes. A arma do ridículo, à força de ser arremetida sem abrir brechas e em face de tantas personalidades notáveis que proclamam, abertamente, a nova filosofia, acabou por se tornar inútil e foi posta de lado. Uma única arma permanece ainda em riste: a ideia do diabo [hoje diríamos a ideia dos maus Espíritos]. Mas, neste caso, é ao próprio ridículo que se faz justiça. Todavia, não foi apenas este gênero de coragem que verificamos, mas, também, aquela da ação, do devotamento, do sacrifício, isto é, a coragem daqueles que, resolutamente, se põem à frente na promoção das ideias novas em certas localidades, pondo em risco suas pessoas e enfrentando ameaças e perseguições. Eles sabem que, se os homens lhe fizerem mal, nesta curta vida, Deus não os deixará esquecidos."1
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