FIDELIDADE
A fé que afronta o ridículo dos homens
Uma vez que a alma não pode ser encontrada sem o corpo e todavia não é o corpo, pode estar neste ou naquele corpo e passar de corpo em corpo.
Giordano Bruno
(Julgamento de Veneza, 1592.)1
"Movi-me no seio dos poderosos da Terra, mas preferi o poder sobre mim mesmo.
Vivi entre gente cujas lantejoulas das glórias passageiras eram seu maior esplendor; preferi buscar a centelha que o Criador depositou em minha alma, para fazê-la aquecer de dentro para fora.
Senti o odor fétido dos bastidores da política deturpada pelo egoísmo; busquei estar em paz com a própria consciência.
Provei o beijo de judas, suportei seu fel, mas perdoei o amigo frágil.
Ouvi o grito de dor e de desespero daqueles que eram sacrificados em nome de Deus, mas não confundi o Criador com a criatura iludida que deseja tomar o lugar do Pai.
Provei as angústias da tortura, experimentei a solidão, o abandono dos amigos, o escárnio mais vil nos calabouços infectados, lembrei-me do Homem de Nazaré, e calei-me.
Tive fome e sede de justiça e senti-me reduzido à mais contundente impotência diante do poder reinante, até ao ponto de não mais poder expressar-me por palavras... Bebi o cálice do meu próprio sangue, mas minha convicção no amor e na justiça divinos, tornaram-no de suave sabor.2
A verdade era meu foco, meu sustentáculo, mas não poderia usá-la para ferir aqueles que não a podiam suportar.
Eu possuía a visão do infinito, das transmigrações da alma, embora ainda mesclada de erros, mas nítida o suficiente para manter-me confiante na eternidade da vida.
Até o derradeiro momento, com as labaredas ardendo em meu corpo já cansado, fui firme em meus princípios, meus ideais, minha fé. Em nenhum momento tive medo, porque meu olhar vagava pelos mundos infinitos, pelas muitas moradas da casa do Pai, que já vislumbrava nos sonhos...
Assim, dentro do que me propus naquela curta existência, eu venci os apelos do mundo, e eles não foram poucos. Se a tudo isso quiseres atribuir uma virtude, podes chamar: fidelidade."
Giordano Bruno
(Psicografada em 1º de fevereiro de 2011.)
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1 Do livro Reencarnação, o elo perdido do cristianismo, de Elizabeth Clare Prophet. Ed. Nova Era. 2a. ed. Rio de Janeiro, 1998.
2 Giordano Bruno foi executado na fogueira pela Inquisição romana, em 17 de fevereiro de 1600. Antes de ser levado da prisão para o cadafalso sua língua foi cortada para que ele não falasse durante o trajeto.
"Tochas acesas iluminavam a pálida manhã de fevereiro. Os expectadores acotovelavam-se para ver a procissão. Aqueles oitocentos metros seriam percorridos lentamente, desde a Torre de Nona, onde o prisioneiro estivera encarcerado, até o Campo das Flores, uma praça ampla onde seria executado. O filósofo de 52 anos caminhava vagarosamente sobre as pedras de calcário que pavimentavam as estradas de Roma. Descalço e acorrentado pelo pescoço, vestia um lençol branco ornamentado com cruzes e salpicado de demônios e chamas vermelhas. (Elizabeth Clare Prophet).

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