Uma reconciliação de além-túmulo
Nelson e Ana se amavam. Por isso mesmo desejaram expandir esse amor compartilhando-o com os filhos que planejavam ter, formando assim uma família feliz. Compraram uma casa, se casaram, e depois de alguns anos tiveram um filho.
Segundo Ana, seu esposo tinha o hábito de beber alcoólicos e às vezes "passava do ponto" nos finais de semana, ou quando eles iam a alguma festa. No entanto, no decorrer dos anos o hábito tinha se tornado um vício, que cada vez se agravava mais.
As discussões se tornaram constantes, pois Ana buscava alertar o marido sobre o mau exemplo que ele dava ao filho ao embriagar-se, e sobre os perigos de tal vício, mas ele não lhe dava ouvidos. Para evitar discussões, Nelson passou a esconder bebidas no quintal a fim de beber escondido, mas não conseguia esconder sua embriaguez.
Cansada de tantas discussões inúteis e para evitar que o filho crescesse com tal exemplo, Ana se mudou com ele para a casa de seu pai, já viúvo. Conseguiu um emprego de cozinheira numa empresa e assim provia o próprio sustento e o de seu filho, complementando assim a pensão que o menino recebia do pai. Nelson permaneceu em sua casa, agora morando sozinho.
Mesmo separados Nelson e Ana tinham uma boa relação de amizade. Ela ensinou o filho a respeitar o pai e jamais os impediu de estarem juntos sempre que quisessem, desde que Nelson estivesse sóbrio.
Em meados de 2021 Nelson foi encontrado morto no interior da própria casa, acometido por um mal súbito. Passado um tempo após sua morte, Ana colocou a casa onde ele morava para alugar e logo ela foi ocupada pelos inquilinos.
Logo depois que os locatários passaram a viver na casa onde antes residia Nelson, Ana passou a sentir que algo não estava bem com ela, com sua saúde, antes tão equilibrada. Foi então que procurou o auxílio de uma família espírita que reside na mesma cidade que ela. Eis o que a própria Ana nos relatou.
"Uns três meses depois que Nelson faleceu, eu comecei a me sentir mal, a ter dor de cabeça, a chorar sem motivo, não dormia mais, escutava batidas dentro de casa, sentia cheiros estranhos, tinha náuseas, não conseguia me alimentar direito, tinha uma inquietação incontrolável e não me sentia bem em lugar algum. Tinha a sensação de que sempre havia alguém me acompanhando e me observando. Por fim, eu não conseguia mais me entender. Apesar do sofrimento, eu continuava cumprindo minhas obrigações na empresa onde trabalhava; mas, como eu chorava muito, meu chefe me encaminhou para uma psicóloga e uma assistente social do município onde resido. Elas me fizeram muitas perguntas e chegaram à conclusão de que eu não precisava de um psiquiatra, nem de fazer uso de medicamentos, porque eu não queria me matar, não queria matar ninguém, só queria resolver meu problema e voltar a me sentir bem.
"Nesse meio tempo eu tinha sonhos, eu sonhava que poderia ser perceptiva, ter alguma faculdade que desconhecia, enfim, sonhos que eu mesma não entendia. Quando acordava, parecia que tinha alguém perto de mim. Até que um dia abri a janela e pedi a Deus, aos Espíritos, ao Sol, à Natureza que me dessem uma luz para que eu encontrasse solução para tudo isso, porque queria me sentir bem, me encontrar. Então veio no meu pensamento que era para eu ler sobre "perceptiva". Foi então que busquei na Internet o que significava isso. Aí me veio a intuição de ler sobre mediunidade. Depois que li sobre mediunidade voltei a conversar com a psicóloga e a assistente social sobre a intuição que tinha tido e que era muito forte. Era como se uma pessoa falasse na minha mente, era como se uma pessoa falasse para eu escutar, mas eu não via ninguém. A psicóloga então me falou que era para eu rezar, para procurar outras alternativas, porque eu não parecia ser uma pessoa desequilibrada que precisasse tomar remédio forte. Disse que realmente a mediunidade existe, que existem pessoas sensitivas, e que muitos médicos reconhecem, já que existem estudos sérios sobre isso; disse que essas questões podem ser resolvidas de uma outra maneira, porque não são doenças do corpo.
"Então que me veio a ideia de procurar alguém que entendesse de mediunidade e encontrei uma família espírita, e com a ajuda dela consegui descobrir a causa das minhas perturbações.
"A mãe da família espírita, que é magnetizadora, me disse que os passes magnéticos poderiam ajudar a me sentir melhor. Então fui algumas vezes na casa dela para receber esse novo tratamento. Numa das aplicações do passe ela percebeu um Espírito perto de mim. Quando me disse como ele era, reconheci meu ex-marido, já falecido. Ela disse que talvez ele ainda se julgasse vivo, e que se eu quisesse, se tivesse coragem, seu grupo me ajudaria a conversar com ele, pela mediunidade, para eu saber porque ele estava perto de mim. Então marcamos um dia e eu fui à casa deles. Eu fui e consegui resolver meu problema. Conversei com ele, e hoje me sinto mais leve, mais tranquila. No mesmo dia que conversei com meu ex-marido, a minha mãe, falecida há várias anos, também veio se comunicar e me deu bons conselhos. Ela disse que ela mesma veio, durante o meu sono, me falar para ler sobre mediunidade, porque sabia que assim eu encontraria a solução para os meus problemas. E foi o que aconteceu.
"Hoje me sinto bem melhor, bem tranquila. Então posso dizer que esse foi o caminho que me levou à solução das perturbações que vinha sentindo e à minha melhora, foi o que me ajudou a me encontrar.
"Hoje eu agradeço muito ao grupo espírita que me ajudou e aos Espíritos que me deram uma luz, porque se não fosse isso talvez eu acabasse ficando louca."
"A morte do meu marido foi sofrida para mim, passei uns dois meses de muito sofrimento, porque pra mim as coisas tinham que ser diferentes. Ele bebia muito, e eu queria que ele conseguisse se reerguer, conseguisse melhorar e ter uma boa relação com a família, com as pessoas, mas ele não conseguiu. Cada vez ele bebia mais, então pra mim foi uma grande frustração quando ele faleceu, porque eu queria que ele melhorasse, tentava ajudar, mas infelizmente não deu certo. Talvez a trajetória dele era essa. Ele tinha um filho comigo, e eles tinham uma boa relação, e era também pelo nosso filho que eu queria que ele se melhorasse, que pudesse ver ele crescer, ficar adulto, enfim, foi um período muito conturbado pra mim. Mas quando comecei a me acalmar foi que comecei a sentir o que contei acima."
"Meu marido não acreditava muito em Deus, era meio ateu. A gente falava pra ele falar com Deus, ir à igreja, mas ele não se ajudava, e deu no que deu. Chegou um dia que ele enfartou, sem mais, sem menos, na casa onde morava sozinho, onde foi encontrado seu corpo caído no chão, ao lado de uma parede onde tinha batido a cabeça na queda. Feita a autópsia, foi constatado que a causa da morte foi infarto."
No dia 6 de maio de 2022 Ana participou de uma reunião junto da família espírita que a estava ajudando, para evocar o Espírito de seu marido.
Primeira conversa com o Espírito de Nelson
Vamos reproduzir o diálogo tal qual ele se deu, em linguagem coloquial, entre o Espírito e Ana. Ela conversou o tempo todo entre soluços e grossas lágrimas, e o Espírito não estava menos emocionado. Foi uma conversa das mais tocantes, pois apesar de ser a primeira vez que Ana conversava com um Espírito, ela o fez de maneira natural, embora sob fortes emoções.
Evocação do Espírito de Nelson, em nome de Deus.
- Eu aqui estou.
1. (Ana) Eu quero saber se você está bem.
- Que bom que você está me ouvindo, Ana! É bom ouvir sua voz. Se você respondeu é porque está me ouvindo, né?
2. Sim, eu estou te ouvindo, eu quero saber o que você precisa, se você precisa alguma coisa de mim, se você tá bem.
- Eu não estou bem. Tenho passado muito mal, e não sei o que aconteceu comigo, e porque de uma hora para outra me encontro nessa situação. Eu sinto muita dor na minha cabeça. Agradeço muito por você me chamar, por estar falando comigo.
3. Mas do que você precisa? Eu quero que você fique bem.
- Eu não sei como, mas preciso sair da situação em que me encontro. Tenho andado perambulando, por isso te procurei. Eu quero te pedir desculpas por ter ido morar com vocês, mas não teve outro jeito depois que você alugou a casa.
Observação: nota-se que esse Espírito não é mau, pois preferiu sair de casa a atrapalhar os inquilinos, mesmo que para ele estivessem invadindo sua casa, já que ele ainda se julgava vivo.
4. Mas eu quero que você siga o teu caminho agora e eu sigo o meu. Eu vou rezar pra que você consiga se encontrar. Quero que me perdoe também, por eu ter alguma falha com você.
- Nesse caso, sou eu que quero pedir perdão. Nunca conversamos sobre isso depois daquele acontecimento, né?
Observação: o tal acontecimento só ambos conheciam, e não tivemos a indiscrição de perguntar do que se tratava.
5. Porque você nunca me deu espaço pra conversar com você.
- Eu entendo, mas eu não te cobro nada. Não tenha medo de mim. Eu sei que tudo isso aconteceu porque você tinha medo de mim, e não te tiro a razão, mas agradeço por que você nunca afastou o nosso filho de mim.
6. O menino é teu filho e nunca vou afastar ele nem da família tua.
- Eu sei que você tem um bom coração. Você tem a responsabilidade que eu não tenho. Você, sozinha, teve a coragem de sair, levando nosso filho ainda pequeno. Arregaçou as mangas e trabalhou, não deixou faltar nada pra ele. Eu já não posso dizer o mesmo.
7. Eu não quero que você se culpe por isso, porque eu acredito que você tinha que aprender alguma coisa e eu também. Foi um aprendizado na nossa vida. Agora eu acredito que cada um tem que seguir o seu caminho. Eu tenho muito pra fazer aqui nessa Terra. E você precisa se redimir, se ajudar, e eu também vou te ajudar a virar uma alma boa, porque agora não adianta, não tem mais o que fazer. Eu tô aqui e você tá lá. O que a gente tinha que passar junto a gente já passou.
- Não entendo quando você diz que eu estou lá. Quando me dei conta, eu vi que na casa que eu morava não tinha mais espaço pra mim, mas eu não cobro nada de você. Foi por isso que eu te falei no início que fui colocado nessa situação, e agora estou morando onde você mora, porque não tenho pra onde ir.1
8. (Um membro do grupo, mais experiente na conversa com Espíritos que se julgam vivos, interveio) Nelson, você me ouve?
- Sim.
9. Sou amiga da Ana. Ela nos pediu para ajudá-la a conversar com você, pois não tem conseguido ouvi-lo direito. Nós compreendemos a sua situação. Temos amigos que podem ajudá-lo a sair desse sofrimento. Você tem fé em Deus?
- Eu acredito muito pouco em Deus, e há tempos nem tenho pensado nele, porque sei que não mereço que ele me ouça.
10. Pois foi Deus que lhe enviou o socorro. Bons amigos estão bem próximos, mas você não os vê porque está bastante envolvido com seus problemas, com suas dores.
- Não sei se você me entende, mas eu não tenho amigos por causa da vida que eu levo. Você diz isso porque não me conhece.
11. Deus o conhece e nunca o deixou sem um Anjo guardião para protegê-lo. Deus é um pai que ama e cuida de todos os filhos, principalmente daqueles que não têm muito juízo. Você nunca esteve sozinho, acredite.
- Eu sempre me senti muito sozinho. Mesmo que a minha mãe sempre olhe por mim e meu filho sempre me procure, eu sou um desgraçado.
12. Deus compreende a sua fraqueza e nós queremos ajudá-lo. Temos plena confiança em Deus, que jamais abandona seus filhos. Pedimos que confie no que lhe dizemos.
13. (Ana) Você não queria ajuda de ninguém, nunca quis. Eu tentava te ajudar, mas você não queria.
- Eu te entendo. Até os estranhos tentam me ajudar, e deve ser por isso que eu estou nessa situação.
14. (Ana) Você achava que era sempre correto, e nunca parou pra pensar.
- Você fala isso porque não conhece a minha intimidade, os meus pensamentos, o que vai dentro de mim. Não vê a amargura que eu carrego, o arrependimento por nunca ter sido um bom pai. Isso só faz aumentar mais a minha dor. E não é só essa dor que eu sinto, a minha cabeça parece que vai arrebentar! Tudo foi transbordando e hoje eu estou nessa situação.
15. (Membro do grupo) Nelson, agora você aceita ajuda?
- Eu aceito. Agora eu compreendo e aceito, porque já não sou mais nada! Já percebi que não consigo mais nada sozinho. Estou procurando me acalmar, porque estou muito agitado e angustiado. Eu tenho sofrido, tenho chorado, tenho gritado, eu tenho...
16. Pois agora você está sendo forte. Quando reconhecemos a nossa fraqueza é que somos verdadeiramente fortes. Vamos fazer uma prece juntos, para que você se acalme mais rapidamente?
- Eu aceito.
17. Você e a Ana se sentirão bem ao orarem juntos. Vamos fazer com vocês a prece que Jesus nos ensinou, aquela que todos conhecem como Pai Nosso. Coloque seu sentimento sincero em cada palavra para falar com Deus. Nós só sofremos porque esquecemos do Pai, mas ele nos ama e ouve as nossas preces.
- Farei isso. Sinto que estou num lugar onde as pessoas me entendem. Até agora eu estava muito perturbado, mas aqui consigo até ter um pouco mais de clareza nos pensamentos.
18. Então vamos aproveitar para conversar com nosso bom Pai. (Após a Oração Dominical, as seguintes palavras foram acrescentadas: pedimos, bom Deus, que abra os olhos desse seu filho que sofre e o ajude a ouvir os bons Espíritos que querem auxiliá-lo a sair da perturbação em que se encontra.) Você ouve o que esse amigo que está ao seu lado lhe diz, Nelson?
- Assim como ouço a sua voz, ouço também a dele.
19. O que ele lhe diz?
- Que é pra eu me acalmar. Eu não o vejo, mas ele disse que vai me ajudar. Eu preciso me acalmar. De nada adianta fazer o que eu estou fazendo, me julgando a pior das criaturas.
20. (Ana) Você não é a pior das criaturas. Você tem que aprender, como eu aprendi. Precisa se arrepender dos erros e mudar, como eu mudei muito na minha vida depois que você faleceu. A minha mudança foi muito grande. Então você tem que mudar também, você tem que aprender a ser alguém diferente, a perdoar as pessoas, como eu aprendi. Precisa conversar com Deus, rezar por quem está ao redor de você, como eu aprendi. Eu aprendi a ser uma pessoa diferente depois que você morreu.
21. (Membro do grupo) Você entende isso, Nelson?
- Não entendo o que ela diz.
Observação: como o Espírito ainda se julgava vivo, não entendia quando Ana falava do seu falecimento, o que é comum nesses casos. Por isso é preciso tato para auxiliar um Espírito que se encontra nessa situação.
22. (Ana) Eu mudei muito. Não quero ter raiva das pessoas, não quero ser a pessoa que eu era! Eu não quero brigar com você que nem eu brigava. Discutir, sem ter paciência pra te entender quando você era vivo. Eu quero ser, agora, na Terra, uma pessoa diferente. Você tem que aprender a ser diferente também. Tem que valorizar quem quer te ajudar, tem que valorizar as pessoas, tem que valorizar Deus. O teu filho é um menino maravilhoso, um menino que entende as coisas. Tem muita criança por aí que não entende as coisas, mas o teu filho entende muita coisa e sabe perdoar.
- Sim. Eu conheço o meu filho e sei o quanto você o educou bem, e é por isso que eu me culpo ainda mais por não ser um bom pai.
23. (Membro do grupo) A culpa não resolve nada, Nelson. É preciso deixar de lado esses fantasmas internos que você mesmo criou e ouvir a voz da razão. Busque ouvir o nosso amigo, pois ele o ajudará. Pergunte o nome dele.
- Ele diz que é seu amigo, que você o conhece, e se apresenta como padre. Agora posso vê-lo. Há muito tempo eu não busco estar perto de um padre para pedir conselhos. Ele toca o meu ombro e se apresenta dizendo se chamar Félix.
24. Sim, ele é nosso amigo.
- Ele não me condena, ao contrário, diz que todos somos irmãos e que Deus é o Pai de todos nós. Diz que posso confiar porque ele veio para me ajudar. Eu aceito a ajuda dele e vou precisar aprender tudo de novo, mas se ele tiver paciência eu vou me esforçar.
25. Oportunamente nós o chamaremos novamente para saber suas notícias. Pode ser?
- Pode ser. E eu Agradeço. Não sei bem onde estou, mas me foi muito agradável estar aqui neste lugar onde fui muito bem recebido. Eu não sei como vou aprender, mas Félix está aqui me dando bastante esperança. Agora ele me convida a me retirar e a acompanhá-lo. Agradeço muito por vocês terem me ouvido e por terem tido paciência de falar comigo.
Ana, você deve estar surpresa por me ouvir falando assim, mas é que aconteceu alguma coisa na minha vida, alguma coisa que eu não consigo entender, mas tenho pensado muito, tenho pensado muito em tudo. Agora vou conversar com esse amigo que está aqui e tentar entender o que aconteceu.
26. Logo você vai compreender tudo o que está acontecendo. Confie em Deus, porque foi ele que enviou nosso amigo Félix para lhe auxiliar.
- Vou confiar no que você tá me dizendo. Adeus.
(Por psicofonia, dia 6 de maio de 2022.)
Sessão do dia 14 de maio de 2022
Ana participou uma segunda vez de uma reunião espírita familiar para conversar novamente com o Espírito de Nelson.
Evocação, em nome de Deus.
- Eu aqui estou. Vocês me chamam e eu venho, agradecido por me chamarem. Como já disse, aqui me sinto bem. Tenho recebido bons conselhos do Félix, e ele me disse que posso confiar em vocês. Ana, você sabe o quanto me era difícil confiar em alguém, porque sempre tive uma desconfiança muito grande, mas agora vejo que preciso vencer isso.
1. (Ana) Como você tá, Nelson? Você tá conseguindo se encontrar, tá melhorando? Realmente você tinha uma desconfiança muito grande. Você não conseguia confiar em ninguém.
- Carrego isso comigo ainda, mas agora esse amigo tem me ajudado muito. Amigo, eu digo a quem nem conhecia, porque hoje sei que posso confiar nele. Eu estava buscando compreender a minha situação nessa nova vida em que me encontro, e ele me ajudou a entender. Tá sendo muito difícil... Coisas inesperadas acontecem na nossa vida, e quando achamos que já passamos por tudo, novas coisas acontecem. Mas agora eu estou tendo o suporte desse amigo que está me explicando as coisas e me ajudando a compreender.
2. Então já sabe o que se passou?
- Sim. Eu achei que fosse mais forte, mas tenho chorado muito. Sempre aprendi que homem não chora, mas agora é preciso. O Félix me diz: pode chorar, amigo, mas depois seque as lágrimas e siga adiante.
3. (Membro do grupo) É um sábio conselho, porque as lágrimas nos impedem de ver claro o caminho. Graças a Deus você está em boa companhia.
- Sim, Deus enviou o socorro desse amigo e mais alguém veio depois pra me auxiliar. É tua mãe, Ana.
4. (Ana) A minha mãe?
- Sim, a tua mãe. Ela sempre teve um bom coração. E eu que achei que ela me condenasse, que nunca mais quisesse falar comigo, me surpreendi quando a percebi na minha frente.
5. Pois você morreu bem no dia que minha mãe morreu, dia 08 de agosto. É coincidência? Eu não sei. Mas a minha mãe, em vida, rezou muito por você, muito mesmo, enquanto nós tava juntos. Você pode não saber disso, mas eu sei que a minha mãe fez muita novena pra você.
- Eu acredito.
6. (Membro do grupo) Pode contar-nos como foi quando ela se apresentou a você, Nelson?
- Eu confesso que levei um susto e disse: dona Helena, a senhora já morreu! Ela me disse: eu estou viva, Nelson, e você também. E passamos a conversar. Pedi que ela me perdoasse e ela disse que não era necessário, porque não guardou em seu coração nada de mágoa que fosse necessário agora perdoar. Desde então ela tem estado comigo e também me ajudado a compreender a minha situação.
7. Com seus esforços, com a ajuda de Deus e dos bons amigos, você poderá deixar para trás esse passado infeliz e escrever uma nova história. Poderá assim auxiliar seu filho, a Ana, e tua mãe que ainda está viva no corpo.
- Não é fácil deixar o passado, porque as lembranças são muito vivas em mim. Lembro da vida que tive, sempre fugindo, sempre fugindo das situações, sem coragem para resolver nada... não é nada fácil. Eu recebi muito, mas não soube dar valor. Eu podia ter continuado no mesmo pensamento, nas mesmas emoções, no mesmo amor que sentia pela Ana no início, e o amor ter vencido. Mas não foi assim...
8. Como a vida não acaba, se você não soube aproveitar antes poderá aproveitar daqui em diante. Terrível seria se o seu sofrimento fosse eterno e não houvesse oportunidade de reparar as faltas. Graças a Deus assim não é. O importante agora é renunciar a todas as expectativas de um passado melhor, pois o passado não será melhor do que foi. Lembre-se de que tem a eternidade pela frente.
- É, se eu conseguir...
9. (Ana) Você vai conseguir, Nelson, vai conseguir! Você pode ter cometido muitos erros, mas teve muitos acertos também. Temos um menino maravilhoso, inteligente. O que passou passou. Tivemos momentos bons, e agora você tem que se encontrar nesse mundo diferente onde está. O meu ainda é aqui. O teu é aí. Eu não tenho nenhuma mágoa de você, quero que fique bem aonde você estiver e não sofra mais. Peço que deixe o passado de lado, porque foi um aprendizado, mas agora já passou, tanto pra mim quanto pra você e para as pessoas que conviveram com nós.
- Eu quero te pedir perdão, Ana. Eu preciso do teu perdão sincero, do fundo do teu coração!
10. Você já está perdoado, Nelson. Eu não tenho nenhuma mágoa de você. Eu quero que você também me perdoe, porque nessa vida eu também tive meus erros, mas não tenho nenhuma mágoa de você. Ao contrário, você me ensinou muito, muito.
- Eu não posso imaginar o que foi que eu te ensinei...
11. Você me ensinou, sim, Nelson, me ensinou que não se deve julgar as pessoas, e sim, ajudá-las quando possível. Todos têm suas dificuldades. Você me ensinou perdoar, a ver as coisas de uma forma diferente, a ser menos egoísta, porque não vale a pena ser egoísta. A vida dá muitas voltas: o que é teu volta, e o que não é teu não é pra ser, e nada daqui a gente leva. Você não tem ideia do susto que eu levei no dia que alguém chegou e me disse que você tava morto. Você não tem ideia, ninguém tem ideia! Pra mim isso nunca ia acontecer. Você ia envelhecer lá, e eu aonde eu estava, mas ainda por perto. A vida deu tantas voltas, e você me ensinou tanto, me ensinou tanto que não faz nem ideia. Eu aprendi com você que a vida é curta, que tem que dar valor às pessoas que tão ao redor da gente.
- Então hoje eu quero te dizer que continuo vivo, Ana, e estou aqui falando com você. Eu não queria te assustar com a minha morte. Eu também passei pela situação de não saber o que estava acontecendo comigo, porque não esperava que as coisas fossem tão rápidas assim. Eu não quero que você pense que eu morri e que isso te traga qualquer sofrimento, porque eu já te causei muitos. Você está aqui falando comigo. Quero que tenha essa certeza: eu continuo vivendo. Eu também não esperava isso, mas é uma pura realidade. Eu estou vivo, Ana, e tendo essa grande oportunidade de falar com você. Você sempre foi forte, como eu já disse, e muito trabalhadeira. Admirei muito você e continuo admirando. O que você fez pelo nosso filho e continua fazendo, a educação que deu a ele, é tudo mérito teu. Não sei se um dia ele vai me perdoar, mas quero que ele saiba que eu o amo muito, e agradeço uma vez mais por você nunca ter afastado ele de mim. Assim ele pôde saber quem era o seu pai. Se um dia se você puder dizer a ele que eu o amo muito, apesar de não ter acompanhado bem de perto a infância dele, e agora ele já é quase um jovem. Um dia você dirá isso a ele?
12. Sim, pode ter certeza.
- Não sei se agora ele tem condições de ouvir, mas o dia que ele tiver, faça isso por mim.
13. Eu vou fazer sim, pode ficar tranquilo.
- Eu acredito. Eu agora preciso de tempo, primeiro para compreender o que se passa comigo, e de que forma posso ir mudando em mim tudo o que tem guardado na minha consciência e que me pesa. Os amigos daqui, padre Félix e dona Helena têm rezado comigo, e isso tem me ajudado.
14. Tem algo mais pra me dizer?
- Quero dizer que você fez tudo certo, Ana. Do lugar onde eu morei, não preciso mais. Você fez tudo correto. Agora eu sei que não preciso mais morar na tua casa, e já não tenho mais voltado lá. Vou seguir em frente, como você diz. Estou compreendendo como devo me comportar, e tenho muito o que aprender, mas tenho o apoio desses dois amigos. Eles vão me ensinar o passo-a-passo de como devo proceder. Então, pode ficar bem tranquila, e vá seguindo a tua vida, cuidando do nosso filho e ajudando também teu pai, como já tem feito, vivendo em união com toda a família. Eu sempre admirei muito a união da tua família, mas não consegui seguir o teu exemplo com a minha. Você gostaria de me dizer mais alguma coisa agora que nós estamos lado a lado?
15. Digo que você já tá perdoado e agora eu quero que você fique lá na eternidade ajudando as pessoas que precisam, enquanto eu ainda tenho que cumprir a minha missão aqui na terra.
- Eu quero te dizer, embora ache que você não entenda, que eu estou aqui na Terra mesmo, Ana. Eu também pensava numa eternidade que não sabia o que era, tinha medo do inferno, do purgatório, com a certeza de que eu não ia pro céu. Mas quero te dizer, se isso serve de consolo, que nada disso eu encontrei, tanto que eu continuei morando na tua casa depois que você alugou a que eu morava, por não saber para onde ir. Mas agora que eu tenho a companhia desses bons amigos e prometo que vou aprender a ser um homem de bem, ou uma alma de bem.
16. E eu acredito em você. Acredito que você é uma alma boa e que vai nos ajudar muito.
- De hoje em diante eu vou me esforçar para fazer aquilo que não consegui fazer quando estive perto de vocês. Acredite que não tenho nada contra você, Ana. Tua mãe e o Félix me disseram que eu posso ajudar você e o nosso filho fazendo orações, e também por toda a família. Agora eu vou.
17. Que assim seja. Vai em paz, Nelson.
- Amém.
(Por psicofonia, dia 14 de maio de 2022.)
__________
1 Veja-se: O Livro dos Espíritos - Da volta do Espírito, extinta a vida corpórea, à vida espiritual - Perturbação temporária após a morte, e também: O Céu e o Inferno - Segunda Parte - Exemplos, cap. I - A passagem.

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