Sobre liberdade, livre-arbítrio e esperança
O grupo estudou o item 872 de O Livro dos Espíritos1 e também O jugo leve, de O Evangelho segundo o Espiritismo.2 Em seguida, Giordano Bruno foi evocado para ditar alguma instrução sobre o tema.
- "Aqui estou."
1. Quem nos fala?
- "Giordano Bruno."
2. Nosso chamado lhe é agradável?
- "Sempre o é."
3. Nós agradecemos por vir instruir-nos.
- "Tenho algumas palavras a dizer sobre o tema que estudastes."
4. Que Deus nos ajude a ouvi-lo com clareza.
- "Que assim seja. A liberdade, em seu sentido absoluto, implica na rigorosa observância das leis de Deus. A estranheza que essa afirmação pode causar é facilmente dirimida por meio do raciocínio oposto: quanto mais infringe as leis de Deus, mais o indivíduo é escravo das consequências de tais infrações e do hábito de cometê-las. Ele recebe sobre si algo que não desejou, e é nesse ponto que está a sua escravidão, ou seja, a frustração da sua vontade e os sofrimentos correspondentes. Ao contrário, quando ajusta inteiramente a própria vontade às leis de Deus, o ser obtém integralmente o que desejou, porque desejou santamente. Assim, meus amigos, observai atentamente o papel que tem a vontade na liberdade e só vede como verdadeiramente livres aqueles que podem dizer que a sua vontade será atendida porque está de acordo com as leis de Deus. Essa é verdadeiramente a boa vontade, e é a que pede aquele que na Oração Dominical diz: 'seja feita a vossa vontade aqui na Terra como no céu já se faz.' Isso significa que na Terra deve ser feita, pelas criaturas, a vontade de Deus que, por Seus desígnios, age sobre vós. Tende, portanto, unicamente a boa vontade, que é a vontade do bem, e sereis integralmente livres."
"Em verdade, em verdade eu vos digo, que aquele que comete o pecado é escravo do pecado." (João, 8; 34.)
"Vede que no que acabo de vos dizer está o exercício do livre-arbítrio; ele é bem utilizado quando, julgando o que é o bem e o que é o mal, voluntariamente se escolhe o bem. É por isso que necessitais vos esclarecer, a fim de que a distinção que fazeis do bem e do mal seja verdadeira e não falseada pela ignorância e pelos preconceitos."
"Assim, o livre-arbítrio existe para ele, quando no estado de Espírito, ao fazer a escolha da existência e das provas e, como encarnado, na faculdade de ceder ou de resistir aos arrastamentos a que todos nos submetemos voluntariamente."3
5. Sendo a esperança uma virtude que diz respeito à nossa relação com Deus, ela também se liga ao livre-arbítrio?
- "Quando vossa consciência esclarecida vos diz que vossas escolhas são conformes às leis de Deus, ou seja, quando sois livres como vos disse há pouco, tendes então a certeza de que recebereis segundo vossas obras, e é nisso que consiste a esperança. Para melhor exemplificar essa questão, digo-vos que aquele que sofre duras provas nesse mundo; que sabe que o seu sofrimento tem causa justa e fim útil, como ensina o Espiritismo, e a elas se submete de maneira resignada; que deseja voluntariamente cumprir as leis de Deus, específicas ao seu caso, pode ter a certeza de que será recompensado por um bem futuro, porque age de conformidade com as leis de Deus que bem conhece. Neste caso, ele tem a certeza intuitiva de que obterá a recompensa ao final do processo, na vida futura; tal certeza se chama esperança, que lhe ameniza as dores atuais e lhe dá forças para bem suportar os sofrimentos que lhe cabem nessa vida."4
6. A esperança é uma virtude intelectual como a fé, ou é mesclada também pelo sentimento?
- "É sem dúvidas uma virtude, pois é uma força da alma, da qual o coração se beneficia."
7. Como se manifesta para vós a esperança, quando semeais em nosso coração, Espíritos imperfeitos que somos? Há aí uma certeza futura quanto ao nosso progresso, ou já vedes a coisa realizada?
- "Quanto mais livre da matéria é o Espírito, mais clara é para ele a realidade futura. Os Espíritos puros, por não sofrerem nenhuma influência da matéria, a rigor já vos veem como Espíritos puros, embora saibam do trabalho que vos cumpre realizar. Eles percebem o caminho que será necessário a cada um percorrer, pois têm a visão de Deus. Para auxiliar-vos a caminhar, eles contam com Espíritos a eles subordinados e, dependendo do grau de progresso destes últimos, alguns poderão trabalhar com certa insegurança; por vezes mesmo entristecendo-se pela aparência que seus esforços têm de não serem bem-sucedidos. Entretanto, é do conjunto desses esforços, desse trabalho comum que nascerá a obra pronta. Quanto mais se elevam na hierarquia espírita, pela prática do bem, mais esperança desenvolvem os Espíritos no progresso de seus protegidos, porque com mais clareza o anteveem realizado."
8. O pensamento deles certamente nos inspira coragem e bom ânimo.
- "Sim, e podeis pedir para que vos inspirem tal certeza, o que há de aumentar em vós a esperança."
9. Nós publicamos em nossa Revista Espírita algumas instruções suas. O senhor tem acompanhado os leitores que refletem sobre tais instruções?
- "Sem dúvidas, porque ditamos nossas palavras com o objetivo de vos auxiliar e vamos até o fim no auxílio que podemos prestar por meio delas; e não só àqueles que as recebem diretamente por intermédio de um médium, mas também pela inspiração. Nós queremos que as nossas instruções sejam úteis a todos aqueles que de alguma maneira por elas se interessam; em outras palavras, lançamos a semente e zelamos para que nasçam frutos segundo a vontade de Deus."
10. Nós agradecemos pela sua solicitude, caro amigo.
(Comunicação por psicofonia, dia 28 de dezembro de 2022.)
O que ensina o Espiritismo sobre esse assunto
924. Há males que independem da maneira de proceder do homem e que atingem mesmo os mais justos. Nenhum meio terá ele de os evitar?
- "Deve resignar-se e sofrê-los sem murmurar, se quer progredir. Sempre, porém, lhe é dado haurir consolação na própria consciência, que lhe proporciona a esperança de melhor futuro, se fizer o que é preciso para obtê-lo."5
"Se em duas partes se dividirem os males da vida, uma constituída dos que o homem não pode evitar e a outra das tribulações de que ele se constituiu a causa primária, pela sua incúria ou por seus excessos (cap. V, nº 4), ver-se-á que a segunda, em quantidade, excede de muito à primeira. Faz-se, portanto, evidente que o homem é o autor da maior parte das suas aflições, às quais se pouparia, se sempre agisse com sabedoria e prudência.
Não menos certo é que todas essas misérias resultam das nossas infrações às leis de Deus e que, se as observássemos pontualmente, seríamos inteiramente ditosos. Se não ultrapassássemos o limite do necessário, na satisfação das nossas necessidades, não apanharíamos as enfermidades que resultam dos excessos, nem experimentaríamos as vicissitudes que as doenças acarretam. Se puséssemos freio à nossa ambição, não teríamos de temer a ruína; se não quiséssemos subir mais alto do que podemos, não teríamos de recear a queda; se fôssemos humildes, não sofreríamos as decepções do orgulho abatido; se praticássemos a lei de caridade, não seríamos maldizentes, nem invejosos, nem ciumentos, e evitaríamos as disputas e dissensões; se mal a ninguém fizéssemos, não houvéramos de temer as vinganças, etc." Allan Kardec 6
"O conhecimento do Espiritismo não é indispensável à felicidade futura, porque não tem o privilégio de fazer eleitos. É um meio de chegar mais facilmente e mais seguramente ao objetivo, pela fé raciocinada que ele dá e pela caridade que ele inspira; ele ilumina o caminho, e o homem, não mais seguindo às cegas, marcha com mais segurança. Por ele, melhor se compreende o bem e o mal. Ele dá mais força para praticar um e evitar o outro. Para ser agradável a Deus, basta observar suas leis, isto é, praticar a caridade, que resume todas elas. Ora, a caridade pode ser praticada por todos. Despojar-se de todos os vícios e de todas as inclinações contrárias à caridade é, pois, condição essencial da salvação." Allan Kardec 7
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1 O Livro dos Espíritos, cap. X - 9. Lei de liberdade - Resumo teórico do móvel das ações humanas.
2 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI - O Cristo consolador - O jugo leve
3 O Livro dos Espíritos, cap. X - 9. Lei de liberdade - Resumo teórico do móvel das ações humanas.
4 Veja-se: Revista Espírita, maio de 1867 - Uma expiação terrestre - O jovem Francisco.
5 O Livro dos Espíritos - Das esperanças e consolações, cap. I - Das penas e gozos terrestres - Felicidade e infelicidade relativas, ite 924
6 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVII - Pedi e obtereis - Ação da prece - Transmissão do pensamento
7 Revista Espírita, dezembro de 1864 - Da comunhão do pensamento - Sessão comemorativa na Sociedade de Paris

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