Sobre o bem moral
Allan Kardec fora evocado para trazer conselhos e orientações ao grupo a respeito dos trabalhos que este realiza sob a direção do mestre. Antes de passar-lhe a palavra, o diretor encarnado havia comentado que nota um certo desinteresse da parte de alguns membros do grupo pelas questões morais e pelo bem geral. Eis a comunicação recebida:
- "Há um motivo pelo qual a moral espírita parece, para alguns adeptos do Espiritismo, frágil e monótona. O apego à matéria os torna insensíveis ou indiferentes ao bem moral; pouco ou nada enxergam além daquilo que se afasta do que consideram seu bem material, isto é, a satisfação de suas paixões e de seus interesses pessoais. Essa cegueira faz com que vejam o bem moral que lhes é proposto, como algo fugidio, passageiro, incapaz de tocar a alma e, ainda menos, de fazê-la feliz. É por esse motivo que desprezam a moral espírita e postergam a sua aplicação à própria conduta.
"Digo-vos, meus filhos, que o bem moral é poderoso; que seus efeitos preenchem a alma por completo e a elevam num êxtase que faz com que, mesmo os gozos sensuais mais atraentes, lhes sejam incômodos ao desfrute do gozo espiritual. Foi o amor pelo bem moral, esse bem superior, que moveu a alma dos santos e os fez realizarem grandes obras de caridade e de amor ao próximo nesse mundo. A aspiração por esse bem toma a alma por inteiro e, quanto mais ele é desenvolvido, mais abnegada e devotada ela se torna. Ao contrário de um benefício passageiro e aparentemente frágil, que poderá ser dispersado quando surgir a primeira adversidade, o bem moral a que me refiro, que é a lei de amor e o amor de Deus por suas criaturas, faz a alma arder de um zelo santo que a torna forte porque sua força vem de Deus.
"Dou-vos, a vós espíritas, um conselho: buscai o bem moral ensinado pelo Cristo1 e reiterado pelo Espiritismo, pois ele é sólido e inalterável, mesmo que hoje não o compreendais integralmente. Acreditai que só a prática do bem, que é a caridade por excelência, será capaz de tornar-vos verdadeiramente felizes, bem mais do que qualquer coisa que já vos tenha feito felizes nesse mundo. Confiai no que vos aconselhamos, e não vos arrependereis de dar esse passo que ainda vos falta. Quando estiverdes em meio à aridez que inicialmente essa busca possa aparentar, pedi aos bons Espíritos que vos inspirem o amor do bem que eles já possuem. Sereis então transportados para fora de vós mesmos e do círculo de vossas paixões materiais, e gradualmente o amor de Deus, o amor do bem, será parte integrante de vós.
"Quanto aos vossos trabalhos espíritas, tenho uma recomendação a dar-vos. Sei que vedes com admiração a assistência que o Espírito de Verdade nos dava em nossos trabalhos. No entanto, não julgueis que essa assistência se devia à elevação espiritual dos assistidos, mas sim à utilidade do trabalho realizado. Vós, portanto, por mais imperfeitos que possais ser, e por isso mesmo com mais forte razão, podeis contar com a assistência do Espírito de Verdade, se vos dedicardes à obra dele, e ela será tão assídua quanto o foi para nós em nossa última encarnação. O Espiritismo é obra do Cristo, e se vos dedicais à sua obra ele vos assistirá, como assiste a todos aqueles que para ela concorrem sinceramente, não importando sob que bandeira o façam. Trabalhai, pois, com a certeza de que sereis amparados por ele, se o vosso objetivo for o bem de todos."
Allan Kardec
(Comunicação por psicofonia, dia 30 de dezembro de 2022.)
Sobre os bons espíritas
"Nalguns, os laços da matéria são ainda muito tenazes para permitirem que o Espírito se desprenda das coisas da Terra; a névoa que os envolve oculta-lhes a visão do infinito; é por isso que não rompem facilmente com seus gostos, nem com seus hábitos, pois não compreendem que haja qualquer coisa melhor do que aquilo que têm. A crença nos Espíritos é para eles um simples fato, mas que nada ou bem pouco modifica suas tendências instintivas. Numa palavra, veem apenas um raio da luz, insuficiente para conduzi-los e dar-lhes uma aspiração vigorosa, capaz de vencer seus pendores; apegam-se mais aos fenômenos do que à moral, que lhes parece banal e monótona. Pedem aos Espíritos que incessantemente os iniciem em novos mistérios, sem procurar saber se já se tornaram dignos de penetrar os segredos do Criador. Esses são os espíritas imperfeitos, alguns dos quais ficam pelo caminho ou se afastam de seus irmãos em crença, porque recuam ante a obrigação de se reformarem, ou então guardam suas simpatias para os que partilham de suas fraquezas ou de suas prevenções. Contudo, a aceitação do princípio da doutrina é um primeiro passo que lhes tornará o segundo mais fácil numa outra existência.
Aquele que pode ser, com razão, qualificado de verdadeiro e sincero espírita, está num grau superior de adiantamento moral; o Espírito que domina mais completamente a matéria lhe dá uma percepção mais clara do futuro; os princípios da doutrina fazem vibrar nele fibras que se conservam mudas nos primeiros; em uma palavra: ele é tocado no coração, e sua fé é inabalável. Um é qual músico que se comove com certos acordes, ao passo que outro apenas ouve sons. Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para domar suas más inclinações. Enquanto um se compraz em seu horizonte limitado, o outro, que compreende alguma coisa de melhor, se esforça por desprender-se dele, e sempre o consegue quando tem firme a vontade."2
Comentário de Allan Kardec sobre o Espírito de um gastrônomo
"Este Espírito é um verdadeiro fenômeno. Ele faz parte dessa classe numerosa de seres invisíveis que não se elevaram em nada acima da condição da Humanidade. Só tem de menos o corpo material, mas as suas ideias são exatamente as mesmas. Este não é um mau Espírito. Ele não tem contra si senão a sensualidade, que, ao mesmo tempo, é para ele um suplício e um gozo. Como Espírito, não é, pois, muito infeliz; é até feliz ao seu modo. Mas Deus sabe o que o espera em nova existência! Uma triste volta poderá fazê-lo bem refletir e desenvolver o senso moral, ainda abafado pela preponderância dos sentidos."3
"A preocupação com as questões morais está toda por criar."
"Penso que o Espiritismo é um estudo todo filosófico das causas secretas, dos movimentos interiores da alma até agora nada ou pouco definidos. Ele explica, mais do que desvenda, horizontes novos. A reencarnação e as provas sofridas antes de atingir o objetivo supremo não são revelações, mas uma confirmação importante. Tocam-me as verdades que esse meio coloca sob a luz. Digo intencionalmente - meio - porquanto, a meu ver, o Espiritismo é uma alavanca que afasta as barreiras da cegueira. A preocupação com as questões morais está toda por criar; discute-se a política, que agita os interesses gerais; discutem-se os interesses privados; o ataque ou a defesa das personalidades apaixonam; os sistemas têm seus partidários e seus detratores. Entretanto, as verdades morais, aquelas que são o pão da alma, o pão da vida, são deixadas sob o pó acumulado pelos séculos. Aos olhos das multidões, todos os aperfeiçoamentos são úteis, exceto o da alma; sua educação, sua elevação não passam de quimeras, boas, quando muito, para ocupar os lazeres dos padres, dos poetas, das mulheres, seja como moda, seja como ensino.
"Se o Espiritismo ressuscita o espiritualismo, ele dará à sociedade o impulso que, a uns dará a dignidade interior, a outros a resignação, a todos a necessidade de se elevar para o Ser supremo, esquecido e desconhecido por suas ingratas criaturas."
J. J. Rousseau4
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1 "Ora, o que diz essa moral? Amai-vos uns aos outros; perdoai os vossos inimigos; retribuí o mal com o bem; não tenhais ódio, nem rancor, nem animosidade, nem inveja, nem ciúme; sede severos para convosco mesmos e indulgentes para com os outros. Tais devem ser os sentimentos do verdadeiro espírita, daquele que se atém ao fundo e não à forma, do que coloca o espírito acima da matéria." Allan Kardec (Viagem Espírita em 1862 - Discurso I.)
2 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII - Sede perfeitos - Os bons espíritas
3 Revista Espírita, novembro de 1860 - Palestras familiares de além-túmulo - Baltazar, o Espírito gastrônomo.
4 O Livro dos Médiuns - Das manifestações espíritas, cap. XXXI - Dissertações espíritas - Acerca do Espiritismo

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