D. Pedro II
Da liberdade de submeter-nos a Deus
Após a leitura do primeiro diálogo que tivemos com D. Pedro II, no dia 5 de maio de 2019, e os comentários feitos a respeito das ideias ali expressas, lemos a dissertação "A fé religiosa - Condição da fé inabalável"1. Em seguida evocamos D. Pedro II para nos trazer instruções sobre o tema: A liberdade de submeter-nos a Deus. (No final deste artigo consta um resumo biográfico desse ilustre personagem.)
Evocação.
- "Estou aqui novamente, atendendo ao vosso chamado."
1. Quem nos fala?
- "Pedro."
2. Nós agradecemos por vir instruir-nos uma vez mais. Desejamos saber se ouviu os comentários que fizemos a respeito do diálogo que tivemos com o senhor, e se gostaria de fazer alguma correção, algum ajuste para melhorar o nosso entendimento.
- "Ouvi o que comentastes e nada tenho a corrigir, mas digo que poderia acrescentar algo mais no que diz respeito à incredulidade; digo que no caso particular deste grupo, ao qual prometi minha proteção, tendes, no estudo do Espiritismo e na prática que caracteriza as vossas reuniões, uma oportunidade inestimável de combater a incredulidade onde ela vos assola mais de perto2, que é em vossa própria intimidade. Tendes, nas vozes dos Espíritos que vos instruem e vos guiam, um apoio firme que vos pode ajudar a construir a fé inabalável; assim, a tarefa a que me referi na última vez que conversamos, não é uma tarefa solitária, em que estais entregues unicamente às próprias reflexões, mas é um trabalho que pode ser auxiliado por aqueles que, mais adiantados do que vós, têm o coração repleto dessa fé ardente discorrida no texto que lestes há pouco.
"Não vos envergonheis se a vossa fé ainda não produz os resultados ali expostos; ao contrário, que vos sirvam de emulação para adquiri-la pelo estudo que leva ao entendimento perfeito das leis de Deus. Sabei que os Espíritos que desfrutam hoje da fé ardente, capaz de enfrentar com calma todos os obstáculos, podem vos auxiliar a desenvolver essa sublime virtude e as demais que dela decorrem. Aconselho-vos, assim, se quiserdes ser úteis a vós mesmos e ao próximo, que tomeis a sério a tarefa de desenvolver a vossa fé, porque é dela que nascerá a verdadeira caridade capaz de regenerar a humanidade."
3. Poderíeis falar-nos agora sobre a liberdade de submeter-nos a Deus?
- "Sim, posso. Tomarei como introdução o que vos falei em nossa última conversa, ao comparar a liberdade de que desfrutei como governante de uma nação com a que desfruto hoje, como Espírito. Faço isso para destacar um primeiro ponto, que é a noção que se tem hoje de liberdade em vosso mundo, em geral equivocada, porque está associada à possibilidade de se obter todos os gozos, satisfazer todos os desejos, facultados e ampliados pela posse da riqueza ou do poder terrestre. Entretanto, eu, que fui senhor e escravo desse poder, senti vivamente que aquilo pelo que os homens tanto anseiam é um déspota que exige de quem está dele investido uma grande força para não submeter-se irrestritamente a ele.
"Agora quero falar de outro senhor, do verdadeiro Senhor do Universo, aquele para o qual a nossa submissão e o nosso devotamento devem ser voluntários, pois em vez de nos exigir forças, Ele no-las dá ou as aumenta quando pedimos. O Cristo ensinou com sabedoria que não se pode servir a dois senhores, e quão doce é a submissão a Deus, convidando-nos a tomar desse jugo. Quão plena é a liberdade que desfruta a alma que não tem a puxá-la por todos os lados os vícios e as más paixões! Quão escravo é aquele que emprega as próprias forças para contentar esses tiranos tão ávidos, que apenas dão em troca algum gozo efêmero ou uma alegria bastante fugaz! No entanto, aquele que não estiver cego pelo orgulho e tomado pelo egoísmo, consegue perceber os pesados grilhões com que tais tiranos querem submetê-lo, e a eles bravamente resiste.
"Submetei-vos racionalmente a Deus, que concede aos seus filhos a liberdade de buscá-lo e a ninguém aprisiona; ele é o Senhor que recompensa a piedade e a abnegação de seus filhos com o Universo infinito! Compreendeis de que herança se trata? Sim, meus amigos, trata-se da felicidade plena, adquirida pelo conhecimento de todas as coisas e pelo amor a Deus e ao próximo. É pelo serviço voluntário a Deus, submetendo-se sem restrições às suas leis, que se recebe como recompensa o direito de cidadania irrestrita nas moradas celestes. Faço votos, meus amigos, que vos dediqueis docilmente a esse Senhor. Se na Terra os homens são obedientes ao governante em quem confiam, quão maior não deve ser o sentimento que anima aqueles que percebem a grandeza e a bondade de Deus e de sua providência a conduzir os destinos do Universo! Como não pedir a esse Soberano, todos os dias, não recompensas antecipadas, mas a oportunidade de trabalhar em sua obra, de servi-lo, de bem cumprir seu dever como forma de gratidão por tudo o que dele recebe!
"Assim, meus amigos, sempre que orardes a Deus, que pedirdes e desejardes que seja santificado o seu nome3, pedi-lhe também que vos ajude a fazer o possível, a fim de que todos os homens percebam que esse nome deve ser santificado. Inspirai, pois, a esperança aos vossos irmãos, pela fé que tendes em Deus e pela caridade bem praticada. Eis o que por ora tinha a dizer-vos sobre o tema que pedistes.
"Coloco-me à disposição para vir, sempre que chamado, responder as vossas perguntas. Digo-vos que a proteção que prometi ao vosso grupo não se restringe às vossas reuniões, mas estende-se também às vossas vidas, aos vossos dias. Contai com a minha assistência, pois também me alegro por ter ao meu lado seres que partilham do desejo de progresso da sociedade que também eu tenho."
4. O senhor é feliz?
- "Sim, sou feliz. Ao deixar o corpo na Terra, em minha última encarnação nesse mundo, fui juntar-me àqueles que me ajudaram a libertar-me dos derradeiros laços que ainda precisava romper com a matéria mais densa. Mirei por um tempo os esplendores do Universo e inteirei-me das tarefas, já iniciadas quando ainda estava no corpo, às quais poderia agora, livre do fardo pesado do corpo e das preocupações terrenas, dar continuidade. Habituara-me, em vida, quando me emancipava pelo sono, a fazer viagens instrutivas na companhia daqueles que me eram caros, e que eu bem reconheci quando vieram saudar-me assim que me libertei do corpo. Espraiei meu ser pela imensidão infinita, e dobrei-me diante do Soberano Senhor que me havia recebido como o filho pródigo que volta, liberto das ilusões com aparência de liberdade, agora voluntariamente submetido ao bom Pai, e verdadeiramente livre.
"Sou feliz, e não poderia deixar de compartilhar com meus irmãos da Terra a minha felicidade; não sou um Espírito superior, mas não é felicidade deixar, sem necessidade de retorno, o exílio voluntário nesse mundo de expiações?"
(Por psicofonia, dia 07 de maio de 2019.)
Perfil de D. Pedro II, sobrenomeado "o Magnânimo"

Primeira foto do imperador em 1848.
"Membro da casa de Bragança, ele é o sétimo filho do imperador Pedro I e da imperatriz Maria-Leopoldina de Áustria. A repentina abdicação e a partida de seu pai para a Europa, em 1831, o deixam só, aos cinco anos de idade, com duas de suas irmãs. Tornado imperador, ele passa uma infância e uma adolescência tristes e solitárias. Obrigado a passar seu tempo a aprender seu ofício, o jovem soberano conhece apenas breves momentos de alegria e de encontros com alguns amigos de sua idade. Adulto, tem um importante senso de dever e de devotamento para com seu país e seu povo.(...)"
"Herdando um império à beira da desintegração, Pedro II transformou o Brasil numa potência emergente no cenário internacional, reconhecida pela estabilidade de seu regime político, ou seja, uma monarquia constitucional representativa, pela liberdade de expressão, pelo respeito aos direitos cívicos, assim como por seu crescimento econômico. Sob o reinado de Pedro II, o Brasil sai vitorioso de três conflitos internacionais (a guerra de la Plata, a guerra do Uruguai e a guerra da Tríplice-aliança); o imperador teve importante papel em muitos outros diferendos internacionais ou internos. Ele impulsionou fortemente a abolição da escravatura e se mostrou um partidário fervoroso da aprendizagem, da cultura e das ciências.(...)"4
"Nasci para consagrar-me às letras e às ciências", comentou o imperador em seu diário pessoal em 1862. Ele sempre teve prazer em ler e encontrou nos livros um refúgio para a sua posição. Sua habilidade para relembrar trechos que havia lido no passado era notável. Os interesses de Pedro II eram diversos, ele era um polímata, e incluíam antropologia, geografia, geologia, medicina, direito, estudos religiosos, filosofia, pintura, escultura, enxadrismo, teatro, música, astronomia, química, física, poesia, tradução e tecnologia. No final de seu reinado, havia três livrarias em São Cristóvão contendo mais de 60 mil livros. Sua paixão pela linguística o levou a dedicar toda a sua vida ao estudo de novas línguas, chegando a falar e escrever não só em português, mas também em latim, francês, alemão, inglês, italiano, espanhol, grego, árabe, hebraico, sânscrito, chinês, provençal e tupi. Tornou-se o primeiro brasileiro fotógrafo quando adquiriu uma câmera de daguerreótipo em março de 1840. Criou um laboratório fotográfico em São Cristóvão e outro de química e física. Ele também construiu um observatório astronômico no paço.
"A erudição do imperador surpreendeu Friedrich Nietzsche quando ambos se conheceram. Victor Hugo falou dele: "Senhor, és um grande cidadão, és o neto de Marco Aurélio", e Alexandre Herculano o chamou de ' um Príncipe que, na opinião geral, é o mais eminente de sua época em razão graças à sua mente dotada, e devido à sua constante aplicação desse dom para as ciências e a cultura". Tornou-se membro da Royal Society, da Academia de Ciências da Rússia, das Reais Academias de Ciências e Artes da Bélgica e da Sociedade Geográfica Americana. Em 1875 foi eleito membro da Académie des Sciences francesa, uma honra dada anteriormente a somente dois outros chefes de estado: Pedro, o Grande e Napoleão Bonaparte. Pedro II trocou cartas com cientistas, filósofos, músicos e outros intelectuais. Muitos de seus correspondentes se tornaram seus amigos, incluindo Richard Wagner, Louis Pasteur, Louis Agassiz, John Greenleaf Whittier, Michel Eugène Chevreul, Alexander Graham Bell, Henry Wadsworth Longfellow, Arthur de Gobineau, Frédéric Mistral, Alessandro Manzoni, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, James Cooley Fletcher.
"Pedro II cedo percebeu que tinha a oportunidade para utilizar o conhecimento que havia acumulado em uso prático para o benefício do Brasil. O imperador considerava a educação como de importância nacional e era ele mesmo um exemplo do valor do aprendizado. Ele comentou: "Se eu não fosse imperador, gostaria de ser um professor. Não conheço tarefa mais nobre do que direcionar as jovens mentes e preparar os homens de amanhã". A educação também colaborou no seu objetivo de criar um sentimento de identidade nacional brasileira. Seu reino viu a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, para promover pesquisa e preservação nas ciências históricas, geográficas, culturais e sociais. A Imperial Academia de Música e Ópera Nacional e o Colégio D. Pedro II também foram fundados, o último servindo como modelo para escolas por todo o Brasil. A Imperial Escola de Belas Artes, estabelecida por seu pai, recebeu maior apoio e fortalecimento. Utilizando sua lista civil [salário anual a que tem direito um monarca], Pedro II providenciou bolsas de estudo para brasileiros frequentarem universidades, escolas de arte e conservatórios musicais na Europa. Ele também financiou a criação do Instituto Pasteur, assim como a casa de ópera Bayreuth Festspielhaus de Wagner, além de outros projetos semelhantes. Seus esforços foram reconhecidos tanto em casa quanto no exterior. Charles Darwin falou dele: "O imperador faz tanto pela ciência, que todo sábio é obrigado a demonstrar a ele o mais completo respeito".5
Ele também financiou, junto com "o imperador Ferdinando I da Áustria e do rei Ludovico I da Baviera, uma das maiores obras botânicas, denominada Flora brasiliensis. Na sua forma final, essa obra consiste de 15 volumes subdivididos em 40 partes originalmente publicados na forma de 140 fascículos individuais. Descreve um total de 22.767 espécies, das quais 19.629 são nativas e 5.689 foram descritas como novas na obra. O texto contém 20.733 páginas divididas em duas colunas, contendo 3.811 pranchas que ilustram 6.246 espécies. (.. ) Até bem recentemente, a Flora brasiliensis era o maior projeto de Flora completado na história da botânica e só foi ultrapassada, em 2004, pela Flora Republicae Popularis Sinicae (Flora da República Popular da China)."6
D. Pedro II era membro da segunda "maison de Bragance" (dita Sereníssima Casa de Bragança), que é um braço da "Maison capétienne d'Aviz", da qual fizera parte o inesquecível Louis IX, rei da França, conhecido como São Luís.
Esse Magnânimo governante do Brasil foi deposto e expulso do país que ele tanto amava, no dia 15 de novembro de 1889. Passou os dois últimos anos de sua vida em exílio na Europa, vivendo só e com bem pouco dinheiro.
Algumas décadas após sua morte, D. Pedro II retoma sua reputação e seus restos mortais voltam ao Brasil como herói nacional. Os historiadores o consideram como um personagem muito notável e é geralmente considerado como o maior homem da história do Brasil.
Última foto da família imperial no Brasil, em 1889, por Otto Hees
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1 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIX - A fé transporta montanhas, itens 6 e 7
2 "Deus faz aos vossos corações um apelo supremo pelo Espiritismo; escutai-o. Extirpados sejam de vossas almas doloridas a impiedade, a mentira, o erro, a incredulidade. São monstros que sugam o vosso mais puro sangue e que vos abrem chagas quase sempre mortais." O Espírito de Verdade.
3 Veja-se: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVIII - Coletânea de preces espíritas - I - Preces gerais - Oração dominical.
4 https://fr.wikipedia.org/wiki/Pierre_II_(empereur_du_Brésil)
5 https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_II_do_Brasil
6 Flora brasiliensis; veja-se também: https://pt.wikipedia.org/wiki/Flora_Brasiliensis

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