A fraternidade não se decreta
A fraternidade entre os homens foi um dos mais importantes preceitos ensinados por Jesus. No entanto, após mais de dois milênios ela ainda não se estabeleceu nem mesmo entre todos os cristãos. Promulgando-se a fraternidade universal como lei civil, não se daria um impulso para que a felicidade tão sonhada pela humanidade se realizasse na Terra? Essas foram reflexões feitas por um grupo espírita. Ao pedirem instruções a esse respeito ao guia espiritual do grupo, a seguinte comunicação lhes foi ditada:
"O homem quer ser feliz, ele almeja viver em um mundo mais feliz, onde os seus direitos naturais sejam respeitados por todos e a verdadeira fraternidade seja o elo vibrando em todos os corações; um mundo, enfim, onde as instituições sejam todas erigidas sobre as bases da lei de amor e de caridade.
No entanto, a fraternidade, assim como todas as demais virtudes, são sentimentos íntimos, dados por Deus às suas criaturas, inicialmente em germe, mas que só se desenvolvem por uma vontade ativa com o auxílio da razão e do amadurecimento do senso moral. Por aí se vê que a fraternidade, tão desejada, não pode ser imposta por decreto, como aliás nenhuma outra virtude, por ser um dever de consciência, portanto um dever moral; tentar forçá-la na criatura livre é fazer hipócritas, o que produziria um grande mal para a sociedade, podendo incitar mesmo o ódio, que é seu contrário.
Vemos o tumulto gerado nas consciências quando se tenta impor um sentimento qualquer por decreto ou à força de ruídos ecoando em toda parte. Não, não, a fraternidade não se impõe, porque seria uma violação da liberdade de consciência que é dada por Deus a todos os seus filhos. As leis humanas podem estabelecer uma ordem na sociedade, fazendo respeitar os direitos de cada um, por uma justiça bem entendida, mas não podem impor, à força de decretos, deveres que são exclusivamente da alçada da consciência, assim como não é da alçada das leis humanas, ou do direito positivo, sancionar infrações cometidas ao dever moral, justamente porque o homem não tem qualquer acesso aos sentimentos íntimos de seus semelhantes.
Se quereis uma sociedade mais justa, mais fraterna, que cada um observe os mandamentos morais deixados pelo Cristo: Não faças ao próximo o que não queres que te façam; faças ao próximo o que gostarias que te fizessem. Eis aí o excelente remédio para boa parte dos males sociais que enfrentais, e que está ao alcance de todos, sem exceção.
Admitindo-se que o pior inimigo da sociedade é o egoísmo1, esse vício terrível que arrasta um cortejo de suscetibilidades, descobrireis que o único antídoto eficaz para esse mal é a caridade, como a entendia Jesus: benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições de outrem, perdão das ofensas. Onde há egoísmo, não pode haver verdadeira fraternidade. Quando o egoísmo fala, a fraternidade se cala e a intolerância ganha força; a hostilidade se espalha e todos se ressentem dos efeitos da desunião gerada no seio da grande família humana, como se ressentem os membros de uma família quando a desarmonia se faz dentro do lar.
Espíritas, atentai para o que tendes buscado e com o que tendes alimentado a vossa alma. Compenetrai-vos de que estais no mundo para cumprir as provas escolhidas, e não sois constrangidos a mergulhar vossa alma na incredulidade espalhada pelos inimigos do progresso e da ordem social. Lembrai-vos que a cada um será dado segundo as suas obras, e não segundo o que disse, viu ou ouviu dizer."
Allan Kardec
Assim que encerrou o ditado acima, o mesmo médium anotou a seguinte comunicação coletiva:
"O olfato é um dos sentidos mais adaptáveis: se transitais demoradamente pela lama, logo vos acostumais com o seu cheiro e não mais vos incomodais com ele." (Pascal)
"É fato que o corpo pesado ainda vos chumba ao chão, mas podeis elevar vossa alma e respirar o perfume inebriante que incessantemente é exalado pelas virtudes dos céus, bem acima da atmosfera gerada pelas tumultuosas criaturas que voluntariamente viram as costas para Deus." (Lamennais)
"A liberdade de consciência é uma lei divina que ninguém pode violar, e é na consciência que está o inexorável tribunal diante do qual cada ser moralmente livre será chamado a prestar contas ao seu Criador." (Erasto)
"Buscai mais vezes essa vigilante atenta que é a vossa consciência, e ela sempre vos indicará o que precisa ser feito para bem cumprirdes o vosso dever. Se a ouvirdes, ela vos dará a paz que só é possível obter quando se trilha o caminho que leva ao Bem supremo, que é Deus. (Espinosa)
(Psicografadas no dia 16 de junho de 2021.)
Objetivo do Espiritismo segundo Allan Kardec
"Nós trabalhamos para dar a fé aos que em nada creem; para espalhar uma crença que torna os homens melhores uns para com os outros; que lhes ensina a perdoar aos inimigos; a se olharem como irmãos, sem distinção de raça, casta, seita, cor, opinião política ou religiosa, uma crença que, numa palavra, faz nascer o verdadeiro sentimento da caridade, da fraternidade e dos deveres sociais." Allan Kardec2
"Sem a caridade, não há instituição humana estável, e não há nem caridade nem fraternidade possíveis, na verdadeira acepção da palavra, sem a crença. Aplicai-vos, pois, a desenvolver esses sentimentos que, aumentando, matarão o egoísmo que vos mata. Quando a caridade tiver penetrado as massas, quando tiver se tornado a fé, a religião da maioria, então vossas instituições melhorarão por si mesmas pela força das coisas; os abusos, nascidos do sentimento da personalidade, desaparecerão. Ensinai então a caridade, e sobretudo pregai pelo exemplo: ela é a âncora de salvação da sociedade. Só ela pode trazer o reino do bem sobre a Terra, que é o reino de Deus; sem ela, o que quer que façais, criareis apenas utopias das quais não retirareis senão decepções. Se o Espiritismo é uma verdade, se ele deve regenerar o mundo, é porque tem por base a caridade. Ele não vem derrubar o culto, nem estabelecer um novo; ele proclama e prova as verdades comuns a todos, bases de todas as religiões, sem se preocupar com os pontos de detalhe. Ele vem destruir apenas uma coisa: o materialismo, que é a negação de toda religião; derrubar apenas um único templo: o do egoísmo e do orgulho, e dar uma sanção prática a estas palavras do Cristo, que são toda a sua lei: Amai vosso próximo como a vós mesmos.(...)"
"Assim, pela força das coisas, o Espiritismo terá como consequência inevitável o melhoramento moral; esse melhoramento conduzirá à prática da caridade, e da caridade nascerá o sentimento da fraternidade. Quando os homens estiverem imbuídos dessas ideias, eles conformarão a elas suas instituições, e é assim que trarão naturalmente e sem abalos todas as reformas desejáveis; é a base sobre a qual eles assentarão o edifício social futuro.(...)"
"A fraternidade, e tampouco a caridade, não se impõe nem se decreta; é preciso que ela esteja no coração." Allan Kardec3
__________
1 Veja-se: O Livro dos Espíritos - Parte Terceira - Das leis morais, cap. XII - Da perfeição moral - O egoísmo.
2 Revista Espírita, fevereiro de 1863 - A loucura espírita
3 Viagem Espírita em 1862 - Discursos pronunciados nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e Bordeaux - Discurso III. Veja-se também: O Livro dos Espíritos - Parte Terceira - Das leis morais, cap. XI - Lei de justiça, de amor e de caridade - Justiça e direito natural.

DOWNLOAD DO ARTIGO EM PDF