PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Preparação para a morte - Um jovem e seu pai
01 / JULHO / 2023

Preparação para a morte

 

Um jovem e seu pai

 

Parece ser somente uma gota, mas é uma gota tão poderosa que modifica para sempre uma vida: assim são as reuniões espíritas. (Sanson)1

 

   A experiência prova que as reuniões espíritas, nos moldes que nos ensina Allan Kardec, realmente têm um grande poder de consolar e dar esperança com base na razão e na lógica.

   Desde que publicamos, em 2015, o primeiro volume do livreto que contou um pouco do que o nosso grupo espírita familiar havia obtido de instruções e consolações até então, alguns novos grupos espíritas familiares se formaram.

   Dentre eles, o grupo de um jovem que chamaremos pelas iniciais de seu nome, C. C. Esse jovem é residente no estado do Rio de Janeiro. Segundo ele mesmo nos contou, fazia dez anos que ele vinha estudando o Espiritismo pelas obras de Allan Kardec, e entendia que as reuniões espíritas deveriam realizar-se segundo o modelo indicado pelo Mestre, mas ainda não havia tomado essa decisão.

   No entanto, após ter lido o livreto intitulado Reuniões Espíritas Familiares, o jovem nos escreveu um longo e-mail, do qual destacamos a seguinte passagem:

   "Há cerca de dez anos, após continuados estudos da obra de Kardec, comecei a dar-me conta da superficialidade com que empregamos a mediunidade no Movimento Espírita brasileiro, se comparado ao francês da época do Mestre. A exclusividade da prática mediúnica nas reuniões de socorro aos Espíritos em sofrimento, em detrimento das de caráter instrutivo, e mesmo das comunicações particulares, somada à institucionalização da mediunidade, são traços deficientes do Espiritismo à brasileira. (...)

   "Uma analogia muito em voga em nosso meio é a de que 'mediunidade sem estudo é como carro sem freio'. No entanto, minha impressão particular é a de que só estamos tirando esse carro da garagem para uma rápida volta no quarteirão, enquanto há todo um mundo a ser explorado por meio dessa 'viatura'. O medo do desconhecido e a falta de estudos aprofundados das obras de Kardec são, na minha visão, as causas fundamentais desse processo; é por isso que, desde então, tenho dedicado parte considerável de minhas pesquisas e estudos a essas obras."

   Conversamos com o jovem algumas vezes sobre a importância das reuniões espíritas para que compreendamos melhor o mundo que iremos habitar logo mais, após a morte, e ele se interessou em formar seu próprio grupo familiar. Leu com atenção, em o Livro dos Médium, os itens 200 e seguintes, que tratam da formação dos médiuns, fez os exercícios sugeridos ali por Allan Kardec; não demorou muito para desenvolver a mediunidade escrevente.

   Ele nos havia contado que seu pai, o Sr. L., tinha quase oitenta anos de idade, que estava bastante enfermo há alguns anos, e que talvez não lhe restasse muito tempo de vida no corpo. 

   Dando-se conta de que o pai logo iria voltar ao mundo dos Espíritos, sem ter uma noção justa do que isso significa, o jovem lhe perguntou se ele gostaria de conversar com algum de seus familiares que já havia morrido. Esse era o ponto que mais poderia interessar ao seu velho pai, pois quem ama sempre deseja saber notícias dos seres amados. Qual não foi a surpresa do jovem ao perceber que seu pai ficou muito feliz com a possibilidade de ter notícias de seus pais e demais afetos, mortos há vários anos, pois lhe havia feito a proposta um tanto hesitante, pois seu pai sequer imaginava que pudesse evocar os familiares, como ensina o Espiritismo, embora tivesse assistido a algumas palestras num centro espírita de sua cidade.

   De fato, a proposta do jovem a seu pai foi um bom ponto de partida para iniciá-lo na vida espírita.

   Reproduzimos aqui parte de um relato escrito pelo jovem sobre as vantagens do Espiritismo prático. Essa parte do relato fala sobre as primeiras conversas que ele teve com seu pai sobre a possibilidade de ele conversar com seus afetos mortos:

   "Na véspera da reunião ele teve uma dissensão grave com seu outro filho e estava bastante exasperado. Após conversarmos um pouco, pediu-me que não o deixasse sozinho, e eu lhe falei que jamais faria isso, nem mesmo quando ele desencarnasse, posto que também o evocaria. Aproveitei o assunto para convidá-lo a que fizéssemos a reunião no dia seguinte, para conversarmos com nossos parentes. Ele ficou bastante entusiasmado, pensando em quem gostaria de chamar. Foi então dormir e, cerca de uma hora depois, acordou dizendo haver sonhado com sua mãe e irmã.

   "No dia seguinte começamos a reunião e, a todo momento, durante as leituras e as lembranças que ele expressava de seus afetos queridos já falecidos, ficávamos nós dois muito emocionados. Foi realmente muito tocante e, ao mesmo tempo, mostrou-me como eu estava errado com relação à impressão que tinha a respeito de meu pai e sua reação diante de reuniões desse tipo. Por ser ele, senão incrédulo, bastante desconfiado, principalmente no que toca a assuntos espirituais em geral, achava que ele oporia grande resistência a essa prática. Ao contrário, ele ficou tão contente e entusiasmado com a possibilidade de conversar com os parentes e amigos já falecidos que, mesmo antes de ouvi-los, já pedia para que fizéssemos sempre reuniões assim."

   O desejo sincero do Sr. L. de saber notícias de seus queridos pais e demais afetos era o que precisava para tocar os corações dos Espíritos evocados, e predispô-los a atender ao chamado com solicitude.

 

A primeira reunião espírita de um filho e seu velho pai

 

   O jovem continua seu relato:

   "Perguntamos a Allan Kardec, presidente espiritual do nosso grupo familiar, escolhido pelos nossos corações, se seria oportuno evocar nossos parentes naquele dia, ao que ele nos respondeu:

   "Eles se encontram presentes e vos ouvem. A emoção que sentis é um simples reflexo da grande felicidade que eles sentem por serem lembrados. Podeis comunicar-vos com eles sempre, se o fizerdes com respeito e seriedade. Todos ficaram muito contentes com a decisão que tomastes de fazer esses encontros com frequência. Na verdade, foram vossos parentes e nós, vossos anjos guardiães, que vos inspiramos tais ideias. Agora, passai a palavra a eles, pois há muito que querem falar e serem ouvidos pelos parentes que deixaram nessa Terra."

   Evocados, os Espíritos da mãe e do pai do Sr. L. se comunicaram. Eis uma parte do que seu pai lhe disse:

   "Querido filho, nós te amamos muito e escutamos os teus pensamentos. Saber que vocês e outros se lembram de nós nos dá muita alegria. Tu estás sendo preparado para, em breve, juntar-te a nós. Há algum tempo já vens sendo preparado para isso e é preciso que não temas. Todos passamos e todos passarão por isso. Tu estás tendo algo que não tivemos, antes de virmos para este lado. Tu podes ter a certeza do que te aguarda e isso muito te ajudará, não só para quando vieres para cá, mas também durante o tempo que ainda tens nesse mundo.

   Meu filho querido, nós vemos muitas coisas que tu não vês e que não víamos antes também. Temos muitas delas a te contar. Hoje, somente, não conseguiremos te dizer tudo. Mas já te adianto: fui um pai excessivamente duro contigo e reconheço isso em lágrimas, mas te peço que não sejas assim com teus filhos. Tu não podes agir com eles assim. Peço desculpas a ti, porque hoje eu sei que deveria ter te ensinado a agir diferente; mas desculpa o teu velho pai turrão. Ele já não é o mesmo, e agora se despede de ti com um abraço amoroso, como deveriam ser os muitos abraços que deveria ter te dado quando vivo. Aproveita que ainda estás aí e não economizes neles, porque quando vieres para cá vais sentir saudade de abraçar assim teus filhos." 

 

Teu pai, Benjamin.

(Psicografada pelo jovem C. C.)

 

   Observação do médium: "Foi difícil para mim escrever algumas das frases que meu avô ditou acima, não só pelo desejo egoísta que ainda guardava de ter meu pai o maior tempo possível entre nós, mas também pelo receio de que ele temesse pela notícia de sua próxima desencarnação. Porém, a ideia era explícita e não escrevê-la seria interferir no que o Espírito dizia. Entretanto, ao refletir melhor, após a comunicação, percebi tratar-se de um receio fundado numa visão do mundo espírita ainda mesclada pela influência da matéria. Basta olhar para aquele mundo como o normal, o primitivo, que poderia existir sem o material, e somem todos os receios sobre o que o Vô Benjamim disse. É assim que os Espíritos veem tal mundo e eles não têm receio em conosco compartilhar tal visão."

 

   Continua o jovem seu relato: 

   "Essa reunião foi a mais bela dentre as que presenciei, até o dia de hoje. Permeada da simplicidade de um filho e seu pai, sentados à mesa numa manhã calma de domingo... Foi a primeira vez que meu pai conversou com os Espíritos, e teve a felicidade de ter sido com os de seus pais falecidos.

   "Foi uma das cenas mais bonitas que já vi: meu pai, emocionado, sentado como uma criança cheia de esperança, aguardando, com todo o amor que tem no coração, para ouvir seus parentes. As palavras são insuficientes para descrever a emoção e a beleza dessa cena inesquecível.

   "Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi sua gratidão por poder estar presente a uma reunião desse tipo, que ele confessou que nunca havia sequer imaginado, mesmo frequentando centros espíritas há algum tempo. Segundo ele, é muito bom ter esse entendimento e a oportunidade de conhecer o que ele denominou de 'a face oculta do Espiritismo.'

   "Conforme meu avô havia previsto, meu pai faleceu menos de três meses após essa primeira reunião. Sob a assistência dos bons Guias, no entanto, conseguimos conversar com ele sete dias após seu falecimento, quando comunicou-se feliz e aliviado por haver deixado o peso que o corpo doente exercia sobre ele; contou-nos que as reuniões realizadas antes de sua morte, mesmo tendo ocorrido apenas durante três meses, muito lhe ajudaram a compreender sua nova realidade. Ele terminou a comunicação agradecendo a todos e exclamou: 'santo Espiritismo'.

   "É com esse mesmo sentimento de gratidão que nos associamos a ele para agradecer a Deus e aos bons Espíritos, pois hoje temos a certeza de que o Espiritismo é verdadeiramente o consolador prometido pelo Cristo: não há mais separação entre nós e os seres que nos são caros; não estamos mais entregues à nossa ignorância e ao peso de nossas imperfeições, pois temos em nossos Anjos guias seguros. Em resumo, agradecemos pela tocha que a clemência divina coloca em nossas mãos para clarear nosso caminho, e queremos sinceramente nunca afastar-nos dela."

 

Eu sabia que não ia durar muito nessa Terra...

 

   Passados alguns meses após a morte do Sr. L., num de nossos encontros anuais do Geak, tivemos a alegria de contar com a presença da família do jovem C. C., composta por sua mãe, sua irmã e sua sobrinha, adolescente de quinze anos. Numa das sessões do encontro, que fazemos no período do carnaval, entrevistamos os Espíritos familiares dos participantes que fazem reuniões espíritas familiares, para que nos falassem das vantagens dessas reuniões, do ponto de vista deles.

   Um dos entrevistados foi o Sr. L., pai do jovem C., que assim se expressou sobre o tema:

 

   "Acompanhei os estudos desde mais cedo e agradeço pela lembrança e pela deferência com que me tratam, mesmo que a maioria não me tenha conhecido, quando vivo.

   "O Espiritismo me ajudou muito; ele me fez ver que, com a morte, eu não entraria numa sala escura, mas num ambiente que eu já tinha visto pela janela, quando ainda estava encarnado. As comunicações que recebi dos meus pais, dos demais parentes, da minha madrinha, e do Dr. Albert2 foram como janelas mesmo. Tanto que, quando cruzei a porta desse cômodo, logo soube onde estava chegando.

   "Foi muito bom ver todos aqueles amigos e familiares me esperando. Eu reencontrei bastante gente que há muito tempo não via: meu irmão, minha irmã, minha tia, alguns amigos, meu afilhado. Eu agradeço, porque se vocês não tivessem me chamado, como fizeram, eu talvez demorasse um tanto mais para acordar, porque a morte foi como um sono pesado do qual a gente desperta aos poucos. Mas, assim que vi todos aqueles dos quais falei, lembrei-me das nossas reuniões, lembrei-me das conversas, aí eu entendi: minha hora também tinha chegado. Já estava preparado para isso; eu sabia que não ia durar muito nessa Terra, meus pais já me haviam dito isso. Os Espíritos com quem nós falávamos de dia, nas reuniões, também conversavam comigo enquanto eu dormia. Foi muito bom; eu posso dizer que vim para cá preparado, que deu tempo de eu arrumar a mala.

   "Obrigado a você, moleque3, porque você ajudou muito seu pai. Eu o amo, meu filho, e estou te protegendo muito mais do que eu podia fazer quando vivo, mesmo antes de ficar doente. Agradeço também a vocês, meus demais familiares, por suas preces e por se lembrarem de mim. Na medida do possível, eu também tento ajudá-las, somando-me aos outros que já ajudam vocês.

   "Muito obrigado a todos aqui presentes, principalmente aos Espíritos que guiam essas reuniões. Eles são muito bons e eu nunca tinha visto gente que se dedicasse tanto a cuidar dos outros, como eles fazem com vocês. Se eu tivesse essa certeza há mais tempo, teria ouvido mais meu anjo guardião e todos eles, porque eles estão sempre dispostos a ajudar-nos. Ouçam mais seus bons Guias, é o conselho que eu posso dar para ajudar. Continuo com vocês. 

   "Até a próxima vez que nos falarmos."

 

L., pai do médium.

(Psicografada pelo jovem C. C., dia 26 de fevereiro de 2017.)

 

   Após a morte de seu pai o jovem C. C. prosseguiu com seu grupo familiar, junto à sua mãe, irmã e sobrinha. Além do seu pai, que continua a participar das sessões como Espírito, outros Espíritos familiares têm se somado ao grupo e se comunicado com frequência, fortalecendo os laços de afeto e instruindo-se mutuamente sob a assistência de seus bons Guias.

   A avó materna do jovem, que havia se suicidado há vários anos, ainda se encontrava em sofrimento e desesperança, no mundo espírita; foi evocada e moralizada pelos familiares encarnados e hoje tem fé em Deus, recobrou a esperança, e não mais sofre. Eis aí o Consolador!

 

__________

1 Psicografada no dia 1º de novembro de 2015, na Sessão Familiar Comemorativa dos Mortos.

2 Referência ao Espírito de Albert Schweitzer, um dos nossos Guias.

Fala ao filho, que lhe servia de médium.

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