PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Espírito de um antigo carreteiro auxiliado por Allan Kardec
01 / AGOSTO / 2023

Um antigo carreteiro auxiliado por Allan Kardec

 

   Numa de nossas sessões, após a conclusão do estudo do artigo "Um antigo carreteiro"1, pedimos orientação a Erasto sobre a oportunidade de evocar o Espírito do antigo carreteiro na mesma sessão. A resposta foi para que o evocássemos, pois ele já estava presente em nosso meio.

   Feita a avocação, o Espírito entra a falar.

   - Aqui estou. Por que me chamaram?

   1. Quem nos fala?

   - Esse sobre quem leram há pouco. Apesar de fazer muitos anos, para mim parece que foi ontem que aquilo aconteceu.

   2. Nós o evocamos em nome de Deus, é em nome de Deus que veio?

   - Sim, mas ainda estou muito perto daquela brutalidade, apesar de já entender que o caminho é o do melhoramento. Aquele dia em que fui evocado foi para mim tão notável! A minha preocupação era parecer forte e buscar fazer a minha vontade, e que ninguém ficasse na minha frente. Mas surgiu Allan Kardec, com a sua mansuetude imperturbável, o que num primeiro momento mais me incomodou. Se pudesse, eu o teria derrubado, por meu instinto selvagem, e eis que ele mostra a outra face. Era como se ele me paralisasse naquele diálogo, e eu tentava me acalmar. A prece dita por ele penetrava o meu ser, despertava sentimentos escondidos de mim mesmo.

   3. Você fez aquilo a que se propôs: o esforço para apertar a mão daquele que a estendeu a você com tanta ternura?

   - Ah, sim!, aquela mão de um verdadeiro amigo! Amizade da parte dele, pois para mim ele ainda era um inimigo. A sua bondade, sua vontade de ajudar, de me ver como um irmão, me deixou muito confuso. Como pode? Eu que só vivia nos embates, dar com alguém querendo ser meu amigo, meu irmão, querendo me ajudar?! A dúvida e a confusão entraram em meu ser.

   4. Você retornou para vê-lo outras vezes?

   - Não. Ele que veio me ver algumas vezes nos sonhos, e depois que morreu tem vindo me instruir. Após aquele diálogo, e mesmo eu não querendo, ficou ali uma semente de mudança, mas que ainda foi difícil, e ainda é difícil para mim a verdadeira mudança.

   5. Você reencarnou depois daquele evento?

   - Uma vez, mas foi uma vida muito breve, em função do meu estágio, e num meio muito violento.

   6. Hoje você está errante ou encarnado?

   - Errante. Naquela breve encarnação eu desejava melhorar, mas tive que entrar num meio violento para perceber aquilo que antes fazia e sempre desejava mais.

   7. Do que se ocupou naquela breve existência?

   - Nasci numa tribo selvagem, que sofria os ataques de outras.

 

Eis o que um Espírito superior, consultado, escreveu a respeito desse Espírito, que obsidiava um excelente médium que trabalhava com o Sr. Allan Kardec, na noite de 6 de setembro de 1859, na casa do mestre:

"Esse Espírito, que é da mais baixa classe, é um antigo carreteiro, falecido perto da casa onde mora o médium. Escolheu para domicílio o próprio quarto deste, e há muito tempo é ele que o obsidia e o atormenta incessantemente. Agora que ele sabe que o médium deve, por ordem de Espíritos superiores, mudar de residência, atormenta-o mais do que nunca. É ainda uma prova de que o médium não escreve o seu próprio pensamento. Vês assim que há boas coisas, mesmo nas mais desagradáveis aventuras da vida. Deus revela o seu poder por todos os meios possíveis."2

 

   8. E hoje, com que se ocupa?

   - Eu tento, com auxílio desses Bons, lapidar-me, lapidar este diamante, como eles dizem, que todos nós somos, e tentando me desarmar. Eles me mostram as vantagens de ser manso, caridoso, palavras que agora eu procuro conhecer. Eu tenho tanto a aprender, mas agora estou um pouco mais comedido, mais contido, para me dominar, no bom sentido.

   9. A sua evocação hoje lhe foi agradável ou penosa? Veio de bom grado?

   - Eu vim de bom grado, mas aconselhado e sustentado por um Espírito que quase sempre está ao meu lado, que às vezes agradeço, às vezes não. Parece que me alivia um pouco estar aqui falando com vocês. Parece, embora eu ainda não entenda muitas coisas, mas parece que, quando aqui cheguei fui me acalmando, fui diminuindo o meu tamanho, pois sempre quis me mostrar grande, alto, para impor medo, para impor respeito, mas estou grato, uma palavra que ainda estou aprendendo a falar.

   10. As nossas orações ajudariam você?

   - Ah, com certeza! Com certeza ajudariam.

   11. Gostaria de nos dizer seu nome?

   - Não, me chamem só de carreteiro. Eu não quero um nome.

   12. Nós agradecemos por ter vindo ao nosso chamado. Rogamos a Deus que o envolva, que aqueça o seu coração e ilumine a sua consciência para que você seja mais feliz.

   - Eu ainda estou aprendendo a falar isso, mas obrigado. Confesso que ainda não sei orar sozinho, mas se puderem me ajudem nisso também.

 

(Por psicofonia, dia 25 de março de 2013.)

 

   No dia 16 de agosto de 2014, por ocasião de uma conversa com nosso mestre Allan Kardec, perguntamos a ele sobre o Carreteiro.

   1. Gostaríamos que o senhor nos falasse um pouco sobre o antigo Carreteiro com quem temos conversado, e que fala do senhor com tanto carinho. Como é que ele foi tocado de uma forma especial naquela reunião, no século XIX?
   - "Inicialmente, digo-vos que de todo evento podemos tirar um aprendizado. Esta deve ser a visão daquele que quer aprender, que quer aperfeiçoar-se. Muitos dos nossos colegas pensaram que não seria prudente publicar aquele artigo, pensando que ele poderia ser uma arma, um argumento a favor dos adversários da evocação dos Espíritos expondo as más influências a que se está sujeito nessa prática. Mas nós a publicamos com o objetivo de instrução.
   "Aquela má influência se deu, primeiramente, porque Deus a permitiu pelas suas leis, e o que precisamos fazer é estudar essas leis pela observação dos fatos que nos são apresentados. Foi assim que pudemos ver a má influência ocorrendo e como poderia se dar a contraposição, ou seja, a sua neutralização. Quando os objetivos são nobres, boas qualidades são dadas aos fluidos que compõem o meio, e estes neutralizam as interferências contrárias; com a boa vontade firme que diz "eu quero", impede-se que o Espírito exerça sua má influência, e foi o que se deu naquele diálogo com o Carreteiro. Ele viu que havia algo que o impedia, uma força que neutralizava sua ação e que ele não podia superar. Foi pelo poder da nossa vontade dirigida para o bem que o Carreteiro se espantou, e teve a oportunidade de começar a perceber que estava seguindo um mau caminho."

   2. Ele ainda se encontra em algum lugar específico, ou acha-se mais livre agora?
   - "Por algum tempo ele ainda queria estar num lugar fechado, queria mesmo esconder-se. Depois que eu saí do corpo, por diversas vezes tenho conversado com ele; por vezes estendia-lhe a mão e lhe dizia: "vem, amigo, quero te mostrar as belezas da criação; mostrar-te o que estás perdendo se continuares preso a esse ambiente estreito que criaste." Eu lhe mostrava as várias possibilidades que se abririam para ele, conforme ele fosse avançando. Então, aos poucos ele foi compreendendo a sua destinação como filho de Deus."

 

Allan Kardec

(Por psicofonia, no dia 16 de agosto de 2014.)

 

Instruções de Allan Kardec sobre os Espíritos endurecidos

 

"Observação: Entre os endurecidos, não há somente Espíritos perversos e maus. Há muitos que, sem procurar fazer mal, ficam para trás por orgulho, indiferença ou apatia. Não são menos infelizes por isso, pois sofrem tanto mais com sua inércia quanto não têm por compensação as distrações do mundo; a perspectiva do infinito torna sua posição intolerável, e, no entanto, eles não têm a força nem a vontade de sair disso. São aqueles que, na encarnação, levam essas existências ociosas, inúteis para eles mesmos e para os outros, e que muitas vezes acabam por se suicidar, sem motivos sérios, por desgosto da vida.

Esses Espíritos são em geral mais difíceis de trazer de volta ao bem do que aqueles que são francamente maus, porque, nestes últimos, há energia; uma vez esclarecidos, são tão ardentes para o bem quanto o foram para o mal. Aos outros, será talvez preciso de muitas existências para progredirem sensivelmente; mas pouco a pouco, vencidos pelo tédio, como outros pelo sofrimento, procurarão uma distração numa ocupação qualquer que, mais tarde, se tornará para eles uma necessidade."3

 

__________

1 Revista Espírita, dezembro de 1859 - Um antigo carreteiro

2 Idem

3 O Céu e o Inferno, cap. VII - Espíritos endurecidos - Xumène

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