PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Aflição de um suicida - Sr. V.
01 / SETEMBRO / 2023
Aflição de um suicida

 

Sr. V.

 

   O Sr. V. suicidou-se em meados do ano de 2021, aos 81 anos de idade.

   Eis o que uma de suas netas nos contou sobre o que motivou esse ato extremo:

   "Fazia uns cinco anos que a saúde do meu avô havia começado a debilitar-se. Quando estava com 81 anos, apareceu um nódulo no seu pulmão com diagnóstico de câncer também nos ossos, mas ainda seria preciso fazer exames para ver que tipo de tratamento seria o mais adequado. Na madrugada do dia seguinte ao que recebeu a notícia da doença, meu avô ligou para um de seus filhos, disse que não estava passando bem e pediu que viesse até sua casa, com algum socorro, e que deixaria o portão aberto. Seu filho chegou e já o encontrou morto. Havia se suicidado com um tiro na cabeça.   

   "Meu avô era uma pessoa sempre alegre. Era a alegria de todos os familiares e também muito querido na cidade onde morava.

   "Sempre esteve envolvido em trabalhos voluntários para a comunidade, junto aos padres da Igreja local. 

   "Era um exímio contador de histórias, sempre nos envolvia com seus causos, floreados e cheios de detalhes. Também gostava muito de contar piadas e de fazer pegadinhas, divertir-se à custa de quem caísse nas suas brincadeiras, sem se importar se isso poderia magoar alguém. 

   "Ele era extrovertido, falante e se relacionava bem com todos. Para ele não tinha dia ruim, acho que nunca o vi cabisbaixo, para ele tudo virava uma piada, talvez até fosse uma forma de defesa. 

   "Foi assim que, na noite em que minha mãe relatou a ele que os exames aos quais ele havia se submetido deram positivo para câncer, ele contou piadas, estava todo animado, parecia bem, mas na madrugada se suicidou."

   Nesse mesmo dia tivemos a oportunidade de perguntar ao mestre Allan Kardec sobre a situação do Espírito desse suicida. Eis o que nos foi dito:

   "A situação em que se encontra esse infeliz Espírito nos inspira viva compaixão. O sofrimento pelo qual passa agora é muitas vezes mais pungente do que aquele que o aguardava se ele tivesse enfrentando a doença. Houvesse ele aproveitado a prova que Deus lhe enviara e, mesmo que o corpo se corroesse, sairia dele um Espírito feliz.

   Muitos ainda acreditam que há sofrimentos nesse mundo, grandes o bastante para serem demasiadamente temidos. Possa o Espiritismo cumprir o seu papel, expandindo-se entre todos os sofredores da Terra, a fim de que encontrem nele o consolo e a certeza de que seus sofrimentos são momentâneos; que, se bem suportados, com fé e resignação, as aflições resultarão em bem-aventurança.

   Orai pelo Espírito do Sr. V. e evocai-o em vosso grupo familiar para auxiliá-lo a sair o mais brevemente possível da perturbação em que se encontra. Quando ele se arrepender sinceramente pelo que fez, seus sofrimentos diminuirão."

Allan Kardec

(Comunicação por psicofonia)

 
Sessão familiar do dia 4 de março de 2021

 

   Evocação do Espírito do Sr. V., pelos seus netos.

   Eis o que ele escreveu:

   "Eu preferia ficar em silêncio, não dizer nada a respeito dessa situação, mas em respeito ao chamado dos meus netos, vou falar que essa é a maior decepção que pude ter. Eu, na verdade, nem sei explicar o que está acontecendo comigo. Sou um morto vivo, ou estou vivo, mesmo querendo morrer... 

   Meu Deus, o que é isso?! Sinto minha cabeça explodir! Quanto sofrimento, meu Deus! Se eu pudesse entender o que é isso... Sofrimento... Só sofrimento, não há remissão. Isso deve ser o inferno. Rezem por mim.

V.

(Psicografada no dia 4 de março de 2021.)

 

Sessão do dia 14 de maio de 2021

 

   Evocação do Espírito do Sr. V. por sua neta.

   O Espírito escreveu, mas ainda com grande dificuldade:

   "O que fazer agora? Como colocar fim nisso?

   Tudo é confuso para mim, minha neta... sofro, mas não sei o motivo... eu quis fazer o certo, poupar todos vocês dos sofrimentos que me ameaçavam...

   Percebo bons pensamentos a me envolverem, como se fosse um frescor por todo meu corpo, mas logo volta a confusão, o estampido, e o torpor toma conta de mim.
   Por que Deus enviou essa doença para mim, já no fim da minha vida? Eu não merecia isso! Hoje estou separado de todos, me sinto numa prisão. O que fazer agora? Como colocar um fim nisso? Não deixe de falar comigo, minha neta, pois ninguém mais me escuta."

V.
(Psicografada no dia 14 de maio de 2021.)

 

Sessão do dia 23 de setembro de 2021

 

   Evocação.

   - Eu aqui estou, e quero dizer que é com muita dificuldade que me apresento, unindo todas as minhas forças à vontade de aqui estar.

   1. De que natureza é a sua dificuldade?

   - De duas naturezas: a dor do ato cometido, que ainda permanece, e a do arrependimento, também pelo mesmo ato que cometi.

   2. Seus netos o chamam com carinho e desejam saber suas notícias. O senhor pode conversar com eles, e assim vai se sentir melhor.

   - Foi pelo sentimento deles que eu reuni as forças que me restam para aqui estar.

   3. Oi vovô, o senhor consegue me ver?

   - Sim, minha neta. Eu a vejo.

   4. O senhor tem recebido as minhas preces? 

   - Sim, é o que tem me ajudado nessa situação que não tem sido fácil. Suas preces têm fortalecido o meu ânimo e me ajudado para que eu não esmoreça e fique paralisado.

   5. O senhor já encontrou a sua mãe, o seu pai?

   - Não. Não encontrei a nenhum de meus familiares. Eu tenho atribuído isso a mim mesmo, pela falta que cometi.

   6. O senhor tem estado sozinho por todo esse tempo?

   - Por muito tempo eu permaneci sozinho e preso ao momento derradeiro, do qual não desejo falar agora. Mas, graças às orações eu pude perceber esse Santo a quem vocês chamaram há pouco e que tem me ajudado muito. (Refere-se a Santo Agostinho, presidente do grupo familiar.)

   7. O senhor tem orado a Deus? Tem pedido ajuda?

   - Somente agora, com a ajuda dele eu consigo raciocinar um pouco melhor e juntar-me às orações, pedindo a Deus que me perdoe pelo ato cometido.

   8. Nós amamos muito você, vovô. E é esse amor que faz com que a gente queira vê-lo feliz. Por isso insistimos nas nossas preces a Deus, para que o senhor consiga acalentar o seu coração também.

   - Eu sei que vocês sempre me tiveram como um bom exemplo, mas depois do que fiz as coisas mudaram: percebo hoje que fracassei diante da prova.

   9. Todos temos as nossas fraquezas, vô. O senhor fez também coisas boas. Vamos lutar para que as fraquezas sejam superadas e guardar as coisas boas que trazemos no coração. Podemos pedir perdão a Deus pelos nossos erros, pelas nossas faltas, por aquilo que deixamos de fazer. Podemos buscar nos melhorar, crescer, encontrar o bom caminho.

   - Quando penso no quanto eu fiz todos vocês sofrerem, quando tudo poderia ter sido evitado, meu sofrimento aumenta. Mas eu não resisti por causa da minha fraqueza...

   10. Mas não imagine que, por sua fraqueza, Deus o ama menos, nem os seus familiares. Então o senhor não precisa ficar constrangido, nem achar que quebrou o laço do afeto, porque isso não é verdade, e o senhor está percebendo isso. Seus familiares o amam. Deus o ama e quer vê-lo livre desse sofrimento, porque é um Pai misericordioso. O senhor entende isso?

   - Eu entendo, mas também entendo que eu poderia ter feito diferente. Só agora eu entendo. Eu poderia ter suportado a doença que me chegou e talvez ela não tivesse sido tão cruel quanto o sofrimento que tenho enfrentado. 

   11. Agora é o momento de o senhor fazer um esforço para sair dessa situação, pedindo a Deus com sinceridade, pois isso vai trazer alegria a todos aqueles que querem ver o senhor feliz.

   - Eu entendo. Vivemos muito tempo essa alegria juntos. A visita dos meus netos enchia a casa de alegria, de felicidade. O que eu não consigo aceitar é que, por minha causa, tudo isso foi rompido e a tristeza tem tomado, há muito tempo, o lugar da alegria. 

   12. Sabe, vovô, que as boas lembranças a gente não perde. Hoje, no comecinho desta reunião, eu imaginei a gente chegando na sua casa, como a gente sempre chegava, nos abraçando, o senhor sempre sorridente, com uma história para contar... Como era bom ouvir as suas histórias. Isso que eu imaginei há pouco, pedindo para que o senhor viesse, é a marca que o senhor deixou na gente, o seu carinho, sua alegria, seu amor, e isso ninguém nos pode tirar. Se a tristeza se instalou por um período, com certeza o nosso amor é muito maior que tudo isso. Não pense que o laço do afeto se rompe com a morte. É o afeto que a gente quer que o senhor sinta de todos nós. 

   - Eu agradeço muito por todo o carinho que vocês têm para comigo. Eu lamento, lamento muito não ter tido coragem para enfrentar a doença, porque achei que fosse muito além das minhas forças o sofrimento que ia ter. Mas agora tenho pensado muitas vezes: se eu fosse corajoso não ia me faltar o apoio de nenhum de vocês; estariam ao meu lado, mesmo que fosse no meu leito de morte...

   13. O senhor gostaria de deixar alguma mensagem que eu pudesse levar para a família, para a vovó, para os seus filhos?

   - Diga a toda a família e também a quem você puder dizer, minha neta, que ninguém siga o exemplo desse seu velho avô. Diga a todos que a vida continua, e por mais dificuldade que se encontre pela frente, jamais se deve pensar em praticar esse ato. Também quero agradecer a toda a família pelas orações que têm feito por mim, pelos bons pensamentos que me enviam, e dizer que eu continuo vivendo, que como lutei quando estava aí e venci muitas etapas, tenho esperança que vencerei essa etapa também.

   14. Gostaria de nos dizer algo mais?

   - Quero dizer que vocês que me encorajaram, de certa forma, com o pensamento, e me sustentaram para que aqui eu estivesse. Agora, eu me despeço de vocês. Quero deixar um abraço desse velho avô a todos vocês, e dizer que com a ajuda desse bom Santo a esperança renovou. Ele me diz que um dia eu poderei voltar e ajudá-los. Ainda não entendo como, mas vou fazer muito esforço para que isso aconteça. Agradeço por me chamarem.

   15. Nós agradecemos, vovô, por ter vindo e vamos continuar juntos. Vamos continuar orando para o senhor ter as forças necessárias e poder estar perto de nós, sempre que quiser. É sempre bem-vindo aqui no nosso grupo de estudos. Estaremos sempre aqui para lhe ajudar. Eu o amo muito. 

   - Eu tenho certeza disso, minha neta. E como tenho ouvido, vou recuperar as minhas forças e a minha alegria novamente. Obrigado, meus netos, e a todos vocês que aqui estão. Adeus.

V.

(Por psicofonia, dia 23 de setembro de 2021.)

 

Sessão do dia 29 de junho de 2023

   

   Evocação do Espírito do Sr. V.

   "Antes eu até buscava ignorar essa dor que ainda sinto. Quis enganar a mim mesmo e Deus deixou, desde o início. Desde aquele momento em que pensei em fazer o que fiz, Deus deixou eu me enganar.

   Sabem, o orgulho é um corrosivo que corrói minha alma culpada. Mas uma Luz, que ilumina tudo, me mostra como eu realmente sou e não mais o que eu queria que os outros pensassem que eu era.

   Sou culpado, sim, porque não tive coragem de enfrentar a doença. Fui egoísta, porque não pensei naqueles que ficariam suportando as dores das lembranças e da saudade. Quanto egoísmo!

   Fico ainda por longo tempo revendo aquela cena fatal, e tenho suplicado a Deus que alivie o meu sofrimento. E agora que lhe suplico recebo melhor as preces que fazem por mim.

   Ouço a tua voz, tão suave, minha neta, e isso me dá um certo alívio. Até pouco tempo eu temia que soubessem da minha real situação, mas agora eu quero que Deus me perdoe, e peço que rezem por mim."

V.

(Psicografada no dia 29 de junho de 2023.)

 

Observação: nota-se que esse Espírito demorou para admitir a verdadeira causa de seus sofrimentos e, só depois que o fez, deu um passo para sair da situação em que se encontra desde que tirou a própria vida.

Nota-se também que em suas conversas ele jamais pronuncia a palavra suicídio. Apenas se refere a ele como "aquele ato". Como católico, ele sabia que o suicídio é contrário às leis de Deus. Talvez seja por isso que evitava falar essa palavra.

 

"A religião, a moral, todas as filosofias condenam o suicídio como contrário às leis da Natureza. Todas nos dizem, em princípio, que ninguém tem o direito de abreviar voluntariamente a vida. Entretanto, por que não se tem esse direito? Por que não é livre o homem de pôr termo aos seus sofrimentos? Ao Espiritismo estava reservado demonstrar, pelo exemplo dos que sucumbiram, que o suicídio não somente é uma falta, por constituir infração de uma lei moral - consideração de pouco peso para certos indivíduos -, mas também um ato estúpido, pois que nada ganha quem o pratica, antes o contrário é o que se dá, como no-lo ensinam, não a teoria, porém os fatos que ele nos põe sob as vistas."1

 

__________

1 O Livro dos Espíritos Das esperanças e consolações, cap. I - Das penas e gozos terrestres - Desgosto da vida. Suicídio. Item 957. Veja-se também em O Céu e o Inferno, segunda parte, Exemplos. Cap. V - Suicidas.

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