"Eu não mexo com quem está quieto."
Essa frase foi dita por uma senhora que sofria de uma obsessão por vingança, quando lhe perguntamos se ela evocava os Espíritos.
A Sra. E. chegou em nossa casa faz mais de 22 anos para trabalhar como diarista, recomendada por uma amiga nossa que a conhecia e para quem ela já trabalhava há alguns anos.
Contratada, a Sra. E. se mostrou bastante trabalhadeira, caprichosa, honesta e discreta. Raramente falta ao serviço, e quando falta é por um motivo bem justificado. Assim tem sido desde o início, pois ela continua a trabalhar em nossa casa até hoje, já fazendo parte da família.
Desde criança a Sra. E. participa de uma igreja evangélica, pois quando nasceu sua mãe já era adepta dessa mesma religião e uma crente fervorosa em Deus. Em sua igreja, a Sra. E. havia aprendido que o Espiritismo é coisa do demônio, que os espíritas fazem mal às pessoas incluindo em seus rituais sacrifícios de animais e outras coisas bizarras. No entanto, como somos espíritas, com o passar dos anos ela foi se dando conta de que o Espiritismo não era o que lhe haviam dito. Sabia que nosso grupo se reunia para estudar com os Espíritos, mas jamais vira em nosso meio qualquer coisa estranha daquilo que pensava ser o Espiritismo. Assim, ela acabou por perder o medo que tinha no início, pois contou-nos depois que ao deparar-se com tantos livros espíritas por toda parte em nossa casa, evitava tocá-los diretamente com as mãos, então usava um espanador para tirar o pó desses objetos perigosos.
Demasiadamente introvertida a Sra. E. só se sentava à mesa para fazer as refeições junto com os patrões quando não tinha ninguém estranho junto, mesmo que fossem outros familiares. Falava pouco, tinha um comportamento que parecia um medo injustificado de algo que ela mesma não sabia explicar.
Numa ocasião ela nos disse que as coisas estavam bastante difíceis em sua família. Uma de suas filhas, casada há alguns anos e vivendo bem com o marido até então, estava prestes a se separar sem motivo justificado. Sua outra filha, também casada e mãe de dois filhos, andava às voltas com os mais diversos problemas que surgiam do nada para perturbar a paz familiar. Irritações, problemas de saúde, discussões, e outros tantos incômodos estavam se tornando constantes em sua família. Nós a aconselhamos que orassem uns pelos outros, já que todos eram crentes, que buscassem forças em Deus e pedissem preces aos correligionários da sua igreja, e nós também orávamos por todos eles.
Um dia ela chegou para trabalhar com ar de profunda tristeza. Surpreendemo-la chorosa e lhe perguntamos o que se passava. Ela explodiu em prantos. Disse-nos que não valia nada, que sua vida estava muito difícil e que não sabia mais o que fazer. Veio-nos a ideia de perguntar aos nossos Guias sobre o que se passava com ela e sua família. Foi o que fizemos em nossa próxima reunião familiar.
Santo Agostinho nos disse que a Sra. E. estava sofrendo uma obsessão por vingança, por parte de um Espírito que não soube perdoar uma ofensa que sofrera, em uma existência passada, daquela que hoje é a Sra. E. Aconselhou-nos a evocar o obsessor, pois ele era suscetível de ser levado a desistir de sua vingança.
Eis aí uma prova da reencarnação, lei essa que a Sra. E. não aceita como uma verdade, pois lhe ensinaram que ao morrer todos vamos aguardar, dormindo, o juízo final. Todavia, acreditando ou não nas leis de Deus, não se pode derrogá-las pelo simples fato de negá-las.
Passamos para a Sr. E. as orientações dadas por Santo Agostinho e lhe pedimos que se mantivesse mais vigilante e que também pedisse a Deus pelo Espírito obsessor. Disse-lhe que nós iríamos evocá-lo para, com a assistência dos bons Espíritos e de Jesus, levá-lo a desistir da vingança.
Foi o que fizemos, e líamos para ela todos os diálogos que tínhamos com o Espírito, seu inimigo, e ela acompanhava atentamente. Às vezes ela nos perguntava: "O que será que eu fiz de mal para esse Espírito?"
Embora não acredite na reencarnação, a Sra. E. sabe que os Espíritos podem se manifestar aos vivos porque tinha presenciado a possessão de um de seus irmãos por um Espírito que havia sido amigo dele, mas que, por questões de disputa de uma mulher, se suicidara.
Numa das vezes que líamos o diálogo que tivemos com seu obsessor, a Sra. E. nos pediu que na próxima conversa perguntássemos a ele sobre a causa do seu ódio por ela. Então nós lhe dissemos: venha participar de uma das nossas conversas com ele e lhe faça você mesma essa pergunta. Ela arregalou os olhos e disse: "Deus me livre!" Eu não mexo com quem tá quieto!"
Ah, então ele estava quieto? Por acaso você chamou esse Espírito alguma vez na sua casa? Perguntamos a ela.
Ela respondeu assustada: "Nem fale uma coisa dessas! Eu nunca fiz e nunca faria isso."
Então replicamos, a fim de fazê-la pensar melhor a respeito:
Você nunca chamou esse Espírito, mas ele estava dentro da sua casa fazendo o que bem queria, e também nas casas de suas filhas. Aqui em casa, que temos o hábito de evocar os Espíritos, ele só veio constrangido pelos bons Espíritos, porque não queria vir.
Ela disse: "Pois é, eu nunca tinha pensado nisso."
"Há alguma diferença entre os bons e os maus Espíritos, com relação à solicitude com que atendam ao nosso chamado?
- "Uma bem grande há: os maus Espíritos não vêm de bom grado, senão quando esperam dominar e enganar; experimentam viva contrariedade, quando são forçados a vir, para confessar suas faltas, e outra coisa não procuram senão ir-se embora, como um colegial a quem se chama para corrigir. Podem a isso ser constrangidos por Espíritos superiores, como castigo e para instrução dos encarnados. A evocação é penosa para os bons Espíritos, quando são chamados inutilmente para futilidades; então eles não vêm, ou logo se retiram."1
Graças a Deus e aos bons Espíritos, ao cabo de algumas sessões e muitas preces e argumentos, o Espírito desistiu de sua vingança. Pouco tempo depois tudo voltou ao normal na casa da Sra. E. e de seus familiares. Sua filha e seu genro, que estavam prestes a se separar legalmente, pois já o estavam de fato, voltaram a se entender como antes, e logo tiveram um lindo filho. No lar da outra filha as perturbações também cessaram. Já se passaram mais de dez anos desses eventos, e tudo segue normalmente no seio dessa família.
Um fato digno de nota é que depois da cura da obsessão, a Sra. E. teve uma mudança significativa em seu estado psicológico. Ficou bem mais alegre, jovial, e não tem mais aquele medo crônico que a atormentava antes. Nossos familiares e amigos, ao virem nos visitar depois disso, não deixaram de notar uma grande diferença no comportamento e mesmo no semblante da Sra. E.
Hoje em dia, quando coincide de ela estar em nossa casa quando recebemos visitas, ela se senta alegremente à mesa para fazer as refeições conosco, e conversa bastante e bem descontraída.
Depois que o Espírito abandonou a vingança, nós o entrevistamos algumas vezes. Perguntamos-lhe sobre o motivo do seu ódio pela Sra. E., e ele nos disse que teria sido enganado por ela numa vida passada, em questões de disputas de terras. Perguntamos então se também era ele que perturbava os demais familiares dela, ele nos respondeu que sim.
Então não era só dela que você queria se vingar? Perguntamos. Ele disse: "Eu queria infelicitá-la, e para isso eu agia em todas as pontas que pudessem atingi-la, e nada melhor para atormentá-la do que ferir aqueles que ela ama."
Graças a Deus e ao Espiritismo prático, duas almas se libertaram das correntes do ódio que os escravizavam, e toda uma família retomou o sossego em seus lares.
Se ainda resta alguma dúvida de que basta não evocar os Espíritos para ficar livre dos maus, vamos recorrer ao que ensinou o mestre Allan Kardec a respeito dessa crença errônea:
"Pergunta-se, diante do perigo da obsessão, se ser médium não é uma coisa lastimável; não é essa faculdade que a provoca? Numa palavra, não está aí uma prova da inconveniência das comunicações espíritas? Nossa resposta é fácil, e pedimos que a meditem com cuidado.
"Não foram os médiuns, nem os espíritas que criaram os Espíritos, mas bem os Espíritos que fizeram que haja espíritas e médiuns. Não sendo os Espíritos senão as almas dos homens, há, pois, Espíritos desde que há homens; por conseguinte, desde todos os tempos eles exerceram sua influência salutar ou perniciosa sobre a Humanidade. A faculdade mediúnica é para eles apenas um meio de se manifestar; na falta dessa faculdade, fazem-no por mil outras maneiras, mais ou menos ocultas. Seria, pois, um erro crer que só por meio das comunicações escritas ou verbais exercem os Espíritos sua influência; esta influência é de todos os instantes, e os que não se ocupam com os Espíritos, ou mesmo não creem neles, estão a eles expostos como os outros, e mesmo mais do que os outros porque não têm contrapeso. A mediunidade é para o Espírito um meio de se fazer conhecer; se ele é mau, sempre se trai, por mais hipócrita que seja; pode-se, pois, dizer que a mediunidade permite se veja o inimigo face a face, se assim nos podemos exprimir, e combatê-lo com suas próprias armas; sem essa faculdade, ele age na sombra e, graças à sua invisibilidade, pode fazer e faz realmente muito mal. A quantos atos não se é impelido, para a própria infelicidade, e que se teria evitado, se se tivesse tido um meio de se esclarecer! Os incrédulos não imaginam enunciar uma verdade, quando dizem de um homem que se engana obstinadamente: "É o seu mau gênio que o impele à própria perda." Assim, o conhecimento do Espiritismo, longe de dar império aos maus Espíritos, deve ter como resultado, em tempo mais ou menos próximo, e quando se achar propagado, destruir esse império dando a cada um os meios de se pôr em guarda contra suas sugestões, e aquele que sucumbir não poderá se queixar senão de si mesmo."2
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1 O Livro dos Médiuns - Segunda parte - Das manifestações espíritas, cap. XXV - Das evocações - Questões sobre as evocações, 21ª.
2 O Livro dos Médiuns - Segunda parte - Das manifestações espíritas, cap. XXIII - Da obsessão - Causas da obsessão, item 244. Veja-se também: Cap. XXV - Das evocações - Espíritos que se podem evocar, item 278.

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