Conversas familiares de além-túmulo
Sra. Yolanda
A Sra. Yolanda faleceu em novembro de 2020, aos 89 anos. Era muito querida por sua neta, Sra. P. e por seu esposo, Sr. R., que também a chamava de vó.
Desejosos de saber notícias da avó querida, um dia receberam uma comunicação espontânea ditada num centro espírita, atribuída a ela, mas reconhecida falsa pelos familiares. O casal, alheio ao Espiritismo prático, recorreu então a um médium da própria família, que é irmão do esposo da Sra. P. e já se ocupa de Espiritismo prático há vários anos, como membro de um grupo espírita particular. Ele aceitou, solícito, servir de intermediário na comunicação entre o Espírito da Sra. Yolanda e seus afetos vivos, fazendo valer o aspecto mais belo e consolador do Espiritismo.1
Vamos reproduzir aqui as partes dos diálogos que dão a conhecer um pouco a natureza do Espírito evocado, sua situação antes de falar com os familiares, bem como a mudança que se nota ao longo das conversas. Preservamos a forma simples e coloquial de se expressarem na intimidade os interlocutores dessas conversas em família.
Primeira conversa
(Por psicofonia, dia 28 de dezembro de 2023. Médium Sr. T.)
Evocação, em nome de Deus.
O Espírito responde um tanto surpreso.
- É minha neta P. que me chama, mas eu não lembro de ela ter me convidado pra vir na casa dela.
1. (Neta) Queremos saber suas notícias, saber como tem passado, o que tem feito.
- Ah, eu tentei ligar pra você algumas vezes, tentei falar com a sua mãe, com meu filho também, mas não consegui. Não consegui. Ninguém quer falar comigo. Então eu fico na minha casa, ando um pouco, limpo a casa, aí assisto televisão, fico parada também, pensando, durmo um pouco, quando é preciso eu vou no mercado. Mas eu tenho dificuldade para fazer as coisas, então eu faço um pouquinho e descanso.2
Observação: as pessoas que não evocam seus parentes mortos alegando que o telefone só toca de lá para cá, talvez tenham deixado de atender muitas "ligações" dos afetos de além-túmulo. Ainda bem que a Sra. Yolanda conseguiu, depois de "ligar" algumas vezes, ter sua chamada respondida.
2. Eu não escutei a senhora me chamar, mas agora eu tô aqui, pode falar comigo.
- Eu não entendo porque isso, mas sei que agora você tá me ouvindo. Eu não tô muito bem, não.
3. O que a senhora tá sentindo?
- Eu fiquei muito cansada, né, porque depois que eu fui embora daquele hospital, pra minha casa, sozinha, não consigo me virar muito bem, não consigo me cuidar direito, é difícil pra mim. É muito difícil fazer as coisas de casa, ir no mercado, na farmácia, me cuidar sozinha, é bem difícil. Mas agora que você tá aqui, que tá me ouvindo, eu queria pedir pra você me ajudar e falar pro resto da família me ajudar também, né? Porque sozinha não dá mais não.3
Observação: o fato de a Sra. Yolanda julgar-se ainda viva, dedicando-se às suas tarefas habituais, não é novidade para o espírita esclarecido, pois é grande o número de Espíritos que se encontram em tal situação, especialmente aqueles ainda bastante ligados à matéria. Esse estado pode durar dias, meses e mesmo anos.4
4. Imagina, vó. A gente tá aqui, todos estão tentando ajudar a senhora, mas ninguém ouvia o seu chamado. Estamos todos à sua disposição.
- Vocês ficaram surdos de repente, foi? Não sei o que acontece, mas todo mundo ficou surdo. Eu achava mesmo que vocês queriam ignorar algumas coisas que eu falava pra vocês, e estavam começando a fingir que não me ouviam mais. Mas agora que você tá falando comigo aqui, eu acho que não é isso.
5. Agora que eu tô lhe ouvindo, pode falar comigo que eu falo com eles.
- Bom, então eu vou vir falar direto com você porque assim pelo menos você me ouve, né?
6. Vou estar aqui sempre que a senhora precisar, como sempre estive, tá bom?
- Olha lá! Olha lá! Eu vou vir aqui na tua casa te procurar...
7. Pode vir. A senhora viu que agora na minha casa tem um bebezinho? Conheceu nosso filho?
- Eu vi ele, mas vi de longe, porque pra mim é cansativo ficar indo pra lá e pra cá, né? É cansativo, mas eu tô feliz com isso, viu? Desejo que você seja uma boa mãe, que Deus te abençoe, abençoe o R. também para que vocês sejam bons pais. É o meu bisneto, né? Então, se você quiser, eu vou te ajudar a cuidar dele, tá bom? Quando você quiser ou precisar que eu fique de olho nele, eu fico. Tá certo que eu já não consigo me mexer muito bem, então não dá pra fazer certas coisas, mas posso vigiar ele pra você enquanto você faz a comida, isso eu posso fazer pra te ajudar.
8. (R.) Oi vó, tô aqui.
- Oi, R., não tinha visto você.
9. A gente gosta muito de estar com a senhora.
- Ah, eu também gosto da família toda. Tem algumas pessoas que cuidam melhor da gente, que não dão dor de cabeça pra gente, e com elas a gente fica mais em paz. Agora, do jeito que eu tô, não quero mais ver briga, não quero mais desgosto, não quero mais discussão, eu já tô velha.5 Eu já passei por uma doença, fiquei também muito tempo me cuidando sozinha, agora eu quero terminar minha vida para morrer em paz, né? Agora eu quero morrer em paz, é só isso que eu quero, morrer em paz.
10. A senhora tem rezado por esse dia, vó?
- Ah, eu não rezo pra morrer, porque quem é que vai rezar pra morrer, né? Eu não rezo pra isso. Eu rezo pra que eu vá em paz, é para isso que eu rezo. Rezo pelos familiares, rezo por vocês e pra continuar tendo saúde, agora que eu saí do hospital. Mas eu não rezo pra morrer, né, R.! Rezar pra morrer (risos), rezar para morrer a gente não reza não.
11. A gente precisa rezar para fazer uma boa passagem, vó.
- É pra isso que eu rezo, para ter uma boa passagem, pra que Deus e os anjos me recebam, para Nossa Senhora me receber, então é para isso que eu rezo. Eu rezo pra ter saúde, pra continuar vivendo com saúde, mas depois que saí do hospital eu continuei um tempo com dor no abdômen, dor de cabeça, a minha perna também tá inchada, eu sinto é dor da velhice. É isso que eu sinto, dor da velhice mesmo.6
12. A senhora lembra quanto tempo faz que saiu do hospital?
- Já faz tempo. Eu saí do hospital, mas como demoraram muito pra ir me buscar, tomei um táxi e fui pra minha casa.7
Observação: essa conversa, que foi a primeira, ainda se prolongou por mais um tempo, e os assuntos tratados diziam respeito apenas à família.
No decorrer da segunda conversa, São Bento, guia do grupo, se apresentou ao Espírito da Sra. Yolanda como padre; ela, que ainda se julgava viva, pensando tratar-se de um padre encarnado, aceitou conversar com ele e com isso saiu mais rapidamente da perturbação.
Quando foi chamada pela terceira vez, seus netos, com sabedoria e com a ajuda de São Bento, levaram a avó a refletir sobre sua situação e ela acabou por compreender que não estava mais no corpo físico. Num primeiro momento ela ficou um tanto aflita, mas foi socorrida por São Bento.
Vamos reproduzir aqui as passagens do quarto diálogo que julgamos instrutivas de maneira geral, e podem dar motivos para sérias e úteis reflexões.
Quarta conversa
(Por psicofonia, dia 20 de janeiro de 2024. Médium Sr. T.)
Evocação.
- Oi, minha neta. Estou contente por falar com você de novo.
1. (Neta) Oi, vó, eu também estou bem feliz por poder falar com a senhora. A senhora está bem?
- Hoje estou contendo a minha emoção ao falar com vocês, mas estou bem, sim. Entendo que ainda tenho muito para ver, porque não compreendo tudo, mas já não tenho mais aquela confusão nas ideias que tinha antes, tenho estado mais calma.
2. A senhora se sente mais feliz?
- Eu tenho mais serenidade agora. Serenidade em relação ao que passei antes, mas não é felicidade. É claro que estou melhor, pode acreditar, mas fala para mim: será que eu era feliz antes? Será que a vó Yolanda era feliz, minha neta?
3. Eu acredito que a senhora era muito feliz, vó.
- Não do jeito que é a felicidade de fato. Aí no corpo a gente dá risada, a gente se reúne, a família conversa, brinca, mas no fundo cada um tem coisas dentro de si que não revela. Então, a gente olha a pessoa e não sabe dessas coisas. Eu era feliz por algumas coisas, e as pessoas que eu amava, e ainda amo, é que fazem essa felicidade. Porém, eu mesma vejo agora que não sou feliz e não poderia ser. Como poderia ser feliz da noite para o dia, se apenas acabei de acordar de um longo sono?
Poderia eu, que de repente pulei da cama de um hospital para o mundo dos mortos, ser feliz, se não mudei nada em mim? Então, não se enganem pensando que a vó de vocês era feliz de fato.
"A felicidade terrestre é relativa à posição de cada um. O que basta para a felicidade de um, constitui a desgraça de outro. Haverá, contudo, algum critério de felicidade comum a todos os homens?
- "Para a vida material, é a posse do necessário; para a vida moral: a boa consciência e a fé no futuro."8
4. A senhora entende agora porque não era feliz? Se entende, gostaria de compartilhar comigo para eu saber em que posso agir diferente e também ajudar os familiares que ainda estão no corpo?
- Algumas coisas eu já entendi, outras ainda não. Então a gente vai ter que conversar de novo, mas posso adiantar que nas minhas conversas com o padre9, que tem me ajudado, eu fui refletindo sobre a vida que deixei. Vi, como os dias se passavam na minha vida e como ela voou. Então fui refletindo sobre cada momento vivido. Percebi que na verdade seria muito difícil eu ser feliz, porque não entendia o que é o amor e o perdão. Eu não entendia o que era isso conforme Deus quer. Então, guardei... deixa eu falar a palavra certa: guardei alguns lixos em minha alma. Guardei, no transcorrer da vida, coisas que agora me prejudicam, porque não entendia direito o que Deus queria. Passei por dificuldades e, mesmo pedindo ajuda de Deus, eu tinha no meu coração uma certa revolta, porque não sabia porque aquilo acontecia. Então, tudo isso foi o que me fez infeliz.
Hoje vejo que Deus nos empresta alguns tesouros, que são a nossa família, mas eu mesma tinha que construir um tesouro em mim, e é isso que hoje estou tentando entender como fazer. O pouco que eu sei e que falo agora é o que conversei essa semana com o senhor Padre. Ele me disse que Deus nos ama tanto, que se tivesse me feito feliz e eu pudesse ir para o céu sem nenhum trabalho, eu não teria liberdade. Então, Deus quer que eu mesma construa meu tesouro, se eu quiser, e isso vale para todos os seus filhos. A gente se engana nessa vida, pois só agora, livre do corpo, eu vejo com mais clareza que eu mesma carreguei as pedras que agora são um peso para mim. Vejo que algumas delas eu guardei por ignorância, mas outras foi porque eu quis guardar, e são essas que me pesam mais agora.
5. (R.) Oi, vó.
- Oi, R.
6. Tendo em vista tudo o que a senhora está aprendendo agora, gostaria de falar alguma coisa para os afetos queridos da senhora que continuam aqui com a gente?
- Todas essas coisas que eu falei são para eles também, porque são coisas pequenas que a gente não dá atenção, quer dizer, a gente pensa que são pequenas e não damos atenção, vamos vivendo aí como um passarinho qualquer: preparamos nossa comida, fazemos nosso trabalho, cuidamos dos filhos, e vamos vivendo sem percebermos que abrimos no coração um lugar para guardar coisas que não prestam. Imaginem só, já que eu falei de passarinho, se para construir seu ninho, ao invés de palhinhas macias, ele levasse pedras, agulhas, caco de vidro, coisas que iriam ferir? É assim que às vezes construimos a nossa casa interna, com coisas que nos ferem, que nos machucam. E tudo isso porque não entendemos o que é o amor e o perdão conforme Deus quer.
Agora que estou começando a me dar conta do que Deus quer de nós, entendi que eu não teria a felicidade que almejava ter depois da morte, mesmo se tivesse levado uma vida considerada normal aí no corpo, porque não pratiquei essas coisas.
O padre me disse para contar a vocês que eu sou infeliz, mas também que eu posso de agora em diante dar passos no bom caminho. Sou infeliz, mas não estou revoltada, nem sofrendo, como vocês poderiam imaginar. Posso dizer que minha infelicidade consiste em não entender direito o que é a verdadeira felicidade. Por exemplo, tem pessoas que pensam que a felicidade está nas festas, na comida, nas risadas, mas elas estão enganadas, porque têm coisas bem mais importantes. Eu sou uma dessas pessoas, porque não entendia direito o que é a felicidade, mas agora sei que existe a felicidade verdadeira, que ainda não conheço, mas vejo de longe. É isso que quero falar para minha família, porque amo vocês e sei que sofreriam muito mais se eu dissesse que hoje sou feliz e que fui para o céu. Penso que vocês ainda podem evitar passar pela situação que eu passei. Quero encontrar vocês melhores do que eu no dia que morrerem, meu desejo é esse. Agora eu posso estar perto de vocês e sei que vou esperar vocês quando chegarem aqui. Eu amo vocês de verdade, e não quero que passem por qualquer sofrimento.
7. A gente também te ama, vó, e rezamos para que a senhora não tenha mais qualquer sofrimento. Pelo que a senhora está dizendo, entendemos que a parte mais turbulenta passou. Além do padre que está com a senhora, sempre lhe aconselhando e lhe instruindo, Jesus e Maria também estão com a gente, pois a vida inteira nós rezamos a eles. Além deles, tem os nossos anjos guardiães que sempre estão olhando por nós. A propósito, a senhora já falou com o seu Anjo?
- Ainda não falei porque tenho um pouco de vergonha de vê-lo. Sinto que o decepcionei, por não tê-lo ouvido tantas vezes.
8. (Neta) Não precisa ter vergonha, vó. O seu Anjo não vai lhe abandonar. Ele compreende tudo o que a senhora fez e vai lhe ajudar, vai lhe aconselhar, se a senhora pedir a ele sinceramente.
- É, eu sei, mas ainda não me sinto bem para fazer isso. Estou com um bom professor e tenho que ter paciência porque estou começando agora e todas as coisas aqui são novidade para mim.
9. É muito bom estar falando com a senhora, vó. Tanto pela saudade que a gente sente, quanto pela oportunidade de conseguirmos conversar.
10. Eu não posso dizer que sinto saudade, porque embora vocês não me vejam eu estou por perto sempre que posso fazer alguma coisa por vocês, e isso me alegra.
11. (R.) A gente fica muito feliz em saber disso, vó.
- Eu preciso encerrar agora, mas nós podemos conversar mais em outra ocasião.
12. (Neta) A gente sempre vai poder conversar, vó.
- Eu vou estar pertinho de vocês. Agradeço e peço que digam para a família que eu amo a todos e que prestem atenção naquilo que eu falei para vocês.
13. (Neta) Deixe que eu levar sua mensagem para eles, vó.
- Fiquem com Deus.
14. (Ambos) Fique com Deus também, vó.
"A evocação, diz-se, é uma falta de respeito pelos mortos cuja cinza não se deve perturbar. Quem diz isso? Os adversários de dois campos opostos que se dão as mãos: os incrédulos que não creem nas almas, e aqueles que, crendo, pretendem que elas não podem vir e que unicamente o demônio se apresenta.
Quando a evocação é feita religiosamente e com recolhimento; quando os Espíritos são chamados, não por curiosidade, mas por um sentimento de afeição e de simpatia, e com o desejo sincero de se instruir e de se tornar melhor, não vemos o que haveria de mais desrespeitoso em chamar as pessoas após sua morte do que enquanto vivas. Mas há outra resposta peremptória a esta objeção, é que os Espíritos vêm livremente e não por coerção; que eles vêm mesmo espontaneamente sem ser chamados; que eles testemunham sua satisfação de se comunicar com os homens, e se queixam com frequência do esquecimento em que por vezes são deixados. Se fossem perturbados em sua quietude ou ficassem descontentes com nosso chamado eles o diriam, ou não viriam. Visto que são livres, quando vêm, é que isso lhes convém." (Allan Kardec)10
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1 O Livro dos Médiuns, cap. XXVII - Das contradições e das mistificações - Das contradições, item 301, 7ª
2 Veja-se: A Gênese - Os milagres segundo o Espiritismo, cap. XIV - Os fluidos - I - Natureza e propriedades dos fluidos - Ação dos Espíritos sobre os fluidos - Criações fluídicas - Fotografia do pensamento, item 14.
3 O Livro dos Espíritos - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos, cap. VI - Da vida espírita - Ensaio teórico da sensação nos Espíritos, item 257
4 Veja-se: Revista Espírita, dezembro de 1859 - Um Espírito que não se acredita morto; Revista Espírita, novembro de 1864 - Palestras familiares de além-túmulo - Pierre Legay, o Grande Pierrot.
5 A neta relatou que existem alguns conflitos familiares entre filhos, noras e genros, e que a Sra. Yolanda presenciara algumas brigas entre eles, fato que era desconhecido do médium.
6 A neta disse ter participado da preparação do corpo da avó no necrotério do hospital, levou as peças de roupas escolhidas anteriormente pela avó. Disse que não foi possível calçar as sandálias, pois um dos pés estava muito inchado.
7 O pai da Sra. P. havia lhe contado que algumas semanas antes teve um sonho no qual via sua mãe, Sra. Yolanda, saindo do hospital em um táxi. Esse fato também era desconhecido do médium.
8 O Livro dos Espíritos - Das esperanças e consolações, cap. I - Das penas e gozos terrestres - Felicidade e infelicidade relativas, item 922
9 Trata-se de São Bento, guia do grupo familiar, que se apresentou como padre para ajudá-la a sair da perturbação, uma vez que a Sra. Yolanda era católica. Talvez se ele tivesse revelado de pronto sua identidade, ela não o teria ouvido por acreditar que os santos são inacessíveis aos homens.
10 O Céu e o Inferno - Doutrina, cap. XI - Da proibição de evocar os mortos, item 10

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