PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Eficácia da prece por um criminoso
01 / MAIO / 2021

Eficácia da prece por um criminoso

 

   Uma família espírita de nosso conhecimento tem buscado com frequência evocar seus familiares mortos, devido à afeição que seus integrantes sentem por eles. Essa busca, no entanto, não parte apenas dos parentes vivos: os próprios Espíritos familiares, mesmo os antepassados mais distantes, têm se manifestado espontaneamente aos seus parentes encarnados, dar-lhes notícias de como se encontram e ajudá-los com seus conselhos. 

   Numa dessas reuniões, os familiares pediram aos Espíritos orientações para aprenderem a ser indulgentes, pois notavam que ainda eram muito rigorosos com os erros alheios, e que a maledicência era um hábito na família. Com efeito, a moral cristã que o Espiritismo lhes ensina mostrou-lhes quão grave é apontarem-se os erros do próximo e julgá-lo, enquanto se descuidam dos próprios defeitos. Obtiveram, nesse dia, uma comunicação do Espírito da avó da matriarca da família, falecida cerca de meio século antes, e que se manifestava pela primeira vez aos seus familiares encarnados.

 

(25 de fevereiro de 2018.)

 

   "Meus filhos, não achem que a família de vocês está reduzida aos parentes vivos ou àqueles que conheceram em vida. Ela é bem mais ampla e conta com Espíritos que são muito próximos a vocês, de outras vidas, e que nem o imaginam quando estão acordados. Eu sou um deles que acompanham vocês, com muito carinho, e fico feliz de ver que a mediunidade nos coloca em relação mais direta, porque assim podemos conversar melhor. 

   Eu gostaria de dizer algumas coisas sobre o que vocês conversaram hoje, a respeito da indulgência, contar algumas histórias e coisas que eu vi e que acho que vão ajudar a vocês, mas hoje já não tenho muito tempo. Se quiserem, eu falo na próxima semana; tem outros parentes nossos que querem falar sobre isso também. Eu agradeço por me ouvirem, pois isso me deixa muito feliz. Até breve." 

MARIA JÚLIA, bisavó do médium.

 

   Seus familiares, então, evocaram-na em uma das sessões seguintes de seu grupo espírita familiar, e o Espírito da Sra. Maria Júlia lhes contou a história que havia prometido.

 

(25 de março.)

 

   "Eu quero contar a vocês uma experiência que tive na casa onde todos nós morávamos. Um homem, de nome Célio, procurou-nos, pedindo que o ajudássemos, pois não tinha o que comer nem onde ficar, porque havia vindo de longe procurando emprego, mas a promessa que lhe haviam feito se frustrara ao perceber que a fábrica, onde supostamente trabalharia, fechara suas portas, por motivos financeiros. Disse que sua família aguardava o dinheiro que lhes remetia mensalmente, mas que agora não sabia o que faria, pois além de não conseguir sustentá-los, por estar longe, tampouco conseguiria manter-se a si mesmo.

   Esse relato tocou a mim e a meu esposo e lhe demos do que comer; conversamos com um vizinho que alugava quartos e conseguimos uma pequena habitação para ele, sob a promessa que lhe pagaria as despesas, logo que conseguisse trabalho. Conversamos, por fim, com o dono da padaria e ele se prontificou a dar-lhe um emprego.

   Tudo ia bem, até que, por volta do segundo ou terceiro dia nessa situação, ele fugiu, levando o ganho diário do estabelecimento, deixando tudo para trás, exceto a confiança que eu e meu marido gozávamos diante dos vizinhos e conhecidos, a qual ficou abalada após termos nos empenhado em prol de uma pessoa de "má vida", como costumavam dizer.

   Meu marido se irou com isso, pois, ainda que de bom coração, prezava mais pela sua reputação. Eu fiquei com pena do rapaz, por ter se dedicado a um papel tão vil, e falei para ele, em meu pensamento: "vá com Deus". Disse isso com sinceridade, e é sobre isso que quero falar com vocês, após esse relato que serviu de introdução.

   Os bons Espíritos me mostraram, após o fim daquela vida, que essas minhas palavras carregaram com elas o sentimento de perdão e de indulgência com que foram proferidas. Eu não conhecia esse último termo, mas sabia o que é representado por ele e foi isso que desejei. Desejei que ele abdicasse dos seus erros e se endireitasse e não quis, em nenhum momento, que ele sofresse qualquer vingança. Eles me mostraram, também, que essas palavras subiram como uma prece a Deus e voltaram sobre ele, para ajudá-lo a arrepender-se dos males que costumava fazer, pois não fomos os únicos a cair em seus golpes. Mas fomos um dos últimos. Essa prece, que de um modo desconhecido lhe calava na consciência, fez com que ele ficasse excepcionalmente desgostoso com o mal que praticara. A partir daí, a cada vez que tentava aproveitar-se da credulidade alheia, mais aquilo o incomodava, mesmo que ele não compreendesse a causa dessa mudança. Hoje vejo que, aos poucos, ele foi modificando-se e, se atualmente não é um bom Espírito ainda, ao menos abandonou os crimes que cometia, terminando a vida trabalhando de forma honesta.

   O que quero dizer a vocês é que a prece nascida da indulgência é capaz de tocar o coração daquele a quem é dirigida, e se todos tivessem a certeza disso, orariam mais por aqueles cujo comportamento desperta a censura da maior parte dos homens. É por esse motivo que, instintivamente, alguns Espíritos mais atrasados pedem para renascer em meios mais adiantados, pois sentem que a indulgência que caracteriza os habitantes desses meios abençoados será uma potente força para que se transformem em definitivo. Para isso, todos podem começar a ajudar já desde essa vida, transformando esse mundo num solo propício ao desenvolvimento do bem, que repousa em gérmen no seio de cada indivíduo. Um dos melhores adubos para isso, repito, é a indulgência."

   Essa comunicação tocou a todos os presentes e os deixou bastante reflexivos, não só os vivos, mas também os Espíritos familiares. Um deles ditou espontaneamente a seguinte comunicação.

   "Não fui muito indulgente nessa vida e vejo que foi por conta do orgulho, que me fazia crer-me muito melhor do que aqueles que eu criticava. Graças aos nossos estudos das reuniões familiares, no entanto, eu tenho visto o erro desse comportamento. Hoje vejo que somos todos filhos de Deus e que ninguém deve menosprezar os outros, por nenhum motivo, inclusive pelos erros que cometam. É difícil ainda, para mim, olhar as pessoas dessa forma, mas eu vejo que não há outra maneira de lidar com os homens nesse mundo, já que nós também precisamos da indulgência alheia. Vou seguir o conselho da Sra. Maria Júlia e começar a orar por todos aqueles que anteriormente eu criticaria. Sei que isso vai ajudar-me a tornar-me uma pessoa melhor.

   Fiquem todos com Deus e obrigado por me ouvirem."

Sr. C., pai do médium

 

   Anualmente, no período do Carnaval, essa família espírita se reune com outras, que também realizam suas reuniões espíritas em família, conforme aconselha Allan Kardec:

   "Sem prejuízo das relações que estabelecer-se-ão, pela força das coisas, entre os grupos de uma mesma cidade que trilham caminhos idênticos, uma assembleia geral anual poderia reunir os espíritas dos diversos grupos numa festa familiar, que seria, ao mesmo tempo, a festa do Espiritismo. Seriam pronunciados discursos e lidas as comunicações mais notáveis, ou as mais apropriadas às circunstâncias."

   Nesse encontro anual, as famílias reunidas evocam os guias de todos os grupos, além dos Espíritos familiares, numa verdadeira "festa familiar do Espiritismo". Foi numa das sessões desse encontro que a família relatou às outras o caso aqui exposto. Todos concordaram, então, em evocar o Espírito de Célio, com a intenção de conhecer o seu estado atual, e de que ele lhes contasse a impressão que sentiu com a prece que a Sra. Maria Júlia por ele fizera.

 

(Encontro Anual, 04 de março de 2019.)

 

   "Primeiramente, quero dizer que, diante da felicidade desses mestres que aqui se encontram, é difícil, ao menos para mim, dizer-me feliz. Contudo, sei que gozo de relativa felicidade, por ter conseguido superar em parte, na última vida, um vício tão profundo em minha alma. Reconheço e confesso que não o superei por completo, e ele se manifesta ainda de outras maneiras mais sutis. Meu Deus, quantas pessoas tiveram por mim tanto ódio, mas que naquela época eu não dava a menor importância, embora minha consciência me alertasse! Até que um dia, por essa prece milagrosa, que não ouvi, mas que recebi, meu coração foi tocado, fazendo com que fosse impossível não sentir o peso de tudo aquilo que, até então, havia ignorado. O remorso batia com tal força no meu peito, que me ajudava a perceber o mau caminho que trilhava; não tinha como eu não ceder às forças da consciência, e quanto mais as escutava, menor era esse peso; foi isso que busquei fazer. Sei que será necessário coragem para enfrentar uma nova existência, depois de tudo o que fiz; ainda não estou preparado, mas um dia estarei. Peço que orem por mim. Deus, com sua infinita misericórdia, permitiu que este nosso diálogo ocorresse, e sou grato por isso. Adeus."

CÉLIO

 

   Alguns participantes do encontro, surpresos com os detalhes desse caso, pediram que os guias lhes ajudassem a entender melhor as causas da grande eficácia que pode ter a prece sobre os criminosos. Diziam eles que conheciam o dever de orar por aqueles que estão no caminho do mal, mas confessavam que, não compreendendo perfeitamente de que maneira suas preces serão eficazes, nem sempre oravam e, quando o faziam, não tinham tanto fervor no que pediam. O diretor espiritual do encontro ditou, então, a seguinte comunicação.

   "Pensais muito pouco na boa influência que podeis ter sobre os outros e muito nas más influências que sofreis dos maus Espíritos. Acaso acreditais que as leis de Deus sejam parciais ou que só funcionem para uns e não para os outros? Não vedes quantos Espíritos vos inspiram más ideias, fazendo com que vos equivoqueis? Já sabeis de que maneira eles vos influenciam, pois entendeis que o pensamento é comunicável. E vós, não sois também seres pensantes? Acaso os pensamentos que gerais ficam limitados ao crânio que abriga vosso cérebro? Não sede como os materialistas que acreditam nessa falácia, sobretudo quando tendes, nas comunicações espíritas e na comprovação da influência oculta dos Espíritos sobre vós, uma prova dessa capacidade de vos comunicardes com os outros seres pensantes como vós. 

   Assim, caros amigos, compreendei que não sois apenas receptores passivos dos pensamentos que vos chegam de outros Espíritos, mas que podeis também vós mesmos, por vossa parte, influenciar por meio da prece, que é a comunicação do pensamento, a outros seres como vós, estejam eles vivos ou mortos. Vossas ideias lhes chegam, ficai bem certos disso. Vosso pensamento é captado por outros, mesmo que à vossa revelia; o que dizer então quando tendes a vontade ativa de vos comunicardes com alguém? É assim que influenciamos as vossas almas: dirigimos a vós nossos pensamentos e inspirações e podeis fazer o mesmo com os outros seres, mesmo que ainda não tenhais tantos recursos para auxiliar. Podeis ligar-vos a eles pelo pensamento e dizer-lhes: "quero que sejas feliz; foste criado para a felicidade e o caminho que percorres afastar-te-á dela; deixe-o, para que pares de sofrer e busquemos juntos a Deus." Meus bons amigos, acaso credes que esses pensamentos, carregados de benevolência e perdão, ficariam perdidos? Mesmo que não sejam imediatamente aproveitados pelo ser a quem vos dirigis, eles um dia lhe serão compreendidos, e vossa boa intenção gerará frutos. É isso que faz o mestre de todos nós quando diz que cultiva sua preciosa semente em vossos pensamentos. Vós, que já desejais o bem de vosso próximo, deveis agir de modo semelhante e vos tornardes seres ativos nessa imensa teia de pensamentos que liga todos os seres uns aos outros. O exemplo que o Espírito da Sra. Maria Júlia vos contou é ainda pequeno diante de todos os bons frutos que podeis esperar, se utilizardes das capacidades que Deus vos concedeu, isto é, amar e comunicar aos vossos semelhantes esse amor.

   Assim, meus filhos, nós vos propomos que busqueis na prece a força que vos falta e que ela seja também um instrumento para que pratiqueis a caridade, à qual não cessamos de  convidar-vos."

ALLAN KARDEC

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