Ensino sobre virtudes
Da tranquilidade
Pelo Sr. Nicolau de Bari
Dando continuidade às instruções que nos tem dado sobre virtudes, o Sr. Nicolau de Bari ditou a seguinte comunicação:
"Naqueles dias agitados do primeiro século, em Jerusalém, a calma só nos envolvia quando estávamos próximos ao Cristo, ouvindo suas palavras, acompanhando e observando seus passos.
Éramos crianças, caminhávamos junto às mulheres de seu grupo de seguidores. Eu as conheci um pouco mais ao longo daqueles oito dias em que convivemos diretamente com o Rabi. Entre elas, a que mais parecia se ater às nossas dúvidas e inquietações, foi aquela a quem o Mestre chamava carinhosamente de Torre. Sem dúvida, tratava-se de uma alma especial. Ela era terna e ao mesmo tempo firme, quando, em nossa agitação infantil, saíamos do sério, da linha de comportamento esperada nos momentos solenes das ações do Messias. Ela se expressava com carinho e, luminosa, mantinha sua face sempre acolhedora e tranquila, convidando-nos silenciosamente a segui-la em seu recolhimento. Em alguns momentos, ela se desligava do grupo e, um pouco distante, fechava seus olhos ou os dirigia ao horizonte, como a comunicar-se com uma outra realidade mais bela, mas que para a maioria de nós era invisível.
A Torre era Madalena. Ela se fazia mãe para muitos dos órfãos que seguiam o Rabi; a irmã mais madura para os jovens que se acercavam do Mestre; a boa companheira para os que, em meio à multidão, sentiam-se abjetos e pouco compreendidos.
Eu ainda era um menino. As grandes dúvidas ainda não haviam, como ocorre com os adultos, agitado a minha razão, nem inquietado o meu ser. Eu apenas me manifestava no mundo como uma criança curiosa e muito envolvida pelo amor, já profundo, que nutria pelo Cristo. Era um amor tão puro e tão seguro, que escapava ao meu raciocínio ainda um tanto ingênuo, mas que tomava-me o coração em plenitude.
Em relação a ela, a doce e terna Maria de Magdala1, a admiração e o sentimento de paz que me proporcionava o seu acolhimento - que ela estendia a todos - faziam com que minha curiosidade fosse controlada, no intuito de não a incomodar.
Entre nós também seguia um menino, um pouco mais velho que eu, que contou-nos, em uma oportunidade, que o Cristo o havia curado. Que sua doença não era do corpo; que suas aflições estavam relacionadas à sua alma. Disse-nos ele que mesmo os mais experimentados dos apóstolos, em "expulsar demônios", não tiveram êxito e que somente o Cristo pôde lidar com a obsessão que lhe atormentava.2
Ao narrar sua história, o tal menino, que ficou registrado na tradição apenas como um possesso, esclareceu-nos um pouco sobre a condição especial de nossa benfeitora Magdalena. Ela, como ele, havia sido vítima de Espíritos cruéis, perturbados e perturbadores, mas que Jesus a havia também curado. E não somente isso, que ele lhes ensinara, aos dois, a maneira de se prevenir ou de afastar os maus Espíritos e de bem lidar com a faculdade que lhes permitia perceber a realidade que, para a maioria de nós, era oculta: o mundo dos Espíritos e a ação destes sobre os encarnados.3
Eis que um dos elementos para que se possa ter sucesso nessa empreitada é desenvolver a tranquilidade. Isso, sem dúvida, mesmo sem eu saber exatamente o que essa palavra significava, a Torre a possuía. Josué - esse era o nome do menino - me explicou o que era de fato tranquilidade. Ele falou-me o que o Cristo, e depois a Magdalena, lhe haviam ensinado em diferentes ocasiões.
Ela, mulher culta, que falava e escrevia em grego, disse a Josué que tranquilidade era a palavra latina para a grega galene4, que significava calma. A calma das águas, do mar, do Oceano.
Tranquilidade tem no corpo de sua escrita, de sua pronúncia, a palavra quies5, de quieto. Ao ouvir isso, pensei em como era difícil para mim manter-me quieto, ou "sossegado" - que também era um de seus significados.
A tranquilidade, assim como a calma, a quietude, o sossego, todas essas palavras e sentidos eram usados pelos navegadores, pelos pescadores, pelos homens do mar, para nomear tudo o que dizia respeito ao seu dia a dia no contato com as águas: estar ausente de perturbação, era estar tranquilo.
Essas palavras que, por extensão, também têm sido usadas para denominar estados da alma, não expressam exatamente as virtudes chamadas pelos sábios de Cardeais ou Teologais, mas trata-se de uma maneira proveitosa de perceber a si mesmo, nomeando os próprios estados psicológicos.
Na relação com o mundo invisível e mesmo com o visível, é cultivando a tranquilidade que se pode perceber quando a perturbação se avizinha. É mantendo as "águas" da alma em calmaria que se pode notar quando os primeiros movimentos de desordem tentam envolvê-la.
É na tranquilidade que o recolhimento é possível; que o discernimento pode ser bem usado, sem os ruídos, sem as aflições, sem as inquietações que tornam opaco o que deveria ser cristalino.
A alma tranquila pode, ainda mais quando se é médium, perceber a natureza dos Espíritos que se aproximam. Os bons são sempre calmos, nunca ansiosos, nem apressados ou inquietos. Eles chegam suavemente, irradiando seus fluidos luminosos e pacíficos e de nenhuma maneira seriam capazes de trazer ao meio qualquer agitação ou sentimento de ansiedade.
Então, ao ver a nossa mãe do coração, nossa irmã, nossa companheira silenciar, recolher-se, retirar-se por alguns instantes em sua quietude, em sua tranquilidade, passei a entender que nossa doce amiga vinculava-se ou com ela mesma, ou com os invisíveis que, como ela, nutriam, na calma, as boas, belas e verdadeiras virtudes dos céus.
Olhar para essa fase do meu passado tão valiosa para o meu percurso, ainda em movimento, enche-me de felicidade, de alegria. Tenho muito a compartilhar sobre aqueles dias, que até hoje me tocam profundamente, pois foram definidores do que sou e de quem almejo ser."
Nicolau de Bari
(Psicografada dia 4 de junho de 2025.)
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1 Magdala era o nome de uma antiga cidade da Galileia situada sobre a margem oeste do lago de Tiberíades, em Israel. Magdala é um termo aramaico que designa uma construção em forma de torre (מגַדְְלא). É um nome espalhado pelos lugares em Israel. No Pentateuco (Velho Testamento), o termo relacionado migdol (torre) aparece 37 vezes como substantivo. (Wikipédia, l'encyclopédie libre).
2 Parece tratar-se desse caso: A Gênese - Os milagres segundo o Espiritismo, cap. XV - Os milagres do Evangelho - Possessos, item 31.
3 O Livro dos Espíritos - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos, cap. IX - Da intervenção dos espíritos no mundo corporal - Influência oculta dos Espíritos em nossos pensamentos e atos
4 Grego antigo: Γαλήνη Galênê significa 'tempo calmo' ou 'calma, tranquilidade'; na religião grega antiga era uma deusa menor que personificava mares calmos.
5 Do latim quieto, calmo, paz, repouso, descanso.

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