PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Dilema moral - Sobre a indulgência
01 / MARÇO / 2021

Dilemas morais

Sobre a indulgência

 

   Num grupo espírita que busca instruir-se com os Espíritos, estudava-se sobre a caridade. Os seus membros discutiam a respeito da indulgência, e então lhes surgiu uma dúvida. Com o objetivo de compreender melhor como se deve agir, no dia-a-dia, quando se faz necessária a caridade em situações difíceis para o Espírito ainda imperfeito, o grupo buscou esclarecer-se a respeito, tendo por base as seguintes passagens dos textos estudados:

   "Meus caros amigos, todos os dias ouço entre vós dizerem: "Sou pobre, não posso fazer a caridade", e todos os dias vejo que faltais com a indulgência aos vossos semelhantes. Nada lhes perdoais e vos arvorais em juízes muitas vezes severos, sem quererdes saber se ficaríeis satisfeitos que do mesmo modo procedessem convosco. Não é também caridade a indulgência?" 1

   "A censura lançada à conduta de outrem pode obedecer a dois móveis: reprimir o mal, ou desacreditar a pessoa cujos atos se criticam. Não tem escusa nunca este último propósito, porquanto, no caso, então, só há maledicência e maldade. O primeiro pode ser louvável e constitui mesmo, em certas ocasiões, um dever, porque um bem deverá daí resultar, e porque, a não ser assim, jamais, na sociedade, se reprimiria o mal. Não cumpre, aliás, ao homem auxiliar o progresso do seu semelhante? Importa, pois, não se tome em sentido absoluto este princípio: "Não julgueis se não quiserdes ser julgado", porquanto a letra mata e o espírito vivifica." 2

   Allan Kardec foi evocado para instruir o grupo.

   Caro mestre, há situações em que não desejamos faltar com a indulgência para com uma pessoa de quem conhecemos o mau caráter; no entanto, desejamos alertar um amigo que quer contratar seus serviços, uma vez que ela poderia prejudicar-lhe. Como proceder em tais casos, sem incorrer em falta de caridade?

   Resposta. - "Meus amigos, inúmeros são os desafios que a caridade tem de enfrentar para que possa brotar sem mescla em vossos corações, porque o egoísmo e o orgulho, que são ervas daninhas fortes, tentam sufocá-la. É justa a vossa questão, já que deveis em todas as vossas ações buscar agir da forma mais caridosa, buscando produzir não só a maior quantidade de bem, mas a melhor ação possível.

   Notai que, se como dizeis, for aquela pessoa notoriamente de mau caráter, sendo isto de conhecimento público, não vos deveis inquietar caso vosso amigo queira utilizar-se dos seus serviços, pois estaria ele a oferecer a oportunidade que aquela pessoa precisa para abandonar o caminho do erro; assim, não deveis vos espantar ou lamentar se ela vier a faltar com vosso amigo, pois ele sabia o que poderia acontecer e propôs-se a ajudar, a não atirar pedras e, conscientemente, contribuir para que a pessoa desonesta se emende e possa ser vista com outros olhos.

   Porém, pode ser que apenas vós tenhais sido vítima da fraqueza do caráter de tal pessoa, e vosso amigo, sem o saber, pode vir a contratá-la. Neste caso, é vosso dever de amizade alertá-lo sobre a situação que passastes, porque o mal não pode aproveitar-se das virtudes para tornar-se mais forte; se assim o fosse, as consequências das faltas deixariam de existir. Alertado o amigo, nada impede que ele venha a contratar tal pessoa, pelos mesmos motivos que antes citei; nesse caso, tereis a consciência tranquila por terdes feito a vossa parte, se com isso não quiserdes pedir-lhe a cabeça do vosso próximo numa bandeja, para que vos sintais vingados pelos prejuízos que ele vos causou, mas pela consideração que a amizade verdadeira exige. Ao contrário, deveis ser os primeiros a aplaudir, se, mesmo alertado, vosso amigo insistir em tratar com aquela pessoa, pois dará assim uma prova de confiança no fato de que uma pessoa desonesta pode emendar-se. Então resta-vos pedir a Deus que possa ser o vosso amigo aquele que irá mostrar a tal pessoa o valor da oportunidade, que é o amor possível aos que estão cheios de vícios.

Allan Kardec

(Psicografada em 27 de maio de 2014.)

 

__________________

1 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIII - Não saiba a vossa mão esquerda o que dê a vossa mão direita - Instruções dos Espíritos - A beneficência, itens 13 a 16.

2 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. X - Bem-aventurados os que são misericordiosos - Não julgueis, para não serdes julgados - Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado, itens 11 a 13.

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