PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Não ridicularizar as ações dos homens
01 / JUNHO / 2026
Não ridicularizar as ações dos homens

 

    Um grupo espírita comentava sobre como é fácil abalar-nos com as más ações de outrem neste mundo, especialmente das pessoas que estão mais próximas. Em seguida, o Espírito de Bento de Espinosa foi evocado para dar instruções ao grupo sobre esse assunto. Eis o que foi ditado a um dos médiuns:

    "Diante das ações de outrem que vos afetam mais diretamente, é imprescindível, com o uso da razão, elaborar ideias claras e distintas para não vos deixardes levar pelo exacerbar da imaginação e pelo calor das paixões. É pelo uso da razão, embora esta não seja infalível, que se logra conter o livre curso da imaginação, que por vezes tende a levar o indivíduo a viver cotidianamente sofrendo males, como a tristeza, a desesperança, a mágoa, causadas pela confusão na percepção e na compreensão de situações que muitas vezes são a expressão de meras opiniões.

    Algumas vezes, imagens ou emoções de experiências vividas outrora com determinadas pessoas, despertadas na memória, fazem o raciocínio confundir-se quando tais pessoas repetem ações ou falas que agitam a alma trazendo à tona lembranças de um passado infeliz guardadas inconscientemente.

    Julgar-se conhecedor da essência e das intenções de outrem, tendo por base as imagens e as emoções de mal-entendidos impressas na memória, embora de maneira inconsciente, leva o indivíduo a colocar-se no papel de juiz da consciência e da conduta alheia e, sem perceber claramente o que se passa em sua própria intimidade e na de seu próximo, condenar o outro, ofendendo-se e sofrendo todas as consequências perturbadoras desse julgamento injusto. Então, não é a razão livre da opinião, da imaginação e das paixões, que se expressa em tais situações, mas ainda o orgulho, a vaidade, o desejo de dominação, comuns às almas que têm o hábito de dar vazão a tais imperfeições em situações de descontentamento e de contrariedade.

    É sábio buscar, no momento em que tais situações ocorrem, manter a calma, usando de todos os recursos internos disponíveis, para que a razão possa de fato ser exercida friamente e tome a dianteira; essa atitude, se repetida constantemente, fará com que as respostas sejam cada vez mais de acordo com a sã razão, mais controladas e assim transformadas pela caridade.

    Existe, no entanto, para cada indivíduo, determinados complicadores. Se aquele que é afetado pelas palavras e pelos atos de outrem for sensível aos fluidos movimentados pelos pensamentos de quem age - ou por inteligências livres, invisíveis, que buscam perturbar as relações entre os vivos, instigando ações e fustigando reações impensadas -, ele sentirá também o mal-estar das forças invisíveis que acompanham o ato, às vezes avivando emoções adormecidas. Isso torna o mal-estar mais intenso, turba a razão e dificulta ainda mais a manutenção da tranquilidade que o momento exige. Em tais situações, o bom senso recomenda que se recorra à prece sincera, numa rogativa fervorosa para obter forças a fim de agir sob a inspiração da caridade.1

    Outro fator que pode agravar determinados quadros geradores de desentendimentos e de tristeza, são as experiências difíceis de vidas passadas, que muitas vezes foram compartilhadas com almas com as quais hoje se tem laços familiares; mesmo que tais almas tenham feito, na erraticidade, votos mútuos de perdão e de recomeço, ainda alimentam na intimidade sentimentos mal trabalhados, que ora se mostram com tendências de afeto e de cordialidade, ora de perseguição, de incompreensão, de ofensas.

    São muitos os fatores que podem atrapalhar o bom uso da razão e a compreensão clara das situações vividas. Porém, tendo a fé racional, a esperança e a caridade como norteadoras das reflexões e das ações, usando-se os conhecimentos adquiridos e a prece como fontes de tranquilidade, e com o hábito do bom discernimento pautado na razão, os bons resultados virão."

    Bento de Espinosa, quando vivo, sabiamente escreveu:


"Não ridicularizar as ações dos homens, não chorar sobre elas, não as detestar, mas adquirir delas um conhecimento verdadeiro." (Tratado Político, I, 4.)

 

   Pergunta: Caro Espinosa, podes esclarecer-nos sobre como podemos tirar um conhecimento verdadeiro das más ações dos outros?

   Resposta: - "Em minha encarnação na Terra, no século XVII, desenvolvi uma percepção da vida e do cosmos que, em verdade, apenas organizei em linguagem temporal aquilo de que meu Espírito já havia tomado conhecimento há muito tempo. Eu trazia a ideia inata de que não há o mal essencial na natureza humana. A realidade fundamental, aquela que o conhecimento em seu nível mais elevado alcança, revela o bem, que é a essência divina.

    Diante de quem erra, de quem intencionalmente fere, persegue, age com crueldade, por mais que percebamos nesse alguém o desejo perturbado de fazer o mal, é preciso entender que ali está um ser imperfeito, ignorante e escravo dos afetos doentios, das paixões desenfreadas, mas nunca um ser essencialmente mau. A Inteligência que o criou, e que criou tudo o que há, é só bondade e justiça, e que esse ser ignorante um dia descobrirá, na própria essência, os elementos de origem divina que o ligam a seu Criador.

    O mal, porém, que é a ausência do bem, tem certo grau de realidade quando produz dores, desespero, tristeza e toda uma multidão de perturbações que afetam profundamente, antes de tudo seu autor e muitas vezes quem sofre tais efeitos.

    Conhecer, a partir da observação dos fatos e do estudo das leis de Deus, o que leva um indivíduo a fazer o mal é sempre útil para quem deseja desenvolver virtudes e vencer suas más inclinações.

    Compreender, na medida do possível, as intenções e o comportamento de quem age com o fim de causar mal a outrem é um estudo moral útil e também uma maneira de desenvolver a indulgência para com as imperfeições alheias, a paciência, a prudência, e também de defender-se mais eficazmente das investidas dos que assim pensam e agem, sejam os encarnados, sejam os Espíritos, lembrando sempre desta máxima: "A cada um segundo as suas obras."

    Despeço-me, pedindo que mantenham a boa vontade, as preces e os estudos, pois assim todos ganham em conhecimento e alegria."

 

Espinosa

(Psicografada dia 9 de abril de 2025.)

 

 "A dor é uma bênção que Deus envia a seus eleitos; não vos aflijais, pois, quando sofrerdes; antes, bendizei de Deus onipotente que, pela dor, neste mundo, vos marcou para a glória no céu.

 Sede pacientes. A paciência também é uma caridade e deveis praticar a lei de caridade ensinada pelo Cristo, enviado de Deus. A caridade que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil de todas. Outra há, porém, muito mais penosa e, conseguintemente, muito mais meritória: a de perdoarmos aos que Deus colocou em nosso caminho para serem instrumentos do nosso sofrer e para nos porem à prova a paciência.

 A vida é difícil, bem o sei. Compõe-se de mil nadas, que são picadas de alfinetes e acabam por ferir; porém, é preciso atentarmos nos deveres que nos são impostos, nas consolações e compensações que, por outro lado, recebemos, pois assim veremos que as bênçãos são muito mais numerosas do que as dores. O fardo parece menos pesado, quando se olha para o alto, do que quando se curva para a terra a fronte.

 Coragem, amigos, o Cristo é vosso modelo; ele sofreu mais do que qualquer um de vós e nada tinha de que se censurar, ao passo que vós tendes de expiar o vosso passado e de vos fortalecer para o futuro. Sede, pois, pacientes, sede cristãos. Essa palavra resume tudo." (Um Espírito amigo. Havre, 1862.)2


É nas fontes do orgulho que a intolerância haure sua vitalidade


"A tolerância não é senão a paciência para suportar o que contraria nossas inclinações, nossos gostos, nossas opiniões, nossos hábitos; a indulgência é a disposição para perdoar as faltas alheias. Ora, o amor-próprio nos leva a ver uma falta de outrem naquilo que é apenas uma simples contrariedade para nós. Assim como condenamos as opiniões que diferem das nossas, como erros, também condenamos como defeitos ou faltas as ações que nos chocam, ou mesmo as simples negligências que nos incomodam. Aquele que é intolerante acredita ser melhor que seus semelhantes ou, pelo menos, quer parecer tal; faz-se severo para ter o direito de ser duro; quer glorificar-se em suas exigências e ainda usurpar o respeito de outrem satisfazendo seus próprios pendores. Esse espírito de dominação, nascido de um orgulho cego, apropria-se da intolerância como a arma mais própria para servir a todas as suas ambições; é a tirania da personalidade. É nas fontes do orgulho que a intolerância haure aquilo que ela tem de arrogante, de feroz, de intratável. É porque ela é o orgulho em ação que é tão irritável, que se irrita até mesmo com o que há de mais inofensivo, se vê aí uma independência que lhe pareça uma revolta contra as pretensões que ela ostenta. Ela se erige em regra para se converter em autoridade, e quer a autoridade como um poder. Somente a equidade, e a equidade mais rigorosa, poderia prevenir semelhante usurpação, porque a tolerância é o reconhecimento dessa legítima independência igualmente concedida a todos os homens. A que título, então, essa superioridade da qual ousamos prevalecer-nos? A confiança presunçosa em nossa própria razão é antes um indício provável de erro, do que um título para merecer a confiança de outrem; tal presunção é a causa mais frequente do erro e o obstáculo mais comum à descoberta da verdade."3

 

__________

1 Veja-se: O Livro dos Espíritos - Das leis morais, cap. XI - Lei de justiça, de amor e de caridade - Caridade e amor do próximo, item 886.

2 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IX - Bem-aventurados os que são dóceis e pacíficos - Instruções dos Espíritos - A paciência

3 Do aperfeiçoamento moral, ou da educação de si mesmo, segundo volume, cap. IV - Da bondade. Pelo Sr. Degerando, Paris, 1824.

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