PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Eu esperava ir para o "Nosso Lar"
01 / JANEIRO / 2026
Eu esperava ir para o "Nosso Lar".

 

Sra. Cláudia

 

   Cláudia será o pseudônimo pelo qual chamaremos essa senhora, a fim de preservar a sua identidade. Professora aposentada, por algumas décadas presidira um centro espírita numa cidade catarinense. No ano de 2021 ela adoeceu e, depois de algum tempo de internamento num hospital local, morreu, com cerca de oitenta anos.

   Cerca de um mês após sua morte, seu Espírito fora visto, em sonho, por uma moça que havia frequentado o centro dirigido pela Sra. Cláudia. No sonho, que ao que parece era a lembrança do que a moça vira quando emancipada pelo sono, o Espírito da Sra. Cláudia, após a morte, saíra do hospital vestindo um penhoar cor de vinho, e voltara para sua casa.

   Passado um tempo, a moça e sua mãe, que também havia participado do mesmo centro espírita, passaram a receber com certa frequência a visita do Espírito Sra. Cláudia em seu lar. A presença desse Espírito era sempre acompanhada de um certo mal-estar, de angústia e até a ouviram dizer que julgava estar enlouquecendo. 

   Querendo saber se o tal penhoar visto no sonho existia de fato, a moça fora à casa da Sra. Cláudia e, conversando com a senhora encarregada da limpeza da casa, esta lhe mostrou um penhoar cor de vinho, e disse que sua patroa sempre o usava quando estava em casa. Disse também que achava que a Sra. Cláudia ainda continuava a "mandar nas coisas" da casa como fazia quando estava viva. 

   Como continuaram a perceber em seu lar o Espírito da Sra. Cláudia, mãe e filha evocaram Santo Agostinho, guia da família, para pedir-lhe orientações. Receberam a comunicação que se segue.

   "O Espírito que estais percebendo em vosso dia a dia, é mesmo o da senhora Cláudia. Ela se encontra em grande perturbação, sente-se aflita por julgar-se ainda viva no corpo físico; no entanto, às vezes ela pensa já estar fora dele e isso aumenta ainda mais a sua perturbação e a sua aflição.

   Como ela mesma já vos falou, acredita estar enlouquecendo. Foi em vida, como sabeis, frequentadora de um centro espírita, porém não viveu intimamente os ensinamentos e hoje sofre por não ter aproveitado integralmente o que ensina o Espiritismo a respeito da vida após a morte. Guarda na alma culpas que hoje colaboram para que se encontre nesse sofrimento. O diálogo com esse Espírito, chamando-o à razão, será proveitoso para que ele possa refletir e dar-se conta da sua nova realidade. Podeis, com esse caso, observar o que ocorre com um Espírito que jamais cogitara racionalmente sobre a vida no mundo dos Espíritos."

 

Santo Agostinho

(Psicografada dia 2 de setembro de 2021.)

 

   O Espírito da Sra. Cláudia fora evocado algumas vezes, com intuito de ajudá-la a sair da perturbação. Reproduziremos aqui apenas as passagens da conversa que julgamos ser úteis a todos aqueles que, mesmo sendo espíritas, não cogitam sobre a vida futura com base nas obras do Sr. Allan Kardec.

   Pode-se achar estranho o fato de uma pessoa que fora espírita, que tenha mesmo dirigido um centro espírita por décadas, após a morte do corpo ainda julgar-se viva. Todavia, esse não foi o primeiro nem o único espírita que se julgava vivo após a morte; por essa razão resolvemos publicar alguns desses casos, com o único objetivo de contribuir para que outros não venham a acontecer, pelo menos entre aqueles que querem aproveitar o Espiritismo para entender verdadeiramente a vida futura.

      Evocação. 

   - Ouço que alguém chama o meu nome e venho.

   1. Como a senhora nos procurou, pedimos que nos diga em que lhe podemos ser úteis.

   - Peço que façam preces por mim e por eles (refere-se ao filho e ao neto, já adulto, que moram com ela), para que as coisas possam se ajeitar. A situação na minha casa está muito difícil...

   2. A que situação você se refere? 

   - Faz tempo que as coisas não andam bem com eles, mas agora parece ter piorado muito. Antes eu falava e eles me respondiam. Eles nunca foram de me obedecer, nem de me dar satisfação, mas agora não me respondem mais. Eu falo e eles fazem de conta que não me escutam. 

   3. Veja que nós só lhe ouvimos por que a senhora está se utilizando de um médium. A senhora deve ter lido sobre isso nas obras espíritas, então isso não lhe é estranho.

   - Sim, eu sei que os Espíritos falam usando um médium como intermediário, mas eu não sou um Espírito que precisa de um médium.

   4. Pois nós afirmamos que a senhora agora é Espírito e que só vai sair dessa perturbação quando se der conta disso.

   - Essa sua conversa está muito estranha.

   5. A senhora é espírita, sabe que continuamos vivendo depois da morte, mas sem o corpo físico, que é visível a todos os encarnados; sabe também que nem todos os que estão no corpo veem e escutam os ditos mortos.

   - Mas eu não posso ter morrido, porque estou fazendo tudo o que eu fazia antes. 

   6. E, no entanto, não é ouvida quando fala com seus familiares, não é mesmo? 

   - Sim, mas como eu já disse, eles nunca deram ouvidos para o que eu falava. Principalmente o meu neto. Meu filho até que me ouvia algumas vezes.

   7. Quanto a isso, nada podemos fazer. Podemos conversar com a senhora, pedir a Deus que lhe ajude a dar-se conta de sua nova realidade. É o que nós podemos e devemos fazer, como espíritas que somos.

   - Eu penso que estou ficando louca. Eu sei que, quando morremos, não ficamos em nossa casa, mas vamos para o "Nosso Lar"1. É para lá que vamos, onde estão esperando por nós. É para lá que eu espero ir, mas eu estou dentro da minha casa. É certo que passei muito mal de saúde, fiquei internada por um tempo, mas depois recebi alta e voltei para a minha casa. Então, não consigo entender o que você está me falando. Estou na minha casa, fazendo as coisas que fazia, usando as minhas próprias roupas. Se eu tivesse morrido, não estaria aqui. 

   8. Se seu filho e seu neto não lhe ouvem, embora estejam sob o mesmo teto que a senhora, na sua casa, é porque algo diferente lhe aconteceu. 

   - Eu precisava ver que estou me utilizando de um médium, pois só vejo que eu falo e que você me responde, então é porque ouve exatamente o que eu digo. 

   9. É verdade, mas nós não a vemos, só podemos lhe ouvir pela boca do médium.

   (O Espírito se emociona) - Meu Deus! Meu pai amado! Então é por isso que ninguém me escuta? Mas como é que se explica eu ter saído do hospital e voltado para casa?

   10. O Espírito livre do corpo se transporta rapidamente e vai onde quer ir, como ensina o Espiritismo.

   - Então é por isso que está esse caos aqui em casa... Peço que me ajudem, porque agora eu fiquei sem chão. Eu sabia que a gente morre e que eu ia morrer um dia, mas não pensei que fosse logo e que isso já tivesse acontecido.

   11. Agora a senhora pode ver e ouvir claramente os bons Espíritos, basta desejar sinceramente. Poderá se instruir com Allan Kardec, nosso caro mestre. 

   - Eu não sou merecedora.... Meu Deus, o que que eu vou fazer agora?

   12. A senhora precisa ter fé e buscar forças em Deus, nosso Pai justo e bom, ele pode lhe ajudar. 

   - Peço que, por caridade, orem por mim também. 

   13. Sim, continuaremos a orar pela senhora. 

   - Obrigada. Que Deus me ajude. Espero que eu possa me fortalecer para ajudar aos meus familiares. Mas e agora, eu posso continuar na minha casa? Senão, o que eu faço? 

   14. Sim, pode continuar na sua casa.

   - Será mesmo? Mas eu não estarei incomodando eles? 

   15. De maneira alguma. Pode até ajudá-los orando por eles e conversando com eles, quando se emancipam pelo sono. Nós a chamaremos novamente, se a senhora quiser vir dialogar conosco.

   - Vocês não podem ficar me chamando, pois se me chamarem ficarão contra as normas.2

 

Nota: com base em alguns livros ditados por Espíritos imperfeitos, que proíbem a evocação dos mortos, há uma regra em muitos centros espíritas brasileiros proibindo as evocações. É a isso que a Sra. Cláudia se refere.

 

   16. Deus não seria bom se nos impedisse de chamar os nossos afetos mortos. Deus é misericordioso, foi ele que nos enviou o Espiritismo para nos ensinar como podemos falar com os nossos mortos queridos.

   - Vocês já chamaram outros mortos? 

   17. Muitos, graças a Deus. 

   - É não aconteceu nada com vocês?

 

   18. Só acontece de ficarmos mais felizes por conversarmos com os nossos afetos e por podermos nos instruir com bons Espíritos.

   - Eu não quero prejudicar ninguém. 

   19. Não se preocupe com isso. Pode ficar bem tranquila. Nós temos certeza de que a comunicação entre mortos e vivos é uma lei de Deus, ensinada pela ciência espírita. Se os Espíritos podem vir espontaneamente, como ocorre nos centros espíritas de hoje, por que nós não poderíamos chamar também?

   - Então, se eu não vou prejudicar vocês, podem me chamar que eu venho. Agradeço muito a todos vocês.

   20. Que Deus a abençoe. 

   - Amém.

 

(Por psicofonia, dia 2 de setembro de 2021).

 

   Observação: nas conversas que já tivemos com alguns Espíritos de pessoas que professaram o Espiritismo quando vivas, nota-se o quanto são difíceis de desarraigar os preconceitos adquiridos pela leitura de obras ditadas por Espíritos imperfeitos, alguns mesmo mal-intencionados.

   Quando se acredita cegamente nos quadros pintados nessas obras a respeito do mundo espírita; quando se ignora o que ensinam as obras de Allan Kardec; quando os Espíritos superiores não são ouvidos, deixa-se de atender ao supremo apelo que Deus nos envia pelo Espiritismo, para dar ouvidos a Espíritos imperfeitos, por vezes maus e dominadores, que querem manter os homens na ignorância.

   Foram os preconceitos que fizeram com que a Sra. Cláudia, alguns anos antes de sua morte, convidasse a se retirarem do centro espírita que ela dirigia essas mesmas pessoas que a evocaram para ajudá-la a sair da perturbação pós-morte. Ela não as queria mais no centro justamente por terem iniciado um grupo espírita no lar, seguindo as orientações dadas por Allan Kardec em suas obras.

 

1012. Existe um lugar circunscrito no Universo que seja destinado às penas e aos gozos dos Espíritos, segundo seus méritos?

- "Nós já respondemos a esta questão. As penas e os gozos são inerentes ao grau de perfeição dos Espíritos; cada um haure em si mesmo o princípio de sua própria felicidade ou desgraça; e como eles estão por toda parte, nenhum lugar circunscrito nem fechado é destinado a um mais do que a outro. Quanto aos Espíritos encarnados, eles são mais ou menos felizes ou infelizes, conforme o mundo que eles habitam seja mais ou menos avançado."

- Se assim é, o inferno e o paraíso não existem tais como o homem os representa?

- "Não são senão figuras: há por toda parte Espíritos felizes e infelizes. No entanto, como também o dissemos, os Espíritos da mesma ordem se reúnem por simpatia; mas eles podem se reunir onde queiram quando são perfeitos."

A localização absoluta dos lugares de penas e de recompensas não existe senão na imaginação do homem; ela provém da sua tendência a materializar e a circunscrever as coisas das quais ele não pode compreender a essência infinita."3

 

__________

1 Esse é o nome de uma suposta colônia espiritual descrita pelos Espíritos por intermédio de médiuns, no Brasil, mas que não encontra fundamento no Espiritismo. Vide: O Livro dos Espíritos - Das esperanças e consolações, cap. II - Das penas e gozos futuros - Paraíso, inferno e purgatório.

2 Veja-se: O Céu e o Inferno - Doutrina, cap. XI - Da proibição de evocar os mortos.

3 O Livro dos Espíritos - Das esperanças e consolações, cap. II - Das penas e gozos futuros - Paraíso, inferno e purgatório, item 1012

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