PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
"Nunca pude crer em um Deus transcendente." B. de Espinosa
01 / FEVEREIRO / 2026
"Nunca pude crer em um Deus transcendente."

 

Bento de Espinosa

 

    1. Caro Espinosa, muitos filósofos que comentam as vossas obras entendem que o senhor não acreditava na sobrevivência da alma individual, após a morte, e defendia o panteísmo. Essas eram de fato vossas crenças, ou o vosso pensamento não foi bem compreendido?

   - "Não foi devidamente compreendido o meu pensamento, mesmo porque são conclusões tiradas de uma leitura apressada e superficial, em especial de minha última obra produzida em vida, a qual entendi por bem não publicar.1

   Agora peço licença para discorrer um pouco sobre esses tópicos, visto que vos servirá de esclarecimento e assim poderá ser melhor assimilado.

   Nunca pude crer em um Deus transcendente. Sempre que uma divindade é pensada apartada de sua criação tende a ser tomada como um ente distante, personificado e, quase sempre, com todos os aspectos de um soberano cuja justiça se confunde com uma fúria vingativa.

   Javé, por mais que minha tradição o venerasse, sempre me causou mais temor do que amor, mais dúvida do que fé.

   Em minhas leituras, em meus pedidos mais fervorosos ao Universo, buscava compreender de que Deus o meu coração estava pleno. Eu observava a natureza, desde as pedras, as conchas, as árvores, os animais. A natureza me encantava e sua perfeição afirmava a existência de um Ser superior, incriado, o que me trazia uma vontade de viver, uma potência, uma felicidade; porém, eu sabia que esse Ser não guardava relação alguma com o Deus das antigas Escrituras. Sei que minhas preces e meus esforços foram atendidos, pois pude chegar, por reflexão e por intuição, ao Deus que se ajustou ao que habitava no mais profundo do meu ser. Aproveitando todo o saber adquirido e chegando a conclusões possíveis, estando no corpo físico, elaborei um sistema no qual, formalmente, não pude lograr a perfeição, mas ao menos traçar ideias que pudessem esboçar o que minha alma vislumbrava.

   Pelo meu entendimento, julgava que havia uma substância não criada, ou melhor, criada por ela mesma; a essa substância eu chamei Deus. De todos os seus infinitos atributos, acreditava que somente dois me eram permitidos perceber: o pensamento (ou inteligência) e a extensão (ou algo como a "materialidade"). Esses seriam dois princípios nos quais Deus se manifestaria, ou, melhor dizendo, Deus poderia ser concebido pela alma que buscasse aprimorar-se e aprender a ver nisso o amor de Deus por suas criaturas e também a amá-lo intelectualmente.

   Do pensamento, ou do princípio inteligente, surgiria a inteligência individualizada: o espírito. Da extensão, ou princípio material, porções ainda densas, aptas à manipulação pelo pensamento, se formariam.

   Não consegui pôr em palavras como exatamente o espírito se individualizaria, nem como se acoplaria à extensão, isto é, como se dava a sua união com a matéria, ou a encarnação; no entanto, tinha certeza de que o que permitia essa ligação era que a mesma substância gerava uma identidade entre ambas. Chamei essa identidade também de Deus.

   Encarnado, o Espírito, ou a alma, seria sempre uma individualidade, servindo-se para existir das duas "matérias-primas" para reconhecer a si mesma e ser feliz na perfeição, no ápice de sua potência. Deus, então, imanente a tudo, dava condições à sua criação, às porções de sua substância (pensamento e extensão; espírito e matéria) para se individualizarem e serem algo de fato diferentes dele, mas unidos a ele em essência.

   Gravitar para Deus, buscar entendê-lo, reconhecê-lo, amá-lo, era o fim último, o mais valoroso objetivo de todo o ser, o Bem supremo.

   E, após a morte, o que se daria? Eu não o sabia. Não entendia. Escapava à minha razão. Todavia, nunca neguei, apenas suspendi o juízo, pois sabia que respostas mais satisfatórias viriam.

   O Espiritismo, do Espírito de Verdade, de Allan Kardec e de todos os que a eles se dedicaram, deram-me a resposta, ou melhor, deram ao mundo o que eu, em Espírito, já compreendia, mas nas agruras da vida não recordara e, por isso mesmo, não tinha condições de compreender."

 

Bento de Espinosa

(Psicografada dia 1º de novembro de 2025.)

 

O pensamento de Bento de Espinosa sobre Deus e sobre a natureza

 

   Eis parte da carta VIII2, de novembro de 1675, que Espinosa escreveu ao seu amigo Henri Oldenburg3, em resposta a algumas questões que este lhe havia proposto:

"Senhor,

Sábado recebi vossa carta, bem curta, datada de 15 de novembro. Limitastes-vos a indicar-me as passagens do Tratado teológico-político que detiveram os leitores.4 Além delas, eu esperava saber quais são as doutrinas que lhes pareceram, como me havíeis prevenido, arruinar a prática da piedade. Mas para explicar-vos todo o meu pensamento sobre os três pontos que anotastes, não vos esconderei, no que toca ao primeiro, que eu tenho na alma uma ideia de Deus e da natureza bem diferente da que os Cristãos-novos têm o costume de defender. Com efeito, eu creio que Deus é a causa imanente de todas as coisas, como se diz, e não a causa transitória. Declaro, com Paulo: "Nós estamos em Deus e em Deus nos movimentamos."5 Essa também era a crença de todos os antigos filósofos, ainda que de outra forma. Ouso mesmo dizer que esse foi o sentimento de todos os antigos hebreus, como se pode conjecturar de certas tradições, por mais que elas estejam de mil maneiras desfiguradas. Todavia, aqueles que pensam que o Tratado teológico-político quer estabelecer que Deus e a natureza são uma só e única coisa (eles entendem por natureza uma certa massa ou a matéria corporal), estão em completo erro.6 (...)"

 

Estamos nele, como ele está em nós

 

21. No estado de inferioridade em que ainda se encontram, só muito dificilmente podem os homens compreender que Deus seja infinito. Vendo-se limitados e circunscritos, eles o imaginam também circunscrito e limitado. Imaginando-o circunscrito, figuram-no quais eles são, à imagem e semelhança deles. Os quadros em que o vemos com traços humanos não contribuem pouco para entreter esse erro no espírito das massas, que nele adoram mais a forma que o pensamento. Para a maioria, é ele um soberano poderoso, sentado num trono inacessível e perdido na imensidade dos céus. Tendo restritas suas faculdades e percepções, não compreendem que Deus possa e se digne de intervir diretamente nas pequeninas coisas.

22. Impotente para compreender a essência mesma da Divindade, o homem não pode fazer dela mais do que uma ideia aproximativa, mediante comparações necessariamente muito imperfeitas, mas que, ao menos, servem para lhe mostrar a possibilidade daquilo que, à primeira vista, lhe parece impossível.

Suponhamos um fluido bastante sutil para penetrar todos os corpos. Sendo ininteligente, esse fluido atua mecanicamente, por meio tão-só das forças materiais. Se, porém, o supusermos dotado de inteligência, de faculdades perceptivas e sensitivas, ele já não atuará às cegas, mas com discernimento, com vontade e liberdade: verá, ouvirá e sentirá.

24. Seja ou não assim no que concerne ao pensamento de Deus, isto é, quer o pensamento de Deus atue diretamente, quer por intermédio de um fluido, para facilitarmos a compreensão à nossa inteligência, figuremo-lo sob a forma concreta de um fluido inteligente que enche o universo infinito e penetra todas as partes da criação: a Natureza inteira mergulhada no fluido divino. Ora, em virtude do princípio de que as partes de um todo são da mesma natureza e têm as mesmas propriedades que ele, cada átomo desse fluido, se assim nos podemos exprimir, possuindo o pensamento, isto é, os atributos essenciais da Divindade e estando o mesmo fluido em toda parte, tudo está submetido à sua ação inteligente, à sua previdência, à sua solicitude. Nenhum ser haverá, por mais ínfimo que o suponhamos, que não esteja saturado dele. Achamo-nos então, constantemente, em presença da Divindade; nenhuma das nossas ações lhe podemos subtrair ao olhar; o nosso pensamento está em contacto ininterrupto com o seu pensamento, havendo, pois, razão para dizer-se que Deus vê os mais profundos refolhos do nosso coração. Estamos nele, como ele está em nós, segundo a palavra do Cristo."7

 

   Veja-se a instrução que nos foi dada, intitulada: "Deus imanente e a Providência."

 

__________

1 Trata-se da obra Ética, publicada após a sua morte. (Nota da equipe da Revista).

2 Oeuvres de Spinoza (Obras de Espinosa), por Émile Saisset. Segunda Série. Ética. Reforma do Entendimento. Correspondência. Paris, 1842.

3 Editor, filósofo, diplomata, homem de ciência, de origem alemã (1619-1677). Ele foi o primeiro secretário da Royal Society de Londres. (Henry Oldenburg). (Nota da equipe da Revista).

4 Eis o trecho da carta do Sr. Oldenburg a que se refere Espinosa: "Não posso senão aprovar o vosso desígnio, do qual me falais, de esclarecer e abrandar as passagens de vosso Tratado teológico-político que detiveram os leitores. Os que sobretudo pareceram apresentar alguma ambiguidade se reportam, creio eu, a Deus e à natureza, duas coisas que, para o sentimento de um grande número, vós confundis uma com a outra." (...) (Carta VII, datada de 15 de novembro de 1675.) (Nota da equipe da Revista).

5 S. Paulo, Epístola aos romanos. (Nota original).

6 Veja-se: Éthique, part. 1, Escol. da Propos. XV; e sobre a distinção da nature naturante et de la nature naturée, ibid., Escol. da Propos. XXIX. (Nota original).

7 A Gênese - A Gênese segundo o Espiritismo, cap. II - Deus - A Providência

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