PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Ter olhos de ver e ouvidos de ouvir
01 / MAIO / 2026
Ter olhos de ver e ouvidos de ouvir

 

   Um médium espírita que, desde sua adolescência, tem lido as obras do Sr. Allan Kardec, hoje, já se aproximando de seus cinquenta anos, voltou a reler essas mesmas obras. Quando relia o Livro dos Médiuns, espantou-se com a constatação que fizera e a escreveu nestes termos:

"Até pouco tempo eu estava com a impressão de que não tinha lido bem o Livro dos Médiuns. Agora, relendo alguns capítulos, estou com a impressão de nunca ter  lido mesmo, que minhas leituras anteriores não passaram de um delírio, ou que um outro livro, que nada tinha a ver com essa obra de Espiritismo experimental, havia sido colocado diante dos meus olhos para eu ler, sobrepondo as letras, ou algo semelhante.”

   Constatações semelhantes foram feitas por muitos outros espíritas, ao retomarem a leitura das obras do mestre com o objetivo de entender verdadeiramente a teoria, a fim de usá-la no Espiritismo prático. Não se trata aqui do fenômeno natural que se verifica entre a primeira leitura de um livro e as leituras subsequentes do mesmo livro, em que o olhar do leitor muda, torna-se mais profundo a cada vez que ele relê a mesma obra. Trata-se de ter diante dos olhos um determinado livro e absolutamente não ver o que ele contém, ou até mesmo ver o contrário do que nele está escrito.

   Entendendo que ler e não entender é uma dificuldade que parece ser mais geral do que um caso isolado, o grupo pediu instruções ao Sr. Allan Kardec.

 

Primeiro estudo

 

   1. Caro mestre Allan Kardec, podeis dizer-nos o que se passava com o médium  acima citado, quando ele lia anteriormente vossas obras e não o entendia?

   2. Qual era a causa eficiente de tal dificuldade?

   3. O que fez com que agora, ao reler os mesmos livros, ele tivesse a impressão de que os lia pela primeira vez?

   4. Um dia, um adversário do Espiritismo nos disse que tapava os ouvidos de seus comandados para que não ouvissem certos ensinos de vossas obras, quando alguém lhes falasse sobre eles. Eles de fato logravam êxito nesse intento? 

   5. Podem os Espíritos dogmáticos agir com a mesma intenção quanto às leituras que julgam ter o poder de extraviar seus adeptos?

 

   “Caros amigos.

   As palavras do Cristo: ter olhos de ver e ouvidos de ouvir, apresentam uma figura de linguagem que encerra as condições de um estudo sério, logo, eficaz. É uma imagem que representa a necessidade da alma de preparar-se não só intelectualmente, mas também moralmente, a fim de receber a boa instrução. A visão e a audição são sentidos complementares que têm seu ponto de chegada no cérebro e dele é que a alma extrai as informações para a sua intelecção. Preparar o cérebro, ampliando suas competências cognitivas é uma etapa para bem ver e ouvir, para bem discernir letras e palavras, distinguir formas e cores, diferenciar luzes e sombras. Porém, para que a alma tenha uma percepção mais nítida dessas imagens que lhe chegam do mundo material, a fim de que possa fazer uma espécie de varredura que lhe permita ter uma boa noção das partes e do todo e lhes atribuir sentido, delas fazendo uso prático, é preciso que tenha o hábito da higiene do Espírito; higiene essa que tem na prece seu recurso mais eficaz, não somente por gerar a tranquilidade da alma, mas sobretudo porque, ao buscar o vínculo com Deus, possa obter forças para afastar os maus Espíritos que nublam a sua visão e produzem ruídos ou obstáculos à sua audição.

   Com efeito, eles não "tapam os ouvidos", tampouco "vendam os olhos” daqueles aos quais perseguem e desejam o mal ou querem sob seu domínio; eles agem por meio do perispírito do encarnado para chegarem ao cérebro, manipulando fluidos que interferem no processo de geração de imagens, ainda na fase de ativação da memória e da imaginação.

   Quando se lê, cada palavra ativa a memória, fazendo com que os arquivos sejam consultados em busca do sentido da palavra lida e de todas as coisas que o cérebro armazenou até então e que têm relação com ela: objetos, seres animados ou inanimados, lugares, ideias, conceitos, máximas, etc. Cada palavra que é lida posteriormente, é posta no mesmo processo de busca, fazendo com que se refine e se delimitem os lugares dentro dos arquivos a serem explorados, a fim de que se compreenda a palavra. Em um determinado momento, por hábito de economia cerebral, acha-se o possível sentido, então, automaticamente se parte para a palavra seguinte. O leitor então crê, por uma espécie de adivinhação, ter lido toda a palavra, quando na verdade não a leu atentamente. Quanto mais rapidamente a pessoa percorre o texto com os olhos, maior número de adivinhações se darão e, com isso, estará lendo o menor número de letras de cada palavra. Nesse ponto ocorre a ação dos Espíritos mal-intencionados, que sopram letras erradas já no início das palavras, levando o cérebro a buscar rapidamente na memória outras palavras. Quando isso ocorre, mesmo que dificulte um entendimento justo, tal fato não é percebido pelo leitor, que vai adiante na leitura, certo de que o conteúdo está sendo assimilado. 

   Em outros casos, a palavra é lida ou mesmo adivinhada corretamente, mas a ativação da memória corrompida pelo obsessor, leva o leitor a fazer relações cognitivas que o dirigem rapidamente para outros pensamentos e, nesse momento, os olhos podem até mesmo passar sobre as linhas, as páginas podem suceder uma às outras, mas a atenção não está na leitura com o devido recolhimento. 

   Tal fenômeno não é, por mais extraordinário que pareça, uma exceção; é utilizado todos os dias e pode ser identificado, na prática, por qualquer pessoa que se decidir por fazê-lo. Quanto aos mecanismos de escuta, por mais que guardem semelhança com os da visão, têm suas especificidades das quais trataremos oportunamente.

   Segui, pois, envidando esforços diários para que tenhais um melhor entendimento das leis de Deus ensinadas pelo Espiritismo.

 

Allan Kardec

(Psicografada dia 22 de novembro de 2025.)

 

Segundo estudo

 

   O Sr. Allan Kardec fora chamado novamente para dar continuidade ao estudo anterior, e ditou a instrução que se segue.

   "O ato de ouvir uma conferência, um conselho ou uma instrução sofre, em parte, influências externas de maneira análoga às que perturbam a leitura. A capacidade cerebral de prever ou adivinhar uma palavra, ou mesmo uma sentença, a partir das palavras iniciais, pode sofrer interferências e produzir mal-entendidos.

   Com o objetivo de esclarecer-vos um tanto mais, falarei sobre um dos mecanismos mais utilizados pelos Espíritos, comumente obsessores, que possuem acesso mais fácil àquele a quem perseguem. Trata-se de um mecanismo que, em grau menor, causa confusões pontuais, uma certa influência moral sem sinais perceptíveis, mas que, em caráter contínuo e superlativo, produz um sem-número de casos tomados por loucura em muitas épocas da humanidade. Refiro-me a uma ação magnética sobre o córtex auditivo1 do ouvinte, causando perturbação no processo da necessária distinção entre as vozes que lhe chegam do exterior e das que se produzem como efeito do mundo interior da alma.

   Essas vozes são, em linhas gerais, de dois tipos, as oriundas do pensamento do próprio Espírito do encarnado e as advindas, por meio do perispírito, de pensamentos de Espíritos estranhos. Em sua normalidade funcional, o córtex auditivo diminui, e mesmo silencia, as vozes internas para que uma voz externa seja codificada e seu conteúdo posto à disposição do Espírito que ouve. É possível, então, ouvir um discurso e distinguir a voz daquele que fala, sonora e particular, da voz interna, que pode parecer, grosso modo, fruto da imaginação.

   Quando se está em estado de atenção, quando se deseja ouvir e entender, é este mesmo córtex que irá reduzir ao máximo a captação de ruídos externos e também internos; é ele que irá agir, abafando tudo que possa interferir na escuta do que verdadeiramente se deseja escutar. Porém, quando há uma ação perturbadora, os fluidos em desordem confundem as vozes, silenciando ao máximo o que vem do palestrante, ou do interlocutor, dando lugar à voz do obsessor, que é então “ouvida" com o mesmo timbre, com o mesmo tom. Nesse caso, não há para quem ouve a consciência de que se trata de uma voz interna; ele tem certeza de que o que escuta vem de fora, vem do mundo corporal, e de que se trata da voz e das ideias de quem ele vê falando à sua frente. Essa sobreposição, por assim dizer, obviamente produz não só interpretações equivocadas,  confusas, como também faz com que aquele que é sua vítima tenha uma má impressão de um outro que ouve o mesmo discurso, mas que, ao comentá-lo, lhe apresenta outros exemplos, outras linhas de raciocínio, conclusões diferentes, detalhes que, a seu ver, não guardam relação alguma com o que foi dito. Portanto, não é outra a explicação dos muitos casos de diálogos desencontrados sobre o que recém foi ouvido, ou mesmo das conversas com familiares ou amigos sobre assuntos variados, que não raro desencadeiam inimizades.”

 

Allan Kardec.

(Psicografada dia 27 de novembro de 2025)

 

"Pululam em torno da Terra os maus Espíritos, em consequência da inferioridade moral de seus habitantes. A ação malfazeja desses Espíritos é parte integrante dos flagelos com que a Humanidade se vê a braços neste mundo. A obsessão, que é um dos efeitos de semelhante ação, como as enfermidades e todas as atribulações da vida, deve, pois, ser considerada uma prova ou uma expiação e aceita com esse caráter.

Chama-se obsessão à ação persistente que um Espírito mau exerce sobre um indivíduo. Apresenta caracteres muito diferentes, que vão desde a simples influência moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais. Ela oblitera todas as faculdades mediúnicas. Na mediunidade audiente e psicográfica, traduz-se pela obstinação de um Espírito em querer manifestar-se, com exclusão de qualquer outro.”2

 

Terceiro estudo

 

   Continuação das instruções dadas anteriormente sobre o mesmo assunto.

   1. Caro professor, tem como percebermos quando acontecem as ações fluídicas dos maus Espíritos a que vos referistes anteriormente?

   2. A prece é suficiente para deter o processo, ou existe algum outro meio que contribua para não cairmos nessas armadilhas?

   3. Mais alguma instrução que o senhor queria nos dar sobre esse assunto?

 

   "De maneira geral, existem três vias para se perceber a ação fluídica dos maus Espíritos que visam perturbar o discernimento.

   A primeira diz respeito às sensações do corpo; alguns sentirão uma leve sonolência, no início mesmo da leitura ou da escuta, que se tornará mais pesada durante o processo, se não for combatida; outros sentirão mal-estar, que pode envolver enjoo, dores de cabeça e até desconforto em outras partes do corpo; assim como a sonolência, as dores e o desconforto vão se avolumando ao longo do processo, caso não sejam repelidas com uma vontade firme e o auxílio da prece. 

   A segunda via de percepção está ligada aos sentimentos; sente-se uma irritação despropositada em relação ao texto que se está lendo, à pessoa que está falando, ou mesmo a elementos presentes ou ausentes no contexto de estudo; entre os presentes, destacamos pessoas que estejam no ambiente de instrução, objetos variados, leves ruídos, temperatura, etc.; entre os ausentes, conta-se uma multidão de lembranças de pessoas e de situações que causaram tristeza ou qualquer outro tipo de descontentamento.

   A terceira via é a cognitiva; esta quase sempre é de difícil identificação, pois diz respeito às condições de entendimento próprias a cada indivíduo, cujas fragilidades são acentuadas: atenção facilmente desviada, memória falha, interpretações equivocadas, ideias cristalizadas acerca de determinados temas; tudo é usado pelo Espírito que busca causar a má compreensão do que se lê e do que se ouve.

   Se, por exemplo, ao ler nas obras fundamentais do Espiritismo, uma dissertação de Pascal e a interpretação do leitor levar a conclusões que divirjam do que esse sábio Espírito afirmou em outros pontos das obras, deve-se ter por certo que o equívoco certamente está na compreensão, e não no texto.

   O que podeis ter como certo é que todas as três vias de ação que indicamos, produzem efeitos que podem ser percebidos por todo aquele que busca refinar seus sentidos, exercitar a vontade e a razão, e vincular-se aos Espíritos superiores, em especial ao seu anjo guardião.

   Para isso, a prece é o melhor dos recursos, pois ela potencializa a capacidade de percepção para que qualquer desvio seja identificado, já em seu início. Portanto, a prece somada aos demais recursos que conheceis, dão ao espírita sincero forças para impedir ou para afastar a ação dos maus Espíritos, não apenas em casos pontuais, mas sobretudo em situações que mais exigem da alma, ou seja, nos esforços que lhe garantam uma profunda transformação moral.

   Algo que poderá auxiliar aquele que faz a leitura na intimidade, caso perceba um torpor ou outro mal-estar qualquer sem causa aparente, é ler em voz alta; a ativação de outros sentidos, que não apenas o da visão, dificultará a ação dos maus Espíritos que, nestes casos, costumam ser especializados e detalhistas, agindo diretamente em determinadas áreas do cérebro. Pode-se lançar mão desse recurso sempre que se notar uma interpretação errônea durante a leitura, ou que os pensamentos tenham se desviado do que se está lendo. 

   Ademais, é útil manter contato com pessoas sérias, estudiosas do Espiritismo, apresentando dúvidas e descobertas, compartilhando instruções e, no caso dos médiuns, comunicações ditadas por seu intermédio, é uma maneira de prevenir-se contra os sofismas que os maus Espíritos tentam inocular nas almas; e sabeis quão grande é a influência do meio.

   Outro ponto importante é buscar equilibrar os próprios sentimentos; a boa vontade é essencial para os estudos, o entusiasmo exagerado, não. Uma certa frieza crítica contribui para que as emoções não sejam matéria-prima para aqueles que se aproveitam do desequilíbrio. Tanto a tristeza quanto a excitação perturbam o entendimento, a capacidade de julgar, o devido uso da razão e do bom senso.

   Nessas breves respostas, dadas às vossas questões, não estão registrados todos os meios de perceber e de agir contra a ação dos maus Espíritos, mas são apontamentos que podem contribuir para que cada um identifique em si as capacidades de fazê-lo e as aplique a si mesmo."

 

Allan Kardec

(Psicografada em 4 de dezembro de 2025.)

 

__________

1 O córtex auditivo é a parte do cérebro que analisa as informações auditivas, isto é, as informações extraídas dos sons pelo ouvido. Ele ocupa a parte superior do lobo temporal.

2 A Gênese - Os milagres segundo o Espiritismo, cap. XIV - Os fluidos - II - Explicação de alguns fenômenos considerados sobrenaturais - Obsessões e possessões, item 45

 

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