Com um desejo sincero de ouvir mais relatos de Pedro sobre Jesus, o grupo chamou o apóstolo novamente.
Em Roma, abracei meu filho Marcos pela última vez (V)
Por Pedro Apóstolo
"Havíamos percorrido as ruas movimentadas de Roma por aproximadamente três quartos de hora. Priscila, nossa anfitriã, acompanhada de dois de seus servidores, guiava a mim e ao Marcos pelo caminho mais seguro até a casa onde visitaríamos Paulo.
A agitação da cidade e o ritmo de seus habitantes — que pareciam não ter sido afetados pelas más decisões de Nero — eram incapazes de nos distrair do peso que nos oprimia a alma, devido às perseguições cada dia mais cruéis sofridas pelos irmãos em Cristo.
Chegáramos à porta da confortável, mas sóbria, moradia. Discretamente, fomos recebidos e encaminhados ao espaço central, no qual Paulo e Lucas pareciam não nos notar de imediato; sentados à frente de algumas dezenas de rolos de papiro, discutiam animadamente acerca das Escrituras e de como o Cristo havia cumprido as profecias.
Meu irmão de Tarso foi o primeiro a perceber a nossa chegada e logo nos envolveu com seu sorriso acolhedor e suas palavras repletas de amor ao Cristo, ao qual dedicara todo o seu apostolado. A alegria, que a todos contagiou, fez-nos esquecer que aquele lar era onde Paulo se encontrava preso1 e que dali só sairia para encontrar-se com seu carrasco.
Todos à mesa — mesmo os servos de Priscila, algo impensável para os costumes romanos — partilhávamos não apenas do pão material, mas daquele alimento espiritual que só os textos, as lembranças e as palavras refletidas são capazes de ofertar às almas que se nutrem da verdade.
Marcos não cabia em si de tanto entusiasmo. Discorria sobre a necessidade de uma biografia sintética do Cristo, que fosse inteligível aos judeus e também aos gentios; que demarcasse a prudência do Mestre, seu papel de Messias e seu amor incondicional a todos: aos deserdados da Terra e também àqueles que, cobertos pelas riquezas do mundo, jaziam perdidos na vil pobreza que os afastava dos verdadeiros valores da alma. A escrita, disse ele, deveria ser leve e fácil, e não poderia abrir mão dos recursos literários que os romanos haviam desenvolvido.
Ouvindo as ideias de Marcos, Lucas acendeu o debate propondo uma perspectiva histórica que atendesse mais a detalhes de conexões com as antigas Escrituras, e enfatizou que o papel de Maria, mãe de Jesus, a quem entrevistara, não deveria ser negligenciado.
Paulo e eu, que havíamos tido contato com o Mestre — eu, nas experiências dos três últimos anos em que ele esteve na carne; e Paulo, a partir da estrada de Damasco — e que tínhamos tanto amor e gratidão pelo homem e pelo Espírito, compreendíamos que ali estava uma nova geração. Ela poderia levar adiante, mesmo que a partir de nossos relatos pessoais, uma imagem do Cristo que refletisse o que ele é em essência: um Espírito de moral exemplar e universal, de amor incondicional, de fé inquebrantável e portador de um laço com o Criador que o torna um com Ele.
A satisfação daquele banquete e a capacidade de aproveitarmos o diálogo que envolvia a todos fizera-me recordar a última ceia, em Jerusalém. Ali, mesmo que o Cristo soubesse do desfecho injusto que estava por vir, e ainda que o peso da perseguição e da morte já se espalhasse pela atmosfera, Jesus nos ouvia, dava-nos seus últimos ensinamentos e compartilhava conosco verdades e exemplos que marcariam a todos nós para sempre.
Repartindo o pão e o vinho, num simbolismo que fazia com que esquecêssemos a fome ou a sede, o Messias compartilhava sua alegria e sua dor, deixando claro que, depois dali, todos teríamos condições de seguir-lhe os exemplos, apesar das quedas e dos erros que nos acompanhariam enquanto vacilássemos em nossa fé.
Vimos, Paulo e eu, como Marcos e Lucas respondiam às questões de Priscila, de Valério e de Rufus com tanta propriedade e tanta luz em suas palavras. Sabíamos que, mesmo depois da morte — testemunho que nos seria cobrado logo mais, ali mesmo na capital do mundo —, tudo o que o Cristo nos ensinara e tudo o que compartilhara conosco permaneceria vivo.
Despedimo-nos, e tomamos o caminho de volta ao lar de Priscila, enquanto Lucas tomava o rumo que Paulo lhe orientara a seguir, a fim de entregar aos seus devidos destinatários suas derradeiras epístolas.
Chegando ao nosso lar romano, abracei meu filho Marcos2 pela última vez. No dia seguinte, fui levado pelas autoridades da Terra para o meu reencontro com a autoridade do Céu: meu Mestre e Salvador que, modelo da mais verdadeira caridade, tudo compartilhara comigo e com os seus."
Pedro
(Psicografada dia 5 de fevereiro de 2026.)
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1 "Paulo viveu em Roma entre os anos 61 e 67. Nos primeiros anos estava sob uma condição chamada “custodia militaris”, uma espécie de vigilância da parte do Império. Podia pregar e receber os amigos em casa com apenas algumas poucas restrições. Mas, ainda aguardava o seu julgamento (At 24,23)." (Fonte: Vatican News "Os preciosos passos de São Paulo em Roma.")
2 Em sua 1ª epístola (5:13) Pedro se refere a Marcos como “meu filho”.

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