Um de nossos correspondentes enviou-nos o relato que reproduzimos abaixo.
O Espiritismo com os Espíritos
Pelo Sr. Ch. D.
"Sentindo o balanço suave das ondas na pequena canoa onde cabia apenas um homem, eu, já com mais de cinquenta anos, percebia que dentro de mim ainda habitavam milhares de lembranças, boas umas, indiferentes outras, tristes tantas.
E, como sempre acontece quando a alma silencia, voltei àquela noite que marcou toda a minha existência: a morte de meu pai.
Consumido por um câncer cerebral devastador, ele jazia frágil em meus braços. Eu o aquecia junto ao peito enquanto aguardávamos, juntos, o instante da despedida.
Então aconteceu.
Vi — e senti — quando sua alma deixou o corpo, já frio e inerte, que eu ainda embalava junto ao peito.
Não senti medo. Apenas uma compaixão imensa… e uma estranha paz.
Enquanto o abraçava pela última vez, agradecia em silêncio por tudo o que ele me ensinara sobre a vida verdadeira com Jesus, por meio do Espiritismo que praticávamos em nossa própria casa.
Minha mãe servia de médium. Meu pai dialogava com os Espíritos. E eu, menino curioso, observava tudo em silêncio, maravilhado.
Alguns Espíritos chegavam em profundo sofrimento. Mesmo sem corpo, carregavam dores que pareciam humanas. Meu pai os acalmava com a palavra, com a prece e com uma confiança em Deus que eu jamais esqueceria.
Depois, meu pai partira.
No funeral, centenas de pessoas se aproximaram de mim. Muitas eu nunca havia visto. Vinham apenas para agradecer por terem conhecido aquele homem simples que lhes fizera o bem em silêncio.
Aquilo me sustentou por algum tempo.
Mas, depois da partida dele, nossa família se espalhou como pétalas ao vento. Minha mãe, minhas irmãs e eu passamos a viver isolados dentro da própria saudade. E cada um, numa cidade distante.
Aos dezoito anos comecei a construir minha própria história. Casei-me, tive filhos e continuei frequentando centros espíritas.
No dia do meu casamento, uma mulher que eu mal conhecia aproximou-se, emocionada, e perguntou se eu reconheceria um homem com certas características. Enquanto ela descrevia sua aparência, compreendi imediatamente: era meu pai.
Ela disse apenas:
— Ele está aqui.
A emoção daquele dia acabou engolida pela correria da vida, e o tempo me fez esquecer aquela significativa visita do invisível.
Mais tarde, passei a frequentar uma Sociedade Espírita dirigida por um homem extraordinário. Inteligente, culto, disciplinado, apaixonado pelo estudo da alma humana. Trabalhei ao lado dele no início da minha carreira profissional, e sua influência sobre mim tornou-se profunda. Durante o dia, no escritório. Durante as noites, na sociedade Espírita da qual ele era um dos fundadores e presidente.
Ele despertava em nós o desejo de estudar a vida dos santos, dos homens nobres, daqueles que haviam dedicado a existência ao próximo.
Eu já colecionava livros de biografias desde a juventude. Admirava homens que haviam feito da vida um sacerdócio de amor. Sem perceber, adotei aquele homem como um pai. Sim, ele foi para mim como um segundo pai, mesmo que jamais tenha sabido disso.
Por influência dele, dediquei-me intensamente no movimento espírita. Tornei-me palestrante, expositor, divulgador da Doutrina. Viajei por cidades, estados e até outros países falando sobre imortalidade da alma, consolo e esperança.
Mas havia uma ausência silenciosa dentro de mim. Eu falava dos Espíritos sem conviver com eles.
Depois da infância, nunca mais participara de reuniões verdadeiramente espíritas, com evocações, como aquelas que eram feitas em minha casa quando menino. Aprendi que tais práticas eram tidas, erradamente pelo movimento espírita institucional, como perigosas, inadequadas ou restritas, talvez, a poucos iniciados.
E os anos passaram.
Curiosamente, estudávamos “O Livro dos Médiuns”, subintitulado por Kardec como “Guia dos Médiuns e dos Evocadores”, mas sem evocar ninguém.
Falávamos da sobrevivência da alma… sem conversar com as almas.
Assim vivi durante décadas: um espírita sem os Espíritos.
O tempo avançou.
Tornei-me professor universitário. Vieram o divórcio, os afastamentos profissionais, as divergências, o distanciamento gradual do centro espírita e do meu segundo pai.
Continuei realizando palestras, agora sustentado muito mais pela obrigação moral do que pela alegria.
Minha mãe foi viver em outro país desde a morte de meu pai, trabalhando no movimento Espírita, sempre com imensa e quase insuportável saudade do seu amado marido; sua dor a levou para longe. Minhas irmãs afastaram-se definitivamente do movimento espírita. Eu permaneci.
Mas algo em mim adoecia.
Ao chegar aos cinquenta anos, a depressão já me consumia profundamente. Eu olhava auditórios repletos e via pessoas cansadas, tristes, adoecidas da alma.
Eu, cheio de palavras, e vazio de respostas.
Homens e mulheres que estudavam a Doutrina consoladora havia décadas, mas já não conseguiam consolar a si mesmos. E eu entre eles.
Amigos aproximavam-se confidenciando angústias profundas enquanto me diziam:
— Suas palestras me acompanham há vinte anos.
Então comecei a me perguntar: se depois de vinte anos ninguém havia encontrado paz… o que estávamos realmente oferecendo uns aos outros?
“O Consolador Prometido” parecia já não consolar quase ninguém.
Passei a questionar se o problema estava em mim, ou na forma como transformáramos uma ciência espiritual viva em estruturas rígidas, excessivamente humanas, semelhantes aos antigos sistemas religiosos que a própria Doutrina pretendia superar.
Sentia falta da simplicidade, da reunião familiar. Sentia falta da proximidade. Sentia falta dos Espíritos.
Foi nesse período que meu segundo pai morreu.
Então percebi algo terrível: apesar de todo o discurso sobre imortalidade, eu me sentia órfão outra vez.
No fundo, nós os enterrávamos emocionalmente.
Chamávamos de “desencarnação”, mas continuávamos vivendo como se fosse o fim, a fria e derradeira ruptura, promovida pela morte.
Os que partiram tornavam-se lembranças distantes, revisitadas apenas em aniversários, funerais ou fotografias antigas.
Enquanto isso, as reuniões mediúnicas eram realizadas em círculos restritos, misteriosas, frequentemente limitadas a atender Espíritos sofredores, raramente abertas à sublime possibilidade de reencontro com os afetos desencarnados, ou a busca de instruções, pela evocação de nossos anjos guardiães ou de outros Espíritos superiores.
Eu já não conseguia ter alegria naquele caminho.
E ainda, o mais trágico: aprendi durante décadas que Jesus estava distante de nós. Diziam-nos que não possuíamos elevação moral suficiente para tê-lo próximo.
E eu acreditei. Que engano cruel.
O Cristo, que caminhava entre pescadores, leprosos, aflitos e pecadores, havia sido transformado numa presença inacessível. Eu que era um aflito, iludido, pecador, não poderia ter acesso a Ele!? Esse vazio não corresponde aos versos do poema do Evangelho em seus versículos e do médico das almas que caminhava em direção aos seus doentes, como eu.
Até a ideia de conversar com o próprio anjo guardião parecia impensável.
Meus poemas tornaram-se melancólicos. Eu chamava a família de ilha, porque era exatamente assim que me sentia: sozinho, cercado de saudade por todos os lados.
E chorei. Chorei durante anos.
Embora muitos considerassem inadequado que um espírita chorasse seus mortos, eu chorava porque acreditava tê-los perdido.
Talvez, pensava eu, somente depois da minha própria morte pudesse reencontrá-los… se tivesse sorte, mesmo crendo que o acaso não existe, é assim que tratamos a vida após a morte: sem liberdade.
Orava a Deus pedindo alguma resposta. Qualquer resposta. Sentia que minha existência se aproximava do fim, e eu já não sabia mais como continuar.
Foi então que, dias antes de abandonar tudo e partir sem rumo, um andarilho em direção à ilha, duas amigas reapareceram inesperadamente após décadas sem nos vermos.
Chegaram sorrindo.
E uma delas, a quem devo minha vida, disse:
— Ontem conversamos com o Espírito de seu pai adotivo, e você poderá conversar com ele também, se quiser.
Naquele instante ergui os olhos ao céu. Deus havia ouvido meu grito.
Uma delas, com seu esposo, me recebeu em sua casa, com um carinho que salvou minha alma do abismo. E, no dia seguinte, vi novamente o Espiritismo da minha infância.
Simples nos diálogos. Elucidativo nas instruções. Vivo nos sentimentos.
Nesse grupo espírita familiar encontrei Allan Kardec ensinando claramente sobre as evocações, sobre o diálogo com os Espíritos superiores, sobre a proximidade dos anjos guardiães e sobre a possibilidade sagrada de reencontrarmos aqueles que amamos.
Não como simples discurso teórico, mas como experiência prática.
Dias depois, por intermédio de um médium amigo daquele casal que me acolhera, evoquei meu anjo guardião e recebi dele conselhos e instruções que tocaram profundamente a minha alma.
Ele começou seu ditado com duas ternas palavras:
— “Meu filho...”
Alguns dias depois, aconteceu o que por décadas julgava impossível. Eu mesmo servi de intermédio ao meu pai. Sua voz atravessou a minha voz.
Ele também disse:
— “Meu filho…”
Então voltou-me à memória uma cena transcorrida há mais de quarenta anos: eu menino, numa espécie de canoa, remando ao lado dele, meu pai, em direção a uma ilha, no litoral catarinense.
Lembrei-me da cena do passado, e hoje, sorrindo ele me dizia:
— “Nós não somos uma ilha. Somos uma família.”
Naquele momento compreendi tudo. Eles jamais haviam partido. O amor não interrompera a convivência.
No dia seguinte, meu segundo pai também se comunicou.
Falando por intermédio da minha voz, emocionou-se ao descobrir o amor filial que eu guardara silenciosamente por ele durante tantos anos. Eu jamais tivera coragem de lhe dizer. E ele jamais imaginara.
Compreendi então que eu não havia perdido meu pai, nem aquele que eu tinha como um segundo pai. Na verdade, eu tinha três, contando com meu anjo guardião, que é o principal. E todos estavam vivos. A morte os tornara invisíveis aos olhos físicos, mas não inacessíveis pela mediunidade.
Então, percebi algo ainda maior: o Consolador veio para eliminar a distância entre Espíritos e encarnados e estabelecer a proximidade. Veio provar que o amor verdadeiro não desaparece. Que os laços de afeto não se rompem.
O Espiritismo veio nos aproximar do Cristo, esse irmão que tanto nos ama e é o grande médico das almas enfermas. O bom pastor que conhece cada uma de suas ovelhas. Não distante. Próximo. Sempre próximo, pois é o caminho que nos leva a Deus, nosso Criador. Pai de todos nós.
Então, finalmente compreendi: eu nunca fui uma ilha cercada de vazio por todos os lados. Sempre fui família, especialmente a família espiritual, que está sempre próxima.
Descobri o que verdadeiramente significa o Espiritismo com os Espíritos.”
Ch. D.
"Que horrenda é a ideia do Nada! Quão de lastimar são os que acreditam que no vácuo se perde, sem encontrar eco que lhe responda, a voz do amigo que chora o seu amigo! Jamais conheceram as puras e santas afeições os que pensam que tudo morre com o corpo; que o gênio, que com a sua vasta inteligência iluminou o mundo, é uma combinação de matéria, que, qual sopro, se extingue para sempre; que do mais querido ser, de um pai, de uma mãe, ou de um filho adorado resta apenas um pouco de pó que o tempo irremediavelmente dispersará.
Como pode um homem de coração conservar-se frio a essa ideia? Como não o gela de terror a ideia de um aniquilamento absoluto e não lhe faz, ao menos, desejar que não seja assim? Se até hoje não lhe foi suficiente a razão para afastar de seu espírito quaisquer dúvidas, aí está o Espiritismo a dissipar toda incerteza com relação ao futuro, por meio das provas materiais que dá da sobrevivência da alma e da existência dos seres de além-túmulo. Tanto assim é que por toda a parte essas provas são acolhidas com júbilo; a confiança renasce, pois o homem doravante sabe que a vida terrestre é apenas uma breve passagem que conduz a uma vida melhor; que seus trabalhos neste mundo não lhe ficam perdidos e que as mais santas afeições não se despedaçam sem mais esperanças. (Cap. IV, nº 18; cap. V, nº 21.)” Allan Kardec 1
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1 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVIII - Coletânea de preces espíritas - IV - Preces pelos que já não estão mais na Terra - Pelas pessoas a quem tivemos afeição, item 62.

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