ABORTAMENTO ESPONTÂNEO
UM ESPÍRITO QUE DESISTIU DE NASCER POR MEDO
Este estudo foi feito por um grupo particular que se formou em meados de 2014, na cidade do Rio de Janeiro, e que veio praticando a Ciência Espírita, buscando seguir as orientações de Allan Kardec. São Vicente de Paulo é seu presidente espiritual. Reproduzimos aqui o texto que recebemos do Diretor do grupo onde o estudo foi feito.
"A Sra. I. B., irmã de um membro do nosso grupo espírita, estava no oitavo mês e terceira semana de gravidez, quando teve um abortamento natural de sua filha, cujo nome escolhido pelos pais seria Flora. A medicina deu como causa do abortamento um quadro de trombofilia desenvolvido pela mãe, mas talvez essa não tenha sido a causa eficiente.
Não há dúvidas de que situações como essa são das mais difíceis de serem superadas pelos pais, especialmente quando se espera com tanto carinho a chegada de um filho amado. Após o triste evento, muitas dúvidas passaram a povoar os pensamentos da Sra. I. B. e do seu esposo, o Sr. M. P.
Os futuros pais, embora conhecessem o Espiritismo e encontrassem consolo na ideia da imortalidade da alma e na lei da reencarnação, não deixaram de ser assombrados por ideias que lhes tiravam o sono: teriam tomado todos os cuidados durante a gravidez, ou teriam alguma culpa pela morte da filha? Haveria uma alma vinculada àquele corpo? Por que, afinal, sua filha não teria visto a luz, faltando tão pouco tempo para isso?
Diante de tantas dúvidas, a Sra. I.B. buscou um de seus irmãos, médium escrevente, membro de nosso grupo, a fim de obter conselhos dos Anjos, que têm o olhar de Deus e velam por seus protegidos por ordem dele. Ela fez as seguintes perguntas ao seu Anjo:
1. Havia um Espírito vinculado ao feto que morreu tão próximo do nascimento?
2. Se havia, peço esclarecimentos sobre o que ocorreu.
3. Peço conselhos para mim e para o meu esposo, e, em especial, pedimos orientações sobre o que esta prova nos pode ensinar.
Foi obtida a seguinte comunicação:
"Minha filha,
Venho dizer-te que havia, sim, um Espírito vinculado ao feto; temendo as provas por que deveria passar, ele retrocedeu em seu desejo de voltar à Terra. Esse Espírito não compreende bem a justiça de Deus, e julga que as suas faltas passadas lhe seriam motivo de grandes sofrimentos; mas Deus não quer a sua queda, e sim a sua reabilitação. A melhor maneira que tendes para auxiliá-lo é transmitindo-lhe, pelas preces, ideias de coragem e de confiança nas suas próprias forças, a fim de que perceba que sua consciência culpada será aliviada pela prática do bem, pois Deus não quer o sofrimento de suas criaturas, mas que elas construam a sua felicidade escolhendo sempre o bem.
Digo-vos, meus filhos, que a finalidade dessa prova foi a de que pudésseis fortalecer a vossa fé e desenvolver a vossa sabedoria; toda dor é um convite ao aperfeiçoamento, e a fé é uma virtude que torna mais suaves todas as dores e dá coragem para suportar todos os sofrimentos. As lutas na Terra possibilitam o exercício dos conhecimentos adquiridos e, para vós, esta é uma oportunidade para vos aproximar de Deus lançando um novo olhar para a vida, resignando-vos diante das provas, e vivenciando as Suas sábias leis.
Confiai em Deus e contai sempre comigo, que vos amo; lançai vosso olhar para o Alto, filhos, pois é de lá que vem a luz que a tudo ilumina. Esperança, fé e perseverança: eis meu conselho."
Anjo guardião.
(Psicografada em 17 de setembro de 2016.)
Observação: nesse primeiro momento, não foi questionado se o Espírito que desistiu de reencarnar poderia ser evocado, pois a intenção inicial era apenas saber se havia um Espírito vinculado ao corpo em formação, e qual seria a sua condição. Com o tempo, novas informações foram surgindo, e foi possível controlar melhor a primeira comunicação dada pelo Anjo guardião, como se verá mais adiante.
Passado algum tempo, enquanto o casal meditava sobre as respostas dadas pelo Anjo guardião, algo inesperado aconteceu: por médiuns desconhecidos uns dos outros, houve algumas comunicações espontâneas, confirmando as informações dadas pelo Anjo. O pai da Sra. I. B., que frequenta um centro Espírita, no Rio de Janeiro, estando um dia próximo de um médium vidente, este disse-lhe perceber um Espírito ao seu lado. Falou que o Espírito desejava pedir perdão pelo fato de não ter conseguido voltar à Terra, e que dizia chamar-se Milena. Fato não menos interessante, e completamente desconhecido desse médium, é que este era o nome de uma menina que morreu em há alguns anos, com apenas dois meses de vida, e que tinha sido filha dos avós da Sra. I. B., portanto, sua tia.
Por outros médiuns, conhecidos da família, também foi descrita uma história semelhante, com pequenas variações, mas sempre destacando a presença de um Espírito em sofrimento, que teria recuado em seu desejo de voltar à Terra, causando o abortamento sofrido pela Sra. I. B., tido pelos médicos como espontâneo.
Agora, com mais elementos para controlar as comunicações recebidas dos Espíritos, o casal, com auxílio do grupo, resolveu dedicar-se a um estudo mais aprofundado do caso, lançando mão dos recursos que a ciência espírita oferece.
É bem provável que os bons Guias de nosso grupo tenham providenciado as comunicações que foram dadas espontaneamente em outros meios, para que o grupo pudesse analisar melhor as respostas dos Espíritos até então obtidas.
A seguir, apresentamos sucintamente a sequência dos fatos, conforme eles se deram.
Primeira sessão
(Sessão particular - 08 de janeiro de 2017)
Após o estudo dos itens 344 e seguintes de O Livro dos Espíritos - União da alma e do corpo1, evocamos os nossos Guias e lhes propusemos as seguintes perguntas:
1. Seria oportuno evocar hoje o Espírito que iria renascer como Flora?
2. Pedimos informações sobre a sua situação atual, e perguntamos se podemos fazer para ajudá-lo.
Recebemos simultaneamente, por dois médiuns, as seguintes comunicações:
I
"Julgo que a evocação é oportuna; o Espírito que desejais chamar aqui está e deseja falar-vos, amigos; seu estado é de sofrimento e a hora é preciosa, porque podereis, pelos diálogos, ajudá-lo a fortalecer-se e a perceber que a vida no corpo, que ele ainda teme, só tem por fim facilitar-lhe o progresso e aproximá-lo de Deus. Envolvei esta alma com compaixão e ternura, e nós tocaremos a sua consciência, a fim de que abandone o caminho do erro e siga mais livre e feliz."
Vicente de Paulo
(Psicografada em 08 de janeiro de 2017)
II
"Meus filhos, podeis evocar o Espírito a que chamais Flora. Ele aqui se encontra e deseja comunicar-se. Para melhor auxiliá-lo, orai por ele com os corações cheios de compaixão, dirigindo-lhe pensamentos de coragem e resignação. Ademais, quando fordes estudar algum tema, chamai vossos Guias e convidai-o para se instruir convosco. Crescei juntos, e não temais aprofundar os diálogos com ele, pois isso será motivo de instrução para vós e para o Espírito.
Erasto (guia do médium)
(Psicografada em 08 de janeiro de 2017)
Feita a evocação, propusemos ao Espírito as seguintes perguntas, previamente elaboradas por aqueles que seriam seus pais:
1. Atendeu ao nosso chamado de boa vontade?
2. Você é o Espírito que esteve vinculado ao corpo de Flora?
3. Foi útil para você o período em que esteve vinculada ao corpo?
4. Se formássemos um novo corpo, você gostaria de reencarnar nele?
5. De que forma nós poderíamos ajudá-lo neste processo?
6. Gostaria de nos dizer algo mais?
Recebemos a seguinte comunicação:
"Meus pais queridos,
Sim, são meus pais! Ainda o são! Queria me comunicar, dizer que amo vocês, embora tenha partido. Foi só por medo, um medo que me tira a razão e me faz deixar de ver qualquer coisa além... Mas, estou aqui e peço desculpas.
O período que passei com vocês durante a gestação foi útil para repensar muitas coisas. Eu percebi que, até que não havia me dado conta seriamente da realidade que escolhera para mim, não tinha noção clara de quão verdadeira, quão profunda, foi a escolha. Eu notei que ainda não tinha de fato me arrependido de algumas coisas, e por isso não tive a força para prosseguir. Ainda preciso de tempo para meditar e encontrar os motivos para mudar. Sim, eu gostaria de voltar, mas dessa vez a escolha deverá ser bem consciente. Para isso, peço que orem sempre por mim, pois a prece me traz coragem e me dá forças para buscar os bons Espíritos, que tanto querem me auxiliar.
Agradeço por tudo que fizeram por mim; por cada escolha difícil que tiveram que fazer, cada momento de dor e, especialmente, por todo carinho que sempre me dispensaram, e que não mereci. Obrigada.
Flora
(Psicografada em 08 de janeiro de 2017)
Segunda sessão
(20 de janeiro de 2017)
Nesta sessão, estudamos os itens 258 e seguintes de O Livro dos Espíritos, sobre a escolha das provas. Em seguida, evocamos o Espírito de Flora e tivemos com ele o seguinte diálogo:
1. Com o que tens te ocupado desde nosso último diálogo?
- Tenho buscado refletir, sair um pouco das minhas ideias e me permitir ouvir os bons Guias. O orgulho nos faz desejar não ouvir algumas verdades, mas as preces têm me ajudado. Estou tentando tomar a boa via.
2. Tens orado, pedido a Deus que te ajude a entender o que deves fazer?
- Não.
3. Sugerimos que tentes, pois a prece te fará muito bem e tuas ideias ficarão mais claras.
- Prometo tentar.
4. Tens vindo aos estudos que temos feito?
- Sim, acho que estou entendendo melhor algumas coisas.
5. Teria alguma dúvida ou comentário sobre os estudos?
- Sobre as provas que para a encarnação da qual desisti, digo que Deus me permitiu escolhê-las, mesmo que eu o tenha feito sem muita certeza do que elas me proporcionariam. Apenas queria pagar pelo que fiz e me livrar de um fardo.
6. Tens te instruído com teu Anjo guardião?
- Algumas vezes ele me ajuda, noutras eu penso sozinha.
7. É permitido que nos digas por quais gêneros de prova passarias como Flora?
- Sim, precisaria passar por privações físicas em meu corpo.
Observação: "Cabe ao Espírito a escolha do corpo em que encarne, ou somente a do gênero de vida que lhe sirva de prova?
"Pode também escolher o corpo, porquanto as imperfeições que este apresente serão, para o Espírito, provas que lhe auxiliarão o progresso, se vencer os obstáculos que delas lhe advenham. A escolha, porém, nem sempre depende dele; mas isso não obsta a que peça que seu corpo seja tal ou qual." (Livro dos Espíritos, item 335.)
8. Tu nos disseste ter um medo que te tira a razão. Talvez falar sobre esses medos pode ser-te útil, e poderemos melhor te ajudar. Gostarias de nos falar sobre eles?
- Medo de sofrer o quanto fiz os outros sofrerem. Quando se toma consciência da dor causada no outro, espera-se que a punição deva ser proporcional. O medo ainda me caracteriza.
Observação: a referência do Espírito a faltas por ele cometidas em existência anterior evidencia tanto a lei da reencarnação quanto a escolha das provas para a vida terrena, conforme foi dito no item 5.
9. Deus, que é infinito em sua bondade e misericórdia, quer ver-te feliz, quer que repares tuas faltas fazendo o bem ao invés do mal, para que possas gozar da felicidade eterna como a dos Espíritos puros. Vês aqui nossos Guias?
- Sim, estão aqui e nos ajudam.
10. Percebes a felicidade deles?
Observação do médium: após uma breve pausa feita pelo Espírito, o médium sentiu um forte calor fluídico, e o Espírito voltou a escrever.
- Eles me mostram... Eu nunca senti isso antes, eu não mereço...
11. O que eles te dizem?
- Que eu também posso chegar a ser feliz como eles; que preciso rever o que fiz e tomar novas resoluções para que, cumprindo a vontade de Deus, eu possa ser um com Ele.
12. Essa resposta te parece justa?
- Não sei o que posso fazer para reparar o que fiz. Sofrer pode me libertar da culpa, mas não faz com que os que sofreram pelas minhas faltas tenham deixado de sofrer!
Observação: há certa sabedoria nesta ideia. No entanto, parece que boa parte dos homens e dos Espíritos ainda não compreende que fazer o bem é a melhor expiação, em vez da mutilação do corpo, ou do sofrimento por si só.
13. Não faz. Mas, Deus é justiça e misericórdia, e sempre tira do mal que o homem faz, um bem. O sofrimento, consequência natural das más ações, só tem por objetivo fazer com que quem sofre se emende.2
- Sim, compreendo. E agora entendo melhor que devo me ajustar à vontade de Deus. O que me falta ainda é um pouco mais de coragem.
14. Nós vamos continuar orando por ti, para que tomes as melhores decisões.
- Obrigada.
15. Na primeira sessão tu nos disseste que ainda não estavas arrependida de algumas coisas, e que precisavas de tempo para meditar e encontrar motivos para mudar. Poderíamos te ajudar de alguma forma quanto a isso?
- Pelas orações que fizerem por mim, já me ajudam.
16. Gostarias de nos dizer algo mais?
- Vou buscar me instruir mais. Tenho aproveitado os estudos, eu e outros que também vêm aprender. O caminho é longo, mas é necessário buscar a melhor direção, e sempre temos essas mãos amigas para nos ajudar a encontrá-la. Despeço-me, agora.
Flora
(Psicografada em 20 de janeiro de 2017)
Terceira sessão
(10 de fevereiro de 2017)
Nesta sessão, estudamos o texto Ajuda-te e o Céu te ajudará, de O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXV, itens 1 a 5. Em seguida, evocamos o Espírito de Erasto para que nos esclarecesse sobre alguns pontos, e, por fim, evocamos também o Espírito de Flora.
Perguntas a Erasto:
1. A que se deve o mal-estar (tristeza, apatia, irritabilidade e dificuldade para dormir) que a Sra. I. B. sentiu durante a gravidez?
- As provas por que o Espírito de Flora passaria nessa existência constituíam também provas para os pais, que as escolheram, por sua vez, também como expiação, para reparar faltas passadas. Sabiam eles, embora não se lembrem em vigília, de que havia chances de o Espírito recuar ante as novas escolhas. O mal-estar sentido deveu-se à frustração, fruto da percepção de que o Espírito de Flora desejava voltar atrás em suas escolhas.
2. O Espírito de Flora teria feito as escolhas das provas sem o auxílio de seu Anjo guardião? Por que ele disse não ter noção mais precisa da gravidade das escolhas que fez?
- Algumas vezes ouvia os conselhos do seu Anjo, é verdade, mas não havia o esforço por instruir-se. Acreditava que poderia atenuar seus sofrimentos, mas sua visão ainda imperfeita e muito material das coisas o levava a não compreender bem como se daria a ação do remédio para as suas dores.
Observação: muitas vezes, a falta de compreensão e de confiança na perfeição das soberanas leis de Deus é o que nos impede de avançar, pois não encontramos as razões para fazer os esforços necessários a fim de atingir o objetivo, que é o próprio Deus.
3. Esse Espírito tem buscado instruir-se com os guias?
- Sim, vossas preces o têm encorajado a isso.
4. Que benefícios as orações que temos feito por ele lhe têm proporcionado?
- Sua coragem tem aumentado e ele se sente hoje mais fortalecido. A prece é um poderoso meio de auxílio aos Espíritos, não duvideis.
5. Pedimos conselhos para melhor nos conduzirmos no estudo desse caso.
- Continuai com as preces e estudai sobre a expiação das faltas. Um melhor conhecimento sobre o assunto poderá auxiliar esse Espírito, fortalecendo sua fé em Deus e em seu futuro. Evocai-o ainda outras vezes e podereis ver o progresso que se realizará.
Erasto
(Psicografada em 10 de fevereiro de 2017)
Feita a evocação do Espírito de Flora, tivemos com ele o seguinte diálogo:
1. Evocação.
- Estou aqui. Agradeço por me chamarem novamente.
2. Com o que tens te ocupado desde nossa última conversa?
- Tenho me esforçado para ouvir os Guias, tenho tentado. Eles me dizem que posso estar sempre com eles, mas ainda não estou pronta.
3. Pronta para quê? Para instruir-te com eles?
- Para merecer estar sempre com eles.
4. As instruções deles não te fazem bem? Não te ajudam a pensar melhor e a aliviar teus sofrimentos?
- Sim.
5. Conseguiste orar? Se sim, que resultados obtiveste?
- Consegui, sim. Orar me acalmou. Quando orei, eu percebi os Guias, que me ajudavam a orar junto a eles. Foi um alívio. Levei minhas lágrimas a Deus e pedi perdão pelo que fiz. Os bons Guias me disseram que Deus sempre perdoa aquele que se arrepende, e que só deseja que vivamos a caridade, o amor ao próximo, no limite da nossa capacidade.
6. Ouviste o texto que lemos sobre expiação?3 Tens algo a perguntar ou comentar sobre ele?
- Sim, ele me tocou profundamente. Ninguém quer sofrer, mas agora eu entendi melhor por que se escolhem provas que possam causar sofrimento. É devido ao que se aprende naquela situação difícil, o que resulta das resoluções do Espírito para que demonstre, na prática, que venceu aquela etapa, e que as virtudes foram incorporadas para sempre em seu caráter. Os bons amigos me ajudaram a ver que tenho o auxílio deles para vencer as provas, e isso me motiva a seguir, porque confio neles e agora também já confio mais em Deus.
7. A melhor expiação é fazer o bem, apagar cada falta com uma boa ação. O que pensa agora sobre a expiação das suas faltas?
- Sei que o que fiz não deixará de estar feito, não se volta atrás. Mas também sei que, num futuro onde eu possa ter a consciência reta e um bom juízo das coisas, vou me tornar um filho fiel a Deus, um filho que não mais quer tornar a errar.
8. Orar por si mesmo, pedindo a Deus forças para bem agir, para cumprir sua vontade, é um bom meio de obter a força e a coragem necessárias.
- Sim, agora compreendi melhor isso.
9. Lembras-te de tuas existências anteriores?
- Sim. É o que me pesa no coração.
10. É permitido que nos contes sobre as faltas passadas que tinhas escolhido expiar na existência da qual desististe?
- Sim. Talvez falar sobre isso me ajude. Tive poder, um poder perigoso, que não se deve desejar possuir sem que se esteja preparado para fazer boas escolhas e não cair nas armadilhas do amor-próprio. Eu mandei fazer mal a muitas pessoas. Não me interessava saber dos seus motivos, bastava que tivessem desobedecido alguma norma da Igreja.
11. Saberias dizer onde e em que época viveste?
- Na França, no século XIV.
12. O que escolheste para aquela encarnação?
- Eu desejei ter poder. Numa existência anterior eu havia sofrido na pobreza e queria experimentar o poder. Deus me permitiu, e ainda pago pelos meus erros.
13. Eras religioso, ou apenas ocupavas um cargo de poder?
- Era religioso, mas apenas na forma...
14. Poderias nos descrever como foi tua passagem ao mundo dos Espíritos daquela encarnação?
- Morri doente, sozinho, sem amigos verdadeiros ou família. Sofri já na Terra as consequências do egoísmo.
15. E depois da morte?
- Depois eu sofri muito! Eram muitos os que me perseguiam sem cessar, não havia outra forma de ser... Foi consequência do que eu fiz.
16. Essa é a primeira vez que tentas encarnar em nossa família?
- Não.
17. Nasceste como Milena, que era nossa tia?
- Sim, fui eu.
18. A criança Milena desencarnou com poucos meses de idade. A causa da morte foi também devido ao recuo ante as provas?
- Noutra oportunidade poderemos falar melhor sobre isso. Agora eu vou.
Flora
(Psicografada em 10 de fevereiro de 2017)
Quarta sessão
(3 de março de 2017).
Nesta sessão, que foi realizada com alguns membros de nosso grupo na casa de uma amiga, fizemos uma prece fervorosa, rogando a Deus e a Jesus pelo Espírito de Flora, pedindo a cura para essa alma enferma. Antes da evocação, houve uma agradável discussão sobre as oportunidades de progresso que os Espíritos têm, ao encarnar, e sobre o papel que podemos desempenhar em auxiliarmo-nos mutuamente a fim de progredir, especialmente quando se exerce a função da paternidade. Em seguida, evocamos Flora.
1. Evocação.
- Estou aqui.
2. Percebo-te mais leve. Estavas aqui enquanto conversávamos?
- Sim, e não consigo traduzir em palavras o que sinto agora. Esses Guias luminosos nos abraçam e estamos todos imersos em uma imensa luz. Posso ver mais claramente, e as ideias ecoam em minha alma com uma força indescritível. A coragem que é despertada no Espírito, agora eu entendo melhor, vem das ideias bem compreendidas somadas à vontade de vencer os vícios.
3. Agora sabes que tens faculdades de origem divina e que tens dentro de ti todas as ferramentas para a construção de um futuro de felicidade. O que pensas sobre a encarnação como oportunidade de progresso e de reparação das faltas?
- Entendo isso melhor agora. Como ainda vejo o passado com pesar! Mas o desejo de um futuro de venturas me invade, e não quero mais me afastar do caminho reto que leva a Deus; não quero me afastar desses bons Guias que me garantem seu apoio tão solícito.
4. Ainda gostarias de encarnar em nossa família?
- Sim, é o que desejo.
5. A prática do Espiritismo na família te estimula a nascer entre nós?
- Sim. É um alento e uma oportunidade de ver mais claramente o que deverei seguir, quando encarnada. Peço a Deus que me dê essa oportunidade de progresso, e sei que, se fizer bom uso dela, serei muito mais feliz.
Observação: a experiência nos tem demonstrado que a prática do Espiritismo não é apenas útil para nos iluminar os caminhos da vida, nos sustentando nas provas e facilitando nosso entendimento da vida futura; essa prática também constitui um estímulo e uma esperança para os Espíritos que deverão voltar à vida corpórea. Assim, poderão tê-lo como um guia seguro, por nascer em um meio onde possam contar com a prática da Ciência Espírita.
6. Gostarias de nos dizer algo mais?
- Agradeço muito pelas preces! O caminho que trilhei até aqui não me fez feliz, e agora quero algo novo. Tenho buscado os conselhos dos bons Espíritos, e esse contato foi fundamental para que se desse em mim uma revolução nas ideias. Não mais sofrimento, não mais os erros; quero agora voltar os olhos e as mãos para Deus, agindo apenas para cumprir a sua vontade. Tenho a certeza de que serei feliz, se fizer jus, e peço que continuem orando por mim, pois ainda há muitas escolhas que devo fazer antes de mergulhar na carne novamente e, dessa vez, cumprir o prometido. Agradeço por tudo.
Sua filha,
Flora
(Psicografada em 03 de março de 2017)
Em seguida, recebemos espontaneamente, por dois médiuns distintos, as seguintes comunicações:
I
O Espírito de Flora deu passos importantes, e suas palavras são verdadeiras. Vede que o esclarecimento do Espírito não significa já haver escolhido as provas por que deverá passar; é o processo de reflexão que terá como consequência a escolha dos melhores meios para chegar aos objetivos vislumbrados, desejando então uma nova existência em que possa reparar suas faltas e avançar. Orai ainda por esse Espírito e agradecei a Deus pelas oportunidades dadas por essa Ciência do Espírito, que deve servir a todos os que a buscam como meio de progresso.
Erasto
(Psicografada em 03 de março de 2017)
II
A amizade verdadeira é poderoso argumento para encorajar as almas que buscam empreender uma nova etapa de progresso encarnando-se num corpo material. Sabendo que será recebido por pessoas que têm seus laços afetivos construídos sob as bases sólidas de uma amizade inabalável, o Espírito reencarnante tem diminuída boa parte das incertezas, que poderiam constituir o rol de suas preocupações.
No entanto, pouco se conhece nesse mundo sobre o verdadeiro sentido dessa virtude, que é confundida tantas vezes com o jogo de interesses, a troca de favores, por vezes condicionada a retribuições, a uma conivência perniciosa, ou concessões injustas, para garantir que a convivência seja duradoura. Sempre que há uma condição qualquer imposta para que a amizade permaneça, há interesse, e nesse caso os laços facilmente podem romper-se. Sugerimos, amigos, que busqueis compreender o que significa verdadeiramente essa virtude chamada amizade, e assim construir uma solidariedade e uma fraternidade invulneráveis a qualquer ataque, seja dos inimigos internos ou externos, porque cercada e fortalecida pelos laços do amor e da caridade bem compreendidos.
Pascal
(Psicografada em 03 de março de 2017)
Observação: antes de evocar os Espíritos, havíamos lido duas dissertações de Pascal, publicadas na Revista Espírita de maio de 1865: "Deus não se vinga" e "Progresso intelectual", e também lemos a dissertação "A amizade e a prece", Revista Espírita de junho de 1863.
Ao meditarmos sobre o que nos foi dito nos diálogos obtidos, outras dúvidas nos surgiram, e então propusemos a Allan Kardec as seguintes perguntas:
1. Poderíamos considerar como um preconceito religioso a crença de que os meios de salvação estão, em grande parte, fora de nós?
- Sim.
2. Sobre que ideias falsas esse preconceito foi construído?
- Tem por base a crença de que apraz a Deus o sofrimento do pecador, como se tal sofrimento fosse uma moeda com a qual se quitam as dívidas contraídas com o Criador. Essa crença, por sua vez, teve sua origem na degeneração de um princípio verdadeiro: o de que o sofrimento é um meio de progresso de que Deus se utiliza para a educação de seus filhos. Mas, como sabeis, o sofrimento é o efeito direto da inobservância das leis de Deus.
3. As doenças geram, de certa maneira, um peso e uma prova para quem dedica-se a cuidar do doente, seja a família, seja o Estado, ou ambos. Entendemos que Deus é justo e não impõe provas indevidas a ninguém. No entanto, perguntamos: escolher uma doença como meio de progresso não seria um recurso do egoísmo e do desejo de ser servido?
- Em geral, não. Os Espíritos escolhem as vicissitudes da vida material quase sempre visando seu progresso moral, embora nem sempre o façam como resultado de um estudo aprofundado e refletido sobre si e sobre seus vícios. Fruto do egoísmo, muitas vezes é a escolha da riqueza, dos sucessos materiais, e que não raro resultam em grandes prejuízos para os Espíritos que os pedem, por sucumbirem às tentações que escolheram para si sem o devido preparo.
4. Parece lógico que a melhor escolha, tanto como Espírito quanto como encarnado, seria a de uma saúde perfeita, a fim de bem aproveitar o tempo a serviço da própria instrução e para servir ao próximo. É justa essa ideia?
- Sim, é justa; mas nem sempre é esse o meio de progresso mais eficaz para todos os Espíritos. Há alguns que precisam do sofrimento para que, naquela situação, seja imposta ou escolhida, eles estejam expostos às melhores condições para dobrar seu orgulho e aprender lições ainda elementares sobre a obediência às leis de Deus. Aos que estão aptos, quanto mais recursos, melhor; aos viciosos, ainda são necessários os meios mais apropriados ao aprendizado das lições mais urgentes.
Lembrai-vos, meus amigos, de que é o conjunto das sucessivas encarnações que possibilitará ao Espírito obter o progresso, e que cada existência encerra diferentes capítulos dessa trajetória.
Allan Kardec
(Psicografada em 03 de março de 2017)
Observação: Os pais de Flora passaram a frequentar o grupo e prosseguiram nos estudos e na prática do Espiritismo, nas evocações dos Espíritos, tanto para se instruir quanto para prestar auxílio ao Espírito de Flora. Muitos bons estudos foram realizados. No ano de 2018, eles tiveram uma filha e seguiram suas vidas, mais confiantes em Deus e com novo ânimo para o futuro. No entanto, que não foi o Espírito de Flora que lá reencarnou. Se houver oportunidade no futuro, publicaremos a continuação desse caso.
__________
1 O Livro dos Espíritos - Parte Segunda - Cap. VII - Da volta do Espírito à vida corporal - União da alma e do corpo.
2 Veja-se o item 1009, de O Livro dos Espíritos, comunicação de Paulo, Apóstolo.
3 O Céu e o Inferno - Segunda Parte - Exemplos, cap. VIII - Expiações terrestres - Um cientista ambicioso.

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