PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Um espírita dogmático - Parte 1
01 / SETEMBRO / 2021

UM ESPÍRITA DOGMÁTICO

Parte 1

SENHOR X.

 

   Era mês de dezembro de 2020. Há alguns dias me vinha à memória a imagem do Sr. X., um amigo, que era espírita, e havia morrido há pouco mais de um ano.

   Tinha vindo passar alguns dias em nossa casa, um jovem médium, amigo da família, que mora no Rio de Janeiro, para estudarmos juntos, como temos o costume de fazer. Desta vez, também trabalharíamos nos preparativos finais da Revista Espírita digital, que em breve seria publicada. Contei-lhe então sobre a lembrança que estava tendo do Sr. X., e o jovem me disse que havia entrado em contato com esse senhor, e que o mesmo lhe indicara o site do Ipeak, e que foi graças a essa indicação que ele entrou em contato conosco no início de 2016, pelo que lhe era muito grato.

   Tínhamos a impressão de que o Sr. X. havia se interessado pela publicação da Revista Espírita digital, e talvez quisesse colaborar com esse trabalho, agora como Espírito, uma vez que como homem ele se dedicara à divulgação do Espiritismo, embora nos moldes do movimento espírita brasileiro.

   Na manhã do dia 19 de dezembro de 2020, evocamos nosso mestre Allan Kardec para pedir-lhe algumas instruções, e aproveitamos para perguntar-lhe sobre a situação do Espírito do Sr. X., e se sua evocação poderia ser-lhe útil e também a nós.

   Eis a resposta:

   - Ele se reconhece como Espírito e tem mesmo visto vossos planos de divulgação da Revista. No entanto, vê com preocupação essas providências, pois teme que elas prejudiquem aquilo que considera ser o mais adequado, segundo o movimento espírita pelo qual se guiou em vida. A lembrança que tens tido dele recentemente é fruto da intuição que trazes, ao acordar, da situação relativamente infeliz em que ele se encontra. Embora ele se reconheça no mundo dos Espíritos, não nota a qualidade dos Espíritos que tem como guias. Trouxeste então, para a vigília, o desejo de evocá-lo para que essas conversas sejam proveitosas, tanto para ele, quanto para vós, pois sabeis que aí está um objeto de estudo no que diz respeito ao proveito que os espíritas devem dar à doutrina que professam.

   1. Então o senhor julga que a evocação desse Espírito pode ser útil neste momento?

   - Sim, será.

   2. Temos a impressão de que o senhor Napoleão, que também era conhecido do Sr. X. em vida, tem tentado ajudá-lo. Essa impressão está correta?

   - Ele tem tentado alertá-lo a respeito das companhias que segue, mas não tem tido sucesso. O Sr. Napoleão acompanha vossos trabalhos e tem o desejo de contribuir com a Revista, e ficou feliz por ter podido fazê-lo já nesse primeiro momento; ele se dispõe de muito bom grado a continuar a ser útil.

Observação: o Espírito se refere ao artigo: Perfil de Allan Kardec, publicado na Revista Espírita de janeiro de 2021.

 

Sessão particular, em 21 de dezembro de 2020

Primeira conversa com o Sr. X.

 

   No dia 21, fizemos a prece "Pelas pessoas a quem tivemos afeição"1, em favor do Sr. X., e em seguida o evocamos, em nome de Deus.  

   - Eu estou aqui.

   1. Quem nos fala?

   - Sou eu, X. Agradeço pelas suas palavras, muito gentis, e pela prece que fizeram por mim.

   2. Foram palavras sinceras.

   - Sim, eu percebo. Venho rapidamente, pois há algum tempo gostaria de lhe dizer algumas palavras, porque lhe tenho em consideração, como amiga, e as preces que faz por mim só reforçam a nossa amizade. (Fazíamos preces pelo Sr. X. desde que, há pouco mais de um mês, soubemos que ele havia morrido.)

   3. Eu o ouço, pode falar. 

   - Gostaria de adverti-la sobre esse projeto ao qual você tem se dedicado bastante. Percebo, agora olhando do mundo dos Espíritos, que talvez não seja o mais adequado para divulgar nosso Espiritismo para as pessoas. Eu temo que você esteja contribuindo para uma má propaganda, que pode acabar lançando confusão no coração dos nossos correligionários. Tome cuidado com essas coisas. Eu lhe sugiro que releia com calma as recomendações dos Espíritos, que tanto nos vêm ajudando aqui no Brasil; isso porque, de certa forma, publicar essa Revista seria desviar os leitores do caminho que eles traçaram para nós. Tome cuidado, minha amiga. Eu sei o quanto você é dedicada ao Espiritismo, mas eu lhe digo que nem sempre tomamos decisões muito boas, e podemos errar mesmo querendo acertar. Eu lhe digo, minha amiga, que acredito que seja esse o caso, e não poderia deixar de dizer-lhe essas coisas; parece-me que se esse trabalho for colocado a público, gerará muitos problemas, e você acabará sofrendo por isso, e não quero ver uma amiga sofrer.

Observação: o movimento espírita brasileiro desaconselha a evocação dos Espíritos, e o periódico no qual temos trabalhado é justamente para divulgar o Espiritismo prático conforme o ensina Allan Kardec em suas obras.

   4. Eu agradeço pela sua preocupação. Sei do seu empenho por também divulgar o Espiritismo. Meu desejo sincero, e sei que também era o seu, é divulgar as obras de Allan Kardec com as quais você ocupava boa parte do seu tempo, quando no corpo. Então eu agradeço pela sua preocupação e lhe pergunto se veio de boa vontade conversar comigo.

   - Sim, eu vim.

   5. Fazia muito tempo que você desejava falar comigo?

   - Sim, há um bom tempo, sobretudo quando percebi com o que se ocupava e me pareceu que esse projeto se trata de um desvio do melhor caminho. Por isso quis alertá-la.

   6. No entanto, você não conseguiria falar comigo da maneira que está falando agora, se eu não o evocasse, porque talvez não conseguisse ouvi-lo só pela inspiração. Não é verdade?

   - Eu consigo falar com você agora de forma mais clara, e de uma maneira que você guarde a lembrança, mas já havíamos conversado quando você se emancipa pelo sono. Algumas vezes eu também falava a você enquanto trabalhava nesse seu projeto de divulgação, mas é mais difícil dessa forma. Por isso eu disse que viria rapidamente, porque esse modo facilita a que nos falemos e que eu possa dizer com mais clareza, e de uma maneira que você não se esqueça das coisas que lhe digo.

Observação: como adepto do movimento espírita religioso, o Sr. X. devia estar receoso de vir falar, quando evocado, mas atendeu ao chamado por julgar que nesse caso os fins justificariam o meio.

   7. Não gostaria de falar assim também com os seus filhos e sua esposa, aos quais tanto ama, e aliviar um pouco seus corações da saudade que sentem de você?

   - Eu já tenho feito o possível. Não vou negar que seria bom desse modo, mas nem tudo é como nós queremos. Eu sei que esse contato poderia prejudicar a outras pessoas que, com a minha iniciativa, também poderiam fazer da mesma forma e acabariam atrapalhando os Espíritos familiares que estão na mesma situação que eu. Muitos iriam fazer isso, e a evocação dos parentes poderia tornar-se comum, mas os vivos puxariam os familiares mortos enquanto eles deveriam prosseguir seu caminho. Você entende agora por que me preocupo com a divulgação da Revista digital?

   8. Eu entendo. No entanto, lembre-se de que no Livro dos médiuns, numa resposta dada pelo Espírito de Verdade a uma pergunta feita por Allan Kardec, Ele diz que o aspecto mais belo e mais consolador do Espiritismo é a comunicação entre os afetos que estão separados pela morte e sofrem, por acharem que seus amores estão perdidos para sempre. Além disso, a comunicação com os Espíritos afasta toda dúvida sobre a imortalidade da alma. Negar essa lei seria negar o supremo apelo que Deus dirige aos nossos corações, pelo Espiritismo. Conversar com os afetos mortos é dar a eles uma prova do nosso bem-querer, e uma possibilidade de auxiliar os Espíritos familiares que sofrem no além-túmulo. Com que argumento refutaríamos o que disse o próprio Cristo, que agora se apresenta como Espírito de Verdade? Ademais, você sabe quem nos fez o convite para divulgar o Espiritismo prático? Ele está aqui, ao nosso lado, e é alguém que você também ama e respeita. Você poderá vê-lo, se desejar, e então perceberá o verdadeiro responsável pelo que julga ser a minha perdição. Ele está aqui e quer fazer-lhe um convite, porque compreende que você age de boa-fé. Ele é meu mestre, a quem amo e considero meu pai espiritual, porque foi com ele que aprendi a amar a Deus, a conversar com meu Anjo guardião, a ter mais fé e, quando possível, aliviar o sofrimento do meu próximo sob a assistência dos bons Espíritos. Seria uma tremenda ingratidão da minha parte não dar ouvidos a ele, que tomou um corpo de carne para vir à Terra escrever, com letras claras, o supremo apelo que Deus dirige aos nossos corações pelo Espiritismo2. Você o vê, X.? 

   - Sim. Não o via antes...

   9. Foi ele quem nos fez o convite para divulgar o Espiritismo prático, com que temos nos ocupado há quase quinze anos.

   - Para ser sincero, não imaginei que ele estivesse neste mundo, mas é inegável que é ele, a menos que... não é possível, eu sei que é ele.

Observação: nota-se uma hesitação da parte do Espírito por causa do preconceito de que os Espíritos superiores estão distantes da Terra e não se ocupariam com os homens. Esse preconceito denota ignorância sobre a missão dos Espíritos superiores e sobre a facilidade que eles têm para se movimentarem pelo Universo.

   10. Ele lhe é grato, não é?

   - Sim. Ele mostra que foi ele mesmo que me ajudou em alguns momentos dos meus trabalhos relativos à divulgação das suas obras.

   11. Nós o chamamos por afeto e por conhecer seu trabalho, sua boa disposição, e para convidá-lo a entrar na equipe de Allan Kardec, e servir sob o olhar do Espírito de Verdade, nosso bom Jesus.

   - Eu preciso pensar, pois estou confuso... não são da mesma equipe aqueles que eu sigo?

   12. Os Espíritos que dizem que Kardec e Jesus estão longe não podem ter boas intenções, pois divulgam assim uma mentira. Alguns querem dominar os homens e agem para esse fim. O Espírito de Verdade, Allan Kardec, e todos os Espíritos que agem em nome deles querem que nos emancipemos como Espíritos, e não medem esforços para nos aproximar de Deus pelo conhecimento de Suas leis, que é o que nos ensina o Espiritismo.

   - Mas quando houve essa divisão? Nós oramos a eles também... 

   13. Jesus é nosso mestre, nosso modelo e guia, não tem outro. Aqueles que servem a Jesus, servem a Deus, e vieram para nos libertar do cárcere terreno, já que a Terra é um mundo de expiação e de provas. É a Jesus e a Kardec, seu lugar-tenente, que nós desejamos servir. 

   - Sinto-me confuso agora, porque vejo os Espíritos que me acompanham e vejo Kardec.

Observação: sabe-se que o guia do movimento espírita religioso não é Allan Kardec, mas um Espírito que se denominou Ismael, por isso a instituição que o representa foi fundada como "Casa de Ismael". 

   14. Cabe a você decidir a quem deseja servir. Kardec lhe estende a mão e lhe faz um convite. Quanto aos Espíritos a quem você tem servido, talvez não queiram que se emancipe.

   - Mas não é o que eu sinto. Eles não me aprisionam, ao contrário, temos trabalhado tanto juntos.

   15. O que nós lhe propomos é que busque servir a Allan Kardec, mas é apenas um convite, como o que nos foi feito há alguns anos, e nós aceitamos. Naquele tempo você ainda estava no corpo. Kardec previu, ainda em 1863, que o Espiritismo passaria pelo período religioso.3 Nós desejamos seguir o Espiritismo como ciência, como filosofia, pois foi esse o supremo apelo que Deus nos enviou. O que queremos é libertar-nos das nossas imperfeições com o auxílio dos Espíritos superiores. Você não precisa decidir agora. Pode pensar, aconselhar-se com Allan Kardec, ouvir os seus arrazoados, e só então se decidir.

   - Eu vou fazer isso, porque quero que ele me ajude a refletir. Confesso que não consigo entender como eles estão numa posição diferente, do outro lado. Mas agora me parece um bom convite esse que você me fez. Vejo Allan Kardec aqui, e se você me der licença gostaria de conversar com ele.

   16. Sim, conversaremos numa outra oportunidade. Kardec o esclarecerá de muito bom grado e com amor, o verdadeiro amor que ele tem por toda a Humanidade. Depois, respeitando sempre o seu livre-arbítrio, você poderá tranquilamente decidir a quem servir.

   - Sim, vou falar com ele. Ele está aqui e já se mostra disposto a me ouvir.

   17. Que Deus o abençoe.

   - Obrigado. Que ele abençoe a vocês também.

   18. Nós agradecemos.

(Por psicofonia, em 21 de dezembro de 2020.)

 

Esclarecimentos de Espinosa sobre a conversa anterior

 

   Após a conversa com o Sr. X., nós evocamos Espinosa, que é um dos nossos Guias, para trazer-nos orientações.

   - Estou aqui. É Espinosa quem fala.

   1. Nosso bom Guia, nós desejamos ouvir seus comentários a respeito da conversa que acabamos de ter com o Sr. X., e também receber suas orientações, e o fazemos em nome de Deus.

   - As perguntas que preparastes facilitarão as minhas respostas, então podes propô-las.

   2. Como se sentiu o Espírito do Sr. X. após a nossa conversa? O senhor vê nele alguma possibilidade de mudar de ideia quanto à importância do Espiritismo prático?

   - Ele se instrui neste instante com o próprio Kardec. Ambos se encontram aqui. Vemos nele uma sinceridade de trabalho bastante grande. Ele é sério no que faz e, tirando as confusões iniciais, das quais em certo tempo se livrará, conseguirá voltar-se para o bom trabalho.

   3. Ele de fato me inspirava ideias para que eu desistisse da divulgação do periódico de divulgação do Espiritismo prático?

   - Sim. Havia sido convidado a agir dessa maneira pelos Espíritos aos quais ele venerava. Ao contrário do que pensaste, não foi o Sr. Napoleão que o aproximou de ti, mas foi ele que te inspirou a ideia de evocá-lo, já que isso contribuiria para evitar mais um pequeno empecilho às tuas tarefas, e também para auxiliar o Sr. X.

   4. Que objetivo não confessado visa a falácia de que não é para perturbar nossos afetos mortos evocando-os?

   - Separar, desunir e afundar os homens em sua materialidade. Desunir, para mais facilmente dominar, não é para vós uma tática desconhecida. Sabem, aqueles que inspiram tais ideias, que o Espiritismo realizará seu papel pela união entre os Espíritos e os homens. Ora, pensam poder postergá-lo evitando essa união, e empregam parte considerável de seus esforços para entreter nos Espíritos e nos homens essa ideia, como sabeis. Fazem-nos contentarem-se com a certeza da imortalidade da alma, mas todo o restante é construído por seus raciocínios, por seus argumentos, de modo a garantir a continuação de seu império, tanto sobre os Espíritos, que continuam a lhes servir, como no caso do Sr. X., e também sobre os homens. Não podendo destruir por completo o Espiritismo, por ser ele uma lei natural, querem fazer-lhe apenas uma concessão no que diz respeito à imortalidade da alma. No entanto, partindo da existência e imortalidade da alma, apontam a seta para uma direção totalmente oposta, de maneira a atender mais convenientemente seus próprios interesses.4

 

"Nós nos devemos uns aos outros; somente pela união sincera e fraternal entre os Espíritos e os encarnados será possível a regeneração." Lacordaire5

 

   5. Isso prejudica a fé na vida futura, como orienta Kardec, nos itens 281 e 292 do Livro dos Médiuns, adquirida ou fortalecida justamente na conversa com os Espíritos familiares, com amigos ou contemporâneos.

   - Sim, de maneira que a crença na imortalidade da alma, a fé na vida futura, se tornam mero artigo de crença confessada mais com os lábios do que com o coração do crente, mas que pouco é capaz de alterar sua conduta, seu comportamento. Se lhes perguntardes, eles dirão que não duvidam, mas se observassem o próprio agir facilmente concluiriam que ainda não têm fé verdadeira na vida futura.

   Talvez o ponto mais difícil, no que diz respeito aos homens que têm buscado livrar-se do período religioso-dogmático do Espiritismo, é não perceberem com muita clareza o quão vacilante ainda lhes é a fé. A chama da fé é neles atualmente um desenho estático. Eis um primeiro passo que custa muito a ser admitido, mas é necessário para que, vendo-se o problema, se consiga trabalhar na sua solução. E tal solução está no estudo aprofundado do Espiritismo, principalmente por seu lado prático. Foi por isso que vos inspiramos a divulgacão da Revista Espírita digital, com a finalidade de mostrar, pelos exemplos práticos, esse caráter essencial do Espiritismo que é capaz de desenvolver nos falsos crentes a fé verdadeira. Com as reflexões e as observações que lhes faculta o Espiritismo, em sua verdadeira acepção, poderão substituir o desenho estático pela chama verdadeira da fé. Assim, a regeneração individual será muito mais facilitada.

 

"Não esqueçais que o fim essencial, exclusivo, do Espiritismo é a vossa melhora e que, para o alcançardes, é que os Espíritos têm a permissão de vos iniciarem na vida futura, oferecendo-vos dela exemplos de que podeis aproveitar. Quanto mais vos identificardes com o mundo que vos espera, tanto menos saudosos vos sentireis desse onde agora estais. Eis, em suma, o fim atual da revelação."6

 

   6. Parece que o preconceito religioso ainda é um grande empecilho para que vejamos a vida futura como dinâmica e desejável.

   - Sim. Estais certos ao pensar que a ideia que se generalizou, a respeito do mundo dos Espíritos, em romances duvidosos, sobretudo nessas últimas décadas, torna-o pouco desejável.

    Trata-se de uma estratégia de propaganda falsa que empregaram a fim de cada vez mais desgostar os adeptos espíritas da vida futura, e hoje colhe-se o resultado. Ainda aí, como disse há pouco, o Espiritismo experimental é o que mais facilmente mostrará a falsidade das ideias que se tenha a respeito da vida futura. Por isso é que não nos cansamos de incentivar a que cada um investigue, na prática, essa realidade; que evoquem seus parentes, seus amigos, sem ideias preconcebidas, mas desejando conhecer, com a maior riqueza de detalhes possível, seu estado atual, suas ocupações, a natureza de seu estado moral. Se vos ocupardes constantemente com essas questões, percebereis que gradualmente a imagem do mundo dos Espíritos perderá as tintas pálidas e deturpadas que lhes foram dadas durante tantos anos, e adquirirá as tintas vivas da realidade. 

   Nos tempos em que os Espíritos começaram a se manifestar de modo conjunto, no século XIX, nós, do lado dos Espíritos, víamos a efervescência moral que a realidade espírita provocava nos adeptos do Espiritismo nascente; cada um via com clareza a vida futura, sem os aspectos que lhe foram gradualmente acrescentados de forma mentirosa. Os adeptos ardiam de esperança, e foi isso que contribuiu para a divulgação tão rápida da nova ciência naquele tempo; foi a esperança que propagou tão rapidamente a Doutrina Espírita pelo mundo. Agora é preciso que ela volte a propagar-se rapidamente, e será ainda pelo mesmo meio que isso se dará: pela esperança que a relação com os Espíritos desperta nos homens.

   7. Mais alguma orientação que queira nos dar, ou podemos encerrar por ora?

   - Podemos encerrar.

   8. Nós lhe agradecemos por ouvir o nosso chamado, e a Deus por nos ter permitido esse diálogo.

 

(Por psicofonia, em 21 de dezembro de 2020.)

 

Sessão do dia 22 de dezembro de 2020.

Segunda conversa com o Sr. X.

 

   Nesta sessão nós evocamos, pela segunda vez, o Espírito do Sr. X., e tivemos com ele a conversa que se segue.

   Evocação, em nome de Deus.

   - Eu estou aqui.

   1. Quem nos fala?

   - Seu amigo X.

   2. Veio de boa vontade?

   - Sim.

   3. Poderia contar-nos um pouco sobre o que tem refletido desde a nossa última conversa?

   - Sim. Você me perguntou se eu vim, mas na verdade eu não saí daqui. Acompanhei o que Kardec, com a graça de Deus, me falou; presenciei a reunião que vocês fizeram ontem, e tenho refletido sobre as coisas das quais ele tem me falado, e  agora entendo que é isso mesmo. A mim não me restam dúvidas de que é assim que as coisas devem funcionar, é assim que o Espiritismo deve ser empregado pelos homens, porque é mesmo a prática que gera os bons resultados. Eu ainda não tive tempo, e talvez nem vontade, de me voltar para os Espíritos com quem trabalhava. Espero mesmo que minha presença na sua casa não tenha sido nenhum incômodo, já que aqui eu permaneci.

Observação: a reunião a que o Espírito se refere foi uma conversa que tivemos com um Espírito, acólito de um familiar nosso que nos havia pedido para evocá-lo.

   4. De forma alguma foi um incômodo, você é sempre bem-vindo. Ouviu a prece que acabamos de fazer pelos inimigos do Espiritismo?

   - Sim. 

   5. Temos total confiança no que o nosso mestre Allan Kardec nos ensinou a dizer nessa prece, e também no que Jesus já nos havia ensinado.

   - Ainda me custa ver neles inimigos do Espiritismo. Pelo que Kardec me falou, me ajudou a perceber que há más intenções disfarçadas de boas, entre os que dirigem esse movimento, mas eu sinto que preciso investigar o alcance dessa corrupção por dentro do meio onde eu estava, pois admito que ainda me surpreendo. 

   6. Isso é  natural. Todos devemos observar os frutos para conhecer a árvore que os produz. Se o Espírito de Verdade nos trouxe o Consolador, por sentir-se compadecido pelas nossas misérias, é porque nos ama e porque ainda precisamos compreender Seus ensinos para vivê-los. Infelizmente, a moral ensinada pelo Cristo tem sido negligenciada , ou mesmo usada como meio de dominação. Se o Espiritismo, que veio para nos consolar, não nos consola; se veio para nos instruir, e não nos instruímos com ele; se veio para nos emancipar, e não nos emancipamos, tem algo errado conosco. Se uma árvore nada produz, ou não dá os frutos esperados, não pode ser uma árvore boa e, sendo o Espiritismo uma árvore excelente, se não tem gerado em nós bons frutos é porque não estamos sabendo aproveitá-lo. Foi esse o raciocínio que fizemos, quando nos decidimos por seguir os ensinos dados por Allan Kardec. 

    A ninguém culpamos pelos nossos equívocos, a ninguém censuramos, apenas vimos que o caminho que trilhávamos não era aquele que Kardec nos havia indicado, e que, embora lêssemos seus textos muitas vezes, não os compreendíamos.

   - Sim, esse é o ponto chave: não conseguimos diferenciar as obras de Kardec das obras que se dizem espíritas mas não têm fundamento na verdade. É como se compuséssemos, ao menos na nossa cabeça, a mesma obra, e assim é difícil de se notar as incoerências internas desse sistema criado depois. É tudo muito bonito, isso é preciso admitir. A ideia de um grande trabalho executado por todos, com pessoas boas à frente, é um ideal superior no qual é possível dedicar grande parte dos trabalhos de uma vida. Sinto-me, de certa forma, como que traído, ou tendo mesmo desperdiçado um tempo precioso com algo que agora percebo que não era o melhor.

   7. A chave para sair desse embaraço não é olhar para trás; é dar graças a Deus por ter tido agora a oportunidade de receber o convite de Kardec para servir aos Espíritos do progresso. Se ele o faz a você é porque vê o seu potencial, sua boa-fé, e não há o que lamentar, porque logo mais todos esses Espíritos, que são nossos irmãos, também compreenderão e, quiçá, possamos até servir-lhes como o exemplo daquele que toma a charrua e não olha para trás, mas que se puder prestará um serviço àqueles que assim o desejarem.

   - Sim. Eu sinto que você tem razão. Eu ainda me sinto um pouco preocupado a respeito do futuro. Há pouco tempo eu não via esse Espírito diante de mim, e que tomou boa parte do seu tempo para conversar comigo, desde ontem. É impossível não confiar nele, isso é inquestionável. Talvez o melhor seja não pensar muito no momento, e seguir unicamente as suas recomendações.

   8. Quem é que Deus nos deu para servir-nos de modelo e guia, X.?

   - Jesus.

   9. Ele está aqui também. Vencendo qualquer preconceito, faça como a criança de quem Ele disse: "deixai vir a mim as criancinhas", e corra para os braços do Mestre! Deixe que ele lhe ajude, lhe ensine a ser um bom cristão. São dele estas palavras: "Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos. Venho salvá-los. Vinde, pois, a mim, vós que sofreis e vos achais oprimidos, e sereis aliviados e consolados. Não busqueis alhures a força e a consolação, pois o mundo é impotente para dá-las."7 Nós é que nos esquecemos disso, não é mesmo? Por que tentamos caminhar sozinhos, se Deus nos enviou um Espírito puro para nos indicar o caminho?

   - (Grande pausa) Eu preciso ir agora.

   10. Por que razão? Perguntamos para nossa instrução.

   - Conversaremos depois.

   11. Até breve. Que Deus o abençoe.

   - A todos nós.

(Por psicofonia, em 22 de dezembro de 2020.)

 

Esclarecimentos de Allan Kardec sobre a comunicação do Sr. X.

 

   Em seguida, pelo mesmo médium, evocamos Allan Kardec para nos falar sobre o Sr. X. O Espírito entra a falar:

   - É uma grande felicidade quando vemos que um de nossos irmãos tira um peso de suas costas, graças ao esclarecimento. Ele havia tomado sobre si um jugo pesado que inspirava compaixão àqueles que o viam, caminhando arcado sob tal jugo. 

   1. Quem nos fala?

   - Allan Kardec.

   2. Como ele havia assumido a tarefa de nos dissuadir de publicar a Revista Espírita digital, se lograsse êxito ainda teria muito do que se arrepender.

   - Ele não lograria êxito no que tentava fazer, mas o sofrimento já lhe era presente, ainda que não notasse. Isso se dá pela esterilidade dos sentimentos a que se veem entregues esses que, como ele, têm sua liberdade dominada, seja sob a ação de outros Espíritos, ou pelo peso de seus próprios erros; são verdadeiros prisioneiros a caminhar com dificuldade, como se seus membros estivessem atados. Não é a esse resultado que o Espiritismo, essencialmente emancipador, conduz. A situação em que se encontrava esse Espírito é uma prova dos frutos que indicam a qualidade da árvore que os produziu. Não traço esse quadro apenas para retratar, sem finalidade, a situação na qual ele se encontrava; faço-o para que também tireis daí um ensino moral. Os erros, as ideias falsas, os preconceitos, as más paixões, são também um pesado jugo que se carrega. Portanto, sugiro-vos que observeis em vós mesmos quais são as grilhetas que ainda vos prendem, e aproveiteis desse grande libertador moral que é a moral do Cristo para vos tornardes verdadeiramente livres.

   3. O senhor poderia nos esclarecer por que o Sr. X. saiu tão rapidamente depois que lhe falamos de Jesus?

   - Isso se deu porque Jesus se mostrou gradualmente a ele. Primeiro, o envolveu na atmosfera de Seus próprios fluidos; isso o fez notar que o convite que antes lhe parecia impossível de ser atendido era plausível, mais até do que a possibilidade de conversarmos ele e eu; ver o Cristo era uma situação inimaginável para ele até então. Podeis evocá-lo futuramente e ouvir dele mesmo o relato do que viu.

   4. A situação dele é um tanto semelhante à do padre Rudolf, ao que parece.

   - São semelhantes no que diz respeito à questão da fé, à relação com os superiores dentro do ambiente que consideram como a fonte de sua fé, e, de certa forma, nas ações que empreendem aconselhados por esses superiores.

   5. Parece que tais superiores se utilizam das pessoas de boa fé, mas ingênuas, para fazer tirar as castanhas quentes do fogo, como disse Allan Kardec, no seu Viagem Espírita em 1862. 

   - Sim. Não lhes agrada apenas ter por perto aqueles que os respeitam, mas também querem que trabalhem na execução de suas vontades. De um lado, têm o orgulho lisonjeado pelos seus seguidores; de outro, suas vontades atendidas, o que lhes faz sentirem-se como soberanos.

   6. Parece que aqueles que recebem tarefas deles também se julgam importantes, cumprindo grandes missões.

   - Alguns o fazem por orgulho, por uma certa ambição, outros, de boa vontade; estes últimos são os que mais facilmente se emendam, pois os erros do coração, como sabeis, geram comprometimentos mais difíceis de serem desfeitos. No caso do senhor X., percebestes que seus erros eram sobretudo do entendimento, já que sua vontade era boa. Por essa razão, ele não teve maiores dificuldades para notar o mau caminho que seguia e, exceto pelas constatações que tem feito desde então, as quais lhe causam certo sofrimento, como ele mesmo vos relatou, não terá grandes dificuldades para seguir doravante numa boa via.

   7. Parece que ele não teria uma predisposição para me agredir fluidicamente, como fazem certos Espíritos, mas simplesmente tentava persuadir-me a desistir da publicação na Revista digital.

   - Sua ação se restringia a um conselho, que tinha como efeito uma certa dúvida, não pontual, mas algo mais abrangente que te causava certa dificuldade para ouvir as nossas inspirações. Era dessa maneira que ele agia, sem que percebesse os efeitos gerados; apenas notava uma certa hesitação de tua parte, enquanto falava contigo, o que lhe dava esperanças de que um dia tu acabarias ouvindo os seus avisos.

   8. Que Deus não me permita o afastamento do senhor e dos demais bons Guias.

   - Conforme eu havia dito, as ações dele não geravam esse risco.

   9. Se ele tivesse acompanhado nossos trabalhos, os casos atendidos e que foram elaborados como artigos para publicar, não poderia ter mudado de ideia, pela observação dos fatos?

   - Seria muito difícil sem antes entender o real caráter dos Espíritos que lhe inspiravam as crenças que mantinha. A não evocação dos Espíritos era tida por ele como uma lei inquestionável, o que lhe deturpava o entendimento, mesmo diante das maiores evidências.

   10. Ao que parece, nesse meio não se observam os frutos, apenas se obedecem normas, como no tempo de Moisés se cumpria a lei que proibia a evocação dos mortos.

   - O que se faz é por conta de uma obediência cega das leis estabelecidas pelos seus superiores. Sem ao menos analisá-las, vê-se imediatamente como ruim tudo o que não atenda ao que foi determinado por tal lei.

   11. Essa é uma ideia bem generalizada no meio espírita de hoje, infelizmente. Algo mais que o senhor queira nos dizer, ou podemos encerrar por ora? 

   - Encerramos aqui. É o suficiente.

   12. Nós agradecemos mais uma vez pela sua bondosa assistência, e a Deus por nos permiti-la.

   - Continueis firmes nesse trabalho.

   13. Contamos com a sua mão vigorosa para nos sustentar, Mestre.

(Por psicofonia, em 22 de dezembro de 2020.)

 

Observação: o Espírito do Sr. X. foi evocado muitas outras vezes, o que resultou em boas instruções para ambas as partes. Futuramente publicaremos mais alguns dos diálogos que tivemos com ele, para apreciação dos nossos leitores.

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1 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVIII - Coletânea de preces espíritas - IV - Preces pelos que já não estão mais na Terra - Pelas pessoas a quem tivemos afeição.

2 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI - O Cristo consolador - Instruções dos Espíritos - Advento do Espírito de Verdade, item 7.

3 Revista Espírita, dezembro de 1863 - Período de luta.

4 Veja-se: Revista Espírita, agosto de 1867 - Dissertações espíritas - Plano de campanha - A era nova - Considerações sobre o sonambulismo

5 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVI - Não se pode servir a Deus e a Mamón - Instrução dos Espíritos - Desprendimento dos bens terrenos, item 14.

6 O Livro dos Médiuns - Segunda parte - Das manifestações espíritas, cap. XXVI - Das perguntas que se podem fazer aos Espíritos - Sobre a sorte dos Espíritos, 22a.

7 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. VI - O Cristo consolador - Instruções dos Espíritos - Advento do Espírito de Verdade, item 7.

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