Sobre o perdão e a mágoa
886. Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus?
- "Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas."1
1. Qual o meio prático mais eficaz para perdoar as ofensas que nos são feitas?
- "O melhor e mais excelente meio de perdoar as ofensas que vos são feitas é interditar o acesso a toda mágoa em vossa intimidade, protegendo-a desse invasor que vos roubará a paz e comprometerá vossa saúde, desde que se aloje em vosso coração.
Não protegeis vossos lares utilizando-vos de todos os recursos que tendes à disposição, para evitar que roubem vossos pertences, ou vos maculem o corpo que desejais manter a salvo de qualquer violência? Por que não deveríeis cercar de maiores cuidados ainda o vosso Espírito, que é a vossa essência mesma?
Selecionais cuidadosamente o que ingeris para manter ou restabelecer a saúde do corpo, fazei o mesmo com a vossa alma, pois sois os guardiães de vós mesmos e nada vos obriga a abrir vosso coração à mágoa ou ao ressentimento.
Alimentais-vos do que vos apraz, do que amais, como dizeis, e evitais o que não vos dá satisfação, por que amaríeis vos alimentar das ofensas que vos são feitas, se vos causam tantos males?
Vede que usais a inteligência e a razão nos cuidados do corpo e dos bens materiais, utilizai-vos delas também na seleção do que julgais útil e proveitoso para vossa alma; protegei-a, lançando mão de todos os recursos que tendes à disposição, com sabedoria, e salvaguardareis vossa intimidade dos assaltos externos.
No olhar para o vosso próximo, nas relações que estabeleceis com amigos ou desconhecidos, buscai ver sempre o que há neles de origem divina, e tereis assim a melhor parte; e, se algum deles vos ofender, tereis bons motivos para pensar no bem que podeis oferecer como resposta. Considerai que cada criatura oferece somente o que pode dar, e que deixar-se ferir por uma ofensa não é uma necessidade, é uma escolha livre.
2. Compreendemos que evitar que a mágoa nos penetre o coração é a melhor e mais sábia medida. No entanto, o que fazer quando esse veneno já contaminou nossa intimidade?
- Para livrar-vos desse corrosivo que vos macula a alma, lançai mão ainda e sempre dos recursos intelectuais e morais que já possuís, para eliminar de vosso coração, o quanto antes, esse agente fatal. Recorrei a Deus, rogando-lhe com fervor que vos dê forças para libertar-vos do sentimento que não desejais mais agasalhar, e tende certeza de que obtereis o que pedirdes com sinceridade.
Por fim, buscai alimentar o vosso Espírito com o que é digno e amável e, a exemplo do Cristo, oferecei sempre o que tendes de melhor. Que vosso coração seja morada apenas do que é justo e bom, e sereis livres e felizes. Fazei da vossa intimidade um solo fértil onde possa germinar apenas a boa semente, e agradareis assim ao vosso divino Autor."
Santo Agostinho
(Psicografada em 22 de dezembro de 2016.)
Um conto sobre a mágoa
"Em um vilarejo, um velho sábio pregava a seus discípulos a respeito do perdão das ofensas. Dizia ele àquele público atento, que o sentimento de mágoa é um devorador de almas, e mantê-lo dentro de si seria assinar uma sentença de morte, uma morte lenta e muito dolorida.
Então, um de seus discípulos interroga o mestre dizendo: mestre, se esse sentimento é fatal e devora as almas, como posso eu estar aqui ouvindo seus ensinamentos, se carrego comigo, em minha intimidade, um ressentimento há tanto tempo? Pareço bem vivo, e assim estou!
O mestre, com doçura, conhecendo o íntimo de seu discípulo e também a gravidade da questão, lhe respondeu: se alimentas essa fera e a vês crescer em teu seio, sabes que logo ela estará maior que tu. Primeiro, ela irá minar as tuas forças para deixar-te impotente diante dela, mas enquanto cresce ela se disfarça em amor próprio e te adula; assim sendo, não te dás conta de que ela te rouba a vitalidade. Por isso eu te digo: livra-te dela enquanto podes, e verás que um novo ser viverá, uma luz brilhará em teus olhos e serás mais feliz."
Espírito protetor
(Psicografada em 18 de setembro de 2012.)
"Laurent, príncipe Palatino, repreendia o imperador Sigismond2, por que ele, ao invés de matar seus inimigos vencidos, cumulava-os de favores. O imperador lhe respondeu: os inimigos que são mortos não podem mais prejudicar. Tendes razão de dizer que é preciso matar os outros; pois é precisamente o que eu faço quando cumulo de graças um vencido: eu mato nele o inimigo, e faço dele um herói que me ama."3
__________
1 O Livro dos Espíritos - Parte Terceira - Das leis morais, cap. XI - 10. Lei de justiça, de amor e de caridade - Caridade e amor do próximo, item 886.
2 Sigismond de Luxemburgo, nasceu em Nuremberg, a 14 de fevereiro de 1368, e morreu em Luxemburgo, dia 9 de dezembro de 1437. Foi imperador Romano-Germânico de 1433 até a sua morte, além de Rei da Germânia, Hungria, Croácia e Boêmia.
3 Pardon: Dictionnaire des passions, des vertus et des vices, T. 2. Paris, 1777. (Dicionário das paixões, das virtudes e dos vícios.)

DOWNLOAD DO ARTIGO EM PDF