Carta de Allan Kardec a Deus
De um manuscrito, recentemente divulgado1, encontramos a seguinte transcrição de uma prece atribuída a Allan Kardec:
2 Xbre 1866.
Seigneur Dieu Tout Puissant
Plus je médite sur le but final du spiritiste qui est sa constitution en religion, plus je sens mes idées s'éclaircir et le plan se dessiner, sans doute grâce à l'assistance de vos messagers, mais plus aussi je sens combien ce travail exige de calme et de
Si vous me jugez digne, Seigneur d'une telle tâche, faites je vous prie, que je puisse avoir la tranquillité nécessaire. Si les circonstances m'obligent à m'expatrier, je prie les bons Esprits de préparer les voies afin, que je puisse dans ma retraite, me livrer sans trouble à ces travaux. Donnez-moi surtout la santé, ainsi qu'à Amélie.
Quant au lieu de la retraite j'ai en vue Locarno qui me paraît réunir les meilleures conditions, mais je suivrai à cet égard les conseils des Bons Esprits. Il me paraît utile avant de partir d'avoir fait le volume de la Genèse.
Je prie les bons Esprits de vouloir bien m'assister et me donner le temps et les forces qui me sont indispensables. (Fonte: Projeto Allan Kardec.)
A Equipe da Revista Espírita digital fez uma tradução livre da carta acima:
2 de outubro de 1866.
"Senhor Deus Todo-Poderoso,
Quanto mais eu medito sobre o objetivo final do [spiritiste] espiritismo, que é sua constituição em religião, mais eu sinto se esclarecerem minhas ideias e desenhar-se o plano, sem dúvida graças à assistência de vossos mensageiros, mas também mais eu sinto o quanto esse trabalho exige calma e [méditions] meditações sérias.
Se me julgais digno, Senhor, de uma tal tarefa, fazei, eu vos peço, que eu possa ter a tranquilidade necessária. Se as circunstâncias me obrigam a deixar a pátria, peço aos bons Espíritos que preparem as vias para que eu possa, em meu distanciamento, entregar-me sem perturbação a esses trabalhos. Dai-me principalmente a saúde, assim como a Amélie.
Quanto ao lugar do exílio tenho em vista Locarno, que me parece reunir as melhores condições, mas a esse respeito seguirei os conselhos dos Bons Espíritos. Antes de partir, parece-me útil ter concluído o volume da Gênese.
Peço aos bons Espíritos que tenham a bondade de assistir-me e dar-me o tempo e as forças que me são indispensáveis."
Para obter alguns esclarecimentos sobre essa prece escrita a Deus e atribuída a Allan Kardec, nós o evocamos.
1. Caro mestre Allan Kardec, a prece acima foi escrita pelo senhor?
- Sim, fui eu que a pronunciei.
2. No manuscrito constam duas palavras que nos parecem escritas de forma incorreta. Uma delas é spiritiste, que pensamos ser espiritismo; a outra, méditions, que julgamos que o senhor tenha querido escrever méditations, ou seja, meditações. O que o senhor nos diz?
- Ambas as correções que fizestes estão adequadas para o texto. O que quis dizer no lugar em que escrevi spiritiste era mesmo espiritismo e, logicamente, era ao termo meditações que me referia, quando deixei escapar algumas letras.
3. Pelo que está escrito na prece supracitada, o senhor diz que haveria a possibilidade de ser expatriado, e pede a Deus que, se esse fosse o caso, o enviasse para Locarno. Poderia nos explicar essa passagem?
- O peso das nossas atividades e a nossa constituição física debilitada, não correspondente a esse peso, nos levava a pensar ser necessária a mudança de domicílio para que pudéssemos trabalhar com menos interrupções. A mudança de endereço nos parecia, à época, uma boa providência já que me daria o sossego necessário para a realização dos trabalhos empreendidos, e diminuiria alguns compromissos sociais, que nem sempre eram proveitosos como gostaríamos. Ainda que tomássemos todos os cuidados necessários para evitar visitas inoportunas, perdíamos uma ou duas horas de nossos dias com circunstâncias que seriam evitadas com a mudança que tínhamos em mente. Foram essas as razões pelas quais me dirigi a Deus daquela forma.
4. Poderia esclarecer-nos por que tinha o hábito de escrever suas preces a Deus, já que a transcrita acima não foi a única?
- Sim. A elaboração que a escrita de uma carta requer, para que o remetente seja bem compreendido por seu interlocutor, traz como benefício a ampliação e a clareza das próprias ideias com relação ao tema tratado na missiva; isso era evidente quanto às correspondências que mantinha em vida com os homens. Quando escrevia cartas a Deus agia como se me dirigisse ao Rei dos reis, com todo o amor e a veneração que tenho por ele, a quem devia, acima de tudo, dar satisfações da minha missão, bem como pedir sua intercessão para bem realizá-la.
5. O senhor deve ter recebido a resposta do Pai. Poderia nos dizer como a recebeu?
- Pelas inspirações que recebia e pelas comunicações dos bons Espíritos, que nunca me faltaram.
6. Seu exemplo é bastante tocante para nós. Pensamos que seria útil adquirirmos também o hábito de escrever cartas a Deus, pois assim teríamos mais fervor e não faríamos uma prece solta, sem um destinatário certo.
- Sugiro que ajais assim. É preciso que considereis com gravidade os momentos em que vos dirigis a Deus, pois foi isso que nos ensinou Jesus ao recolher-se para orar.
Constituição do Espiritismo em religião
7. Poderia nos esclarecer a respeito dessa frase: "...o objetivo final do Espiritismo, que é sua constituição em religião."?
- Esse objetivo eu entrevi desde que o Espiritismo entrou na via filosófica, com o surgimento do Livro dos Espíritos. É preciso que compreendais o que dissemos em vida a respeito da palavra religião e do seu significado no contexto espírita, que é no sentido filosófico.
Para vos esclarecer melhor a respeito desse assunto, tomo a frase com que iniciei a prece a que vos referis, que é a constituição do Espiritismo em religião. O fruto das minhas meditações naquela época, e a clareza com que observo as coisas agora, como Espírito, permitem ver que a constituição do Espiritismo em religião é o efeito natural e inevitável da prática da lei de justiça, de amor e de caridade, que o Espiritismo coloca como o resumo das leis morais. Bem entendida e praticada por seus adeptos, essa lei inevitavelmente leva à união por laços mais fortes do que a comunidade de cultos e atos exteriores; estes se modificam com o tempo e as circunstâncias, aqueles, tendo suas raízes no coração, são imortais como os próprios Espíritos. Por esse motivo dizemos, com toda a segurança, que será em torno do laço da fraternidade que se unirá a humanidade inteira, sejam os adeptos que a ele chegaram graças às comunicações espíritas, sejam os que para ele foram conduzidos por outros caminhos e que, sem ideias preconcebidas, não fogem da verdade quando a encontram, porque a buscam de coração. Assim sendo, não serão os embates dogmáticos que aproximarão os homens uns dos outros, mas a lei de amor bem compreendida e bem sentida, cuja força há de dissipar as divergências que ainda possam existir entre os filhos do mesmo Deus.
8. O Espiritismo nos ajuda a compreender a extensão desse laço, estendendo-o também ao mundo dos Espíritos, ligando-nos ainda mais ao universo como um todo.
- Sim. A prática da lei de amor ficaria incompleta se não levasse em conta também aqueles que se encontram fora do mundo material.
Religião no sentido filosófico
Reproduzimos abaixo algumas passagens que colhemos nas obras de Allan Kardec e que se referem ao Espiritismo como religião no sentido filosófico.
"Ocupa-te com zelo e perseverança do trabalho que empreendeste com o nosso concurso, pois esse trabalho é nosso. Nele pusemos as bases do novo edifício que se eleva e deve um dia reunir todos os homens num mesmo sentimento de amor e de caridade; mas, antes de o divulgares, nós o revisaremos juntos, a fim de lhe controlar todos os detalhes."2
"Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembleias religiosas deve ser a comunhão de pensamentos; é que, com efeito, a palavra religião quer dizer laço. Uma religião, em sua acepção ampla e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunhão de sentimentos, de princípios e de crenças. Consecutivamente, esse nome foi dado a esses mesmos princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé. É neste sentido que se diz: a religião política; entretanto, mesmo nesta acepção, a palavra religião não é sinônima de opinião; implica uma ideia particular: a de fé conscienciosa; eis por que se diz também: a fé política. Ora, os homens podem alistar-se, por interesse, num partido, sem ter fé nesse partido, e a prova é que o deixam sem escrúpulo, quando encontram seu interesse alhures, ao passo que aquele que o abraça por convicção é inabalável; ele persiste à custa dos maiores sacrifícios, e a abnegação dos interesses pessoais é a verdadeira pedra de toque da fé sincera. Contudo, se a renúncia a uma opinião, motivada pelo interesse, é um ato de desprezível covardia, é respeitável, ao contrário, quando fruto do reconhecimento do erro em que se estava; é então um ato de abnegação e de bom-senso. Há mais coragem e grandeza em reconhecermos abertamente que nos enganamos, do que persistirmos, por amor-próprio, no que sabemos ser falso, e para não darmos um desmentido a nós mesmos, o que acusa mais teimosia do que firmeza, mais orgulho do que bom-senso, mais fraqueza do que força. É mais ainda: é hipocrisia, porque queremos parecer o que não somos; além disso é uma ação má, porque é encorajar o erro por nosso próprio exemplo.
O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objeto, é, pois, um laço essencialmente moral que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não apenas o fato de compromissos materiais que podemos romper à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre as pessoas que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.
Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores; no sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as próprias leis da Natureza.
Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e porque, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da ideia de culto; porque ela desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se quiserem, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; ele não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião pública se levantou.
Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.
As reuniões espíritas podem, pois, ser feitas religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza grave dos assuntos de que elas se ocupam. Pode-se mesmo, na ocasião, fazer preces que em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que por isto as tomem por assembleias religiosas. Não penseis que isto seja um jogo de palavras; a nuança é perfeitamente clara, e a aparente confusão é devida à falta de um vocábulo para cada ideia.
Qual é, pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória; qual o sentimento no qual se devem confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade para com todos, ou, por outras palavras: o amor ao próximo, que compreende os vivos e os mortos, pois sabemos que os mortos também fazem parte da Humanidade." 3
Os grupos espíritas deveriam ser observatórios solidários do mundo invisível
"Assim será com o Espiritismo organizado. Os espíritas do mundo inteiro terão princípios comuns que os ligarão à grande família pelo laço sagrado da fraternidade, mas cuja aplicação poderá variar conforme as regiões, sem que por isto seja rompida a unidade fundamental, sem formar seitas dissidentes que se atirem pedras e o anátema, o que seria profundamente antiespírita. Poderão formar-se e formar-se-ão, inevitavelmente, centros gerais em diversos países, sem outro laço além da comunhão de crença e da solidariedade moral; sem subordinação de um ao outro, sem que o da França, por exemplo, tenha a pretensão de se impor aos espíritas americanos e vice-versa.
A comparação com observatórios que citamos acima é perfeitamente justa.4 Há observatórios em diferentes pontos do globo; todos, seja qual for a nação a que pertençam, estão baseados nos princípios gerais reconhecidos da Astronomia, o que não os torna por isso tributários uns dos outros; cada um regula seus trabalhos como entende por bem; eles compartilham as suas observações, e cada um coloca em proveito da ciência as descobertas de seus confrades. Será o mesmo com os centros gerais do Espiritismo; eles serão os observatórios do mundo invisível, que permutarão o que tiverem de bom e de aplicável aos costumes das regiões onde estiverem estabelecidos, pois o seu objetivo é o bem da Humanidade, e não a satisfação das ambições pessoais. O Espiritismo é uma questão de fundo; ligar-se à forma seria uma puerilidade indigna da grandeza do assunto. Eis por que os centros diversos, que estiverem imbuídos do verdadeiro espírito do Espiritismo, deverão estender-se mão fraterna e se unirem para combater seus inimigos comuns: a incredulidade e o fanatismo." 5
__________
2 O Livro dos Espíritos - Prolegômenos.
3 Revista Espírita, dezembro de 1868 - Sessão anual comemorativa dos mortos.
4 Kardec compara os grupos espíritas aos observatórios da ciência astronômica.
5 Revista Espírita, dezembro de 1868 - Constituição transitória do Espiritismo.

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