A fé precisa ser provada
Alguns amigos de várias localidades se reuniram na casa de um deles para estudar sobre a fé, à luz do Espiritismo. Muitas dúvidas surgiram, e eles recorreram aos bons Espíritos para obter instruções. Numa das sessões, a seguinte pergunta foi feita aos Guias:
1. Qual é o verdadeiro sentido da palavra fé, como a entendia Jesus?
Eis a resposta recebida:
- Fé, fidelis, fidelitas, fidedignidade ao que se conhece; esses são alguns sinônimos do termo fé, que, como a entendia Jesus, em última análise, quer dizer confiança em Deus.1
Quem acredita no que desconhece, tem fé cega. Confiança demasiada no que é obscuro, é fanatismo; acreditar que se conhece mais do que de fato se sabe, é presunção. Quem se conhece e crê em suas forças, confia em si próprio; por isso, para se ter fé em si, é preciso o autoconhecimento. Quem conhece as leis divinas e nelas confia, tem fé porque compreende os caminhos que essas leis delineiam.
A fé raciocinada, aquela que pode encarar a razão face a face, enfrenta-a não como uma disputa, não para propor a sua verdade, mas como uma revisão do próprio conhecimento; ela reflete, confronta a razão, e a razão vai dando outras razões, outros conhecimentos que ampliam a fé. Por isso é que a confiança vai se fortalecendo na medida do conhecimento daquilo em que se crê; numa acepção, a confiança nas próprias forças, noutra, a confiança no caminho que se está seguindo.
2. Quem nos dá a honra?
- Alguém que já teve pouca fé.
3. Considerando-se que a confiança tem gradações e cresce com o entendimento, parece que a vontade também desempenha aí o seu papel.
- Nada se adquire sem que a vontade esteja comprometida. Na medida em que há mais lucidez quanto à sua própria condição, ou quanto ao caminho que se está seguindo, a vontade pode ganhar mais força e o Espírito escolhe, com mais pujança, confiar, pois vontade quer dizer liberdade.
4. Hoje o senhor tem fé?
- Tenho, porque conheço, porque vejo claramente os caminhos por onde sigo, e tenho plena confiança no supremo Legislador do universo. É essa fé que dá ao espírito a calma, a tranquilidade de alma, a certeza de que a observância das leis divinas levam à felicidade eterna.
5. A incredulidade é o que gera a insegurança, os titubeios, pela falta de visão do caminhante?
- De certa maneira, sim. Geralmente confia-se no que se conhece, mas também há a fé cega e a presunção. Um malfeitor determinado, por exemplo, não titubeia. Dependendo da sua vontade de praticar um mau ato, ele o faz sem a mínima dúvida de que logrará êxito. A isso se chama obstinação, e não fé. A fé, como a entendia Jesus, é uma virtude que conduz a Deus, e é ela que possibilita o desenvolvimento das demais virtudes.
6. Poderíamos dizer que a fé é uma força motriz, ainda que por vezes seja cega, mas é o que faz caminhar?
- Sim, mas deve sempre ser esclarecida. A fé cega não é boa. Cego, ao caminhar, corre o risco de cair no precipício.
7. A força que movimenta a fé cega é a mesma que impulsiona a fé racional, ou seja, têm ambas o mesmo princípio?
- Sem dúvida. Você escolhe o caminho, e a força você já tem.
8. É mais ou menos como o princípio originário das paixões: uma força neutra?
- A fé não deixa de estar ligada às paixões ou à vontade. Vede que nossas tentativas são pedagógicas, apenas para facilitar o entendimento, pois não conseguimos separar exatamente, na prática, como as coisas ocorrem. Pensem no Apóstolo dos gentios; a força da sua fé nos preceitos judaicos era tamanha que, quando por uma espécie de intuição percebe as diferenças entre suas crenças e os ensinos do Cristo, consegue compreender melhor, embora cego - que ironia - o caminho que está à sua frente. Passa a usar sua vontade firme primeiro para si, para conhecer-se, e percebe que essa força vinha também das paixões que o animavam - antes viciosas - e luta, transforma-se, para, depois desse processo interno, sair ao mundo espalhando aquilo que ele vislumbrou. Eu fui um dos que foi tocado por ele, pela sua fé inabalável em Deus.
9. O exemplo de quem tem fé lúcida é contagiante, capaz de nos arrebatar. Parece que enxergamos pelos olhos de quem tem fé.
- Sem dúvida. A fé verdadeira se comunica, por isso inspira a confiança a quem ainda não na tem, mas quando se compreende confia-se com mais segurança. Quando víamos os Espíritos, à época do Cristianismo nascente, sabíamos que o que Jesus dizia a respeito do reino dos céus, da imortalidade, era verdadeiro, daí a nossa confiança plena.
10. Poderia nos dizer o seu nome, para o caso de desejarmos evocá-lo futuramente?
- Erasto. Virei sempre que for chamado.
11. Teria alguma orientação, algum conselho para o nosso grupo, especialmente para os que buscam adquirir uma fé como a de Paulo, como a sua?
- O primeiro passo já foi dado, vocês têm buscado o conhecimento, falta-lhes vontade para que a confiança aumente; falta-lhes o autoconhecimento para que a confiança em si, em suas faculdades, aumente. É natural que no começo o Espírito procure menos a si próprio do que o exterior, por isso essa condição atual do grupo. É hora de buscar a verdadeira fé, a confiança, não só no exterior mas em si próprio, o que só se consegue com o autoconhecimento. O caminhar firme, sem titubeio, só se consegue com a vontade firme, com a confiança. Muitos conhecem, mas vacilam diante das montanhas que é preciso afastar, que são as imperfeições da alma.2
12. Nós agradecemos mais uma vez pelo seu apoio e por ter vindo nos instruir
- Deus nos abençoe. Fiquem com o meu abraço.
(Por psicofonia, em 11 de junho de 2009. Grupo familiar.)
No quarto e último dia do encontro, o grupo recebeu a seguinte comunicação:
"É no estudo sério e nas reflexões demoradas que se adquire a fé verdadeira, pela inteligência perfeita daquilo em que se crê.
No entanto, a fé precisa ser provada, sem o que seria mera teoria no intelecto e nos lábios. Nas lutas diárias é que se demonstram a fortaleza, a coragem, o tamanho da confiança daqueles que passam pelas provas escolhidas.
Sabia o Cristo o que lhe esperava; imaginava Giordano Bruno o que lhe poderia acontecer; tinham noção de que os leões os aguardavam, os mártires do cristianismo primitivo; sabia Allan Kardec, inclusive por meio de alertas de seus protetores e de seu Guia, das dificuldades, calúnias, dissensões, traições que sofreria. Sim, estes e tantos outros sabiam que a manutenção de suas posições, de suas opiniões, de seus trabalhos seria às custas de dificuldades e, quiçá, de suas próprias vidas. Mas, entristeceram-se? Amoleceram? Vacilaram? Tomaram caminhos tortuosos? Não! Seus corações ansiavam pelo cumprimento de seus deveres, de seus propósitos e por isso sua fé, sua fidelidade, posta à prova, triunfou. Todos terão maiores ou menores provas, maiores ou menores dificuldades.
Quatro dias de estudos, de reflexões, de conhecimentos, são semeaduras cujos frutos devem ser a fé robusta, a coragem e a resignação, a vontade de caminhar desfraldando a bandeira da caridade, sabendo que as lutas maiores, por enquanto, são aquelas que devem ser travadas nos campos de batalha da própria intimidade.
Daí, meus caros amigos, vale a pena continuar refletindo e descobrindo que em tempos de menores provações, de menores renúncias é que se aprende a trabalhar com as maiores.
Não pensem que farão sozinhos a mudança do mundo, mas o mundo não mudará por si próprio. Comecem por si mesmos, em suas intimidades, em suas famílias, em suas convivências, enfrentando os mais encarniçados inimigos, que são os vícios que ainda alimentam no coração. Desfraldem a bandeira da verdade, mas façam-na tremular dentro de si mesmos; conheçam-se, animem-se para o bom combate, como já dissera outrora o Cristo, e descobrirão que a pequenos passos se faz a grande jornada.
Minhas palavras não devem servir para arrefecer os ânimos, nem a coragem de seus corações, porque, saibam, é também dessas lutas cruentas, dessas batalhas a que me referi, que aqueles que triunfarem saberão reconhecer os benefícios e compreender que acima de tudo nosso Criador nos fez para a vida, para nos aproximarmos dele, e esse caminho é para aí que leva. Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais nosso coração se enche de forças, de fé, de coragem e de alegria também. Por isso, não desfaleçam.
Tenham fé! Chamem seus Anjos guardiães; clamem pela proteção de Deus e, de coração sincero, reconheça cada um as suas dificuldades, mas também meditem sobre suas potencialidades jamais desenvolvidas; usem-nas, transformem-se: essa palavra diz tudo.
Que seus corações se alegrem cada vez mais pela amizade que nutrem entre si, e pela conquista diária da amizade e da simpatia desses bons Espíritos que velam por todos.
Paulo, Apóstolo
(Por psicofonia, em 13 de junho de 2009. Grupo familiar.)
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1 A palavra fé, do fr. foi, vem do latim, fides.
2 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIX - A fé transporta montanhas - Poder da fé.

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