Sócrates - Sobre a felicidade do Espírito
Fazia pouco tempo que havíamos formado o Grupo de Estudos Allan Kardec (GEAK) com objetivo de dedicar-nos ao Espiritismo prático, ou seja, instruir-nos com os Espíritos. Faltava-nos, mais do que hoje, quinze anos depois, a experiência, mas era preciso começar. Na companhia de alguns amigos, também desejosos de instruir-se, estudávamos o capítulo "Da perfeição moral", de O Livro dos Espíritos, parte terceira, cap. XII. Lembrávamos de alguns diálogos de Platão, em que o nobre filósofo evidencia a sabedoria de Sócrates. Não é sem motivo que Allan Kardec os designa como precursores do Cristianismo e, por conseguinte, do Espiritismo.
Em seguida às nossas discussões, evocamos nossos Guias para que nos trouxessem instruções sobre o tema estudado, e também conselhos e orientações. Um Espírito se manifestou e tivemos com ele o seguinte diálogo:
- A oportunidade de conversação é rara e deve ser bem aproveitada.
1. Tenha a bondade de dizer-nos sobre o que deseja instruir-nos.
- Sobre a felicidade do Espírito.
2. Vem em nome de Deus?
- Sim. A ele dedico meu ser.
Observação: esta resposta é simples, direta, concisa e muito profunda que vale uma boa reflexão sobre a quem nós verdadeiramente dedicamos o nosso ser.
3. Desejamos ouvi-lo falar sobre a felicidade.
- A felicidade do Espírito é ser Espírito, e saber que o é. Nesse mundo que habitais existe muita tristeza, apesar dos sorrisos e das brincadeiras; muitos sentem pesadas as provas, que nada mais são do que oportunidade de felicidade para o Espírito. Porém, enquanto encarardes como obrigação o que é deleite, a tristeza permanecerá.1
Para o homem apegado à matéria, os deveres morais que lhe garantiriam uma felicidade futura ainda lhe são pesados, e os gozos materiais que tantas vezes lhe causam dissabores, são preferidos. A busca da instrução, por exemplo, que deveria ser um deleite, porque é fonte de felicidade, para muitos é um fardo pesado demais, enquanto as muitas distrações são buscadas com avidez. Por isso a tristeza, apesar dos sorrisos e das brincadeiras.
4. O senhor é um dos Guias do nosso grupo, ou veio nos visitar?
- Observo, de longe, e oro pelos desenvolvimentos corretos dos vossos trabalhos e também pelo progresso de cada membro do grupo.
5. Conhece Allan Kardec?
- Foi ele que me enviou. Resido no mesmo mundo que ele.
6. Gostaria de dizer-nos algumas palavras sobre o nosso mestre?
- Digo que ele fez o que fez porque sabia que o que fazia era o melhor, e essa certeza preenchia sua vida de sentido. Ele era sério, mas feliz; exausto, mas fiel à sua consciência e à verdade. Ele não pede para ser modelo, mas afirma que sem a consciência do objetivo nobre do trabalho que empreendeis, do sentido que lhe deveis dar, a realização não se sustenta. O desejo dele era ter uma grande equipe, dedicada, esforçada, perseverante. Tendes uma grande equipe, mas dais preferência à amizade; o prazer está mais na convivência do que no trabalho do espírito; o convívio é algo que a maioria dos mamíferos busca, mas só o homem é capaz de aliar o convívio ao trabalho intelectual, proveitoso para si mesmo e ao seu próximo.
Observação: quanta sabedoria nessas poucas palavras. Destacamos: Ele não pede para ser modelo, mas afirma que sem a consciência do objetivo nobre do trabalho que empreendeis, do sentido que lhe deveis dar, a realização não se sustenta. De fato, quantas pessoas se reúnem durante anos, apenas pelo prazer do convívio, ou por uma obrigação imposta mais pelo costume do que por uma preocupação com o próprio progresso.
7. Qual seria o melhor meio, para o nosso grupo, de divulgar o Espiritismo?
- A internet é o meio capaz de fazer o Espiritismo chegar àqueles que realmente farão a diferença, mas existem outros meios. Se Allan Kardec estivesse aqui, reencarnado, construindo o Espiritismo, usaria como principal meio de divulgação a internet, para esclarecer mais a questão.
8. Se desejarmos evocá-lo, para nos instruir, como poderemos fazê-lo?
- Pensem em Allan Kardec e o evoquem, ele mesmo virá, ou enviará aquele que poderá ajudar da melhor e mais oportuna maneira. O grupo precisa de felicidade profunda, real, possível num mundo como este; somente o estudo, a construção da sabedoria permite ao Espírito sentir-se bem.
9. Poderia indicar-nos um meio de vencer a inércia vigente no grupo? Como desenvolver o gosto pelo estudo, pelo conhecimento, pela virtude, apenas por amor ao bem, e não por outro motivo qualquer?
- Meus alunos mais brilhantes pregaram a minha filosofia; um deles ordenou a minha morte. Aprendi, com o tempo, que para tocar as almas precisamos ser o melhor que pudermos, e mesmo assim muitos se desagradam: ciúme, inveja, medo do que desconhecem. O Espírito que habita esse planeta ainda tem extremas dificuldades de apreciar a verdade e de ser tocado pela virtude. O Espírito que se comunicará depois de mim entende de outra maneira. Eu sou um filósofo e acredito no livre-arbítrio; ele, um empreendedor, um administrador, ainda crê na motivação.2
10. O senhor é Sócrates, filósofo de quem falávamos há pouco?
- Sim.
11. Nós admiramos muito o seu trabalho, a sua vida exemplar.
- Meu trabalho e minha vida estão no passado, e eu desejo que me busquem no futuro; quero conviver com vocês no mundo onde vivo, onde vive Allan Kardec, Buda, entre outros; trata-se de um planeta que chamo carinhosamente de sol, mesmo sabendo que não o é, mas é assim que o vejo. Lá sou pleno, sou Espírito, sou vida; eu plano, vejo a natureza mais bela que há; tem algo que se assemelha à água deste mundo, cristalina, refletindo o colorido de tantos verdes, de tantas tonalidades e cores que o olho humano não consegue ver. No mundo que habito não há pai, não há mãe, somos todos irmãos, livres; apenas olhar, pensar no outro ou sobre ele nos dá calor, e uma sensação de completude que não consigo descrever; lá existe ainda a brisa, fresca, suave, sentimos um calor agradável, uma sensação mais terna e profunda do que os melhores prazeres que o corpo pode propiciar na Terra. No mundo que habito nós nos instruímos, buscando sempre a unidade divina, ou seja a lei de amor; lá não há cansaço, somente harmonia e felicidade.
12. Poderia esclarecer-nos sobre os Espíritos que seguiram sempre o caminho do bem, e em que parte da escala espírita nós poderíamos incluí-los?
- Os Espíritos que sempre seguiram o caminho do bem são raros. São Espíritos cuja origem demonstra o quanto Deus, fonte geradora de tudo o que existe, é misterioso ao criar, e por dar ao Espírito total liberdade dentro do que lhe concerne. Aqueles que escolhem, quando podem escolher, apenas o bem, são tão raros quanto aqueles que escolhem, quando podem escolher, apenas o mal.3 Todavia, esses seres, mesmo sendo uma minoria, são em número quase infinito considerando-se a grandeza do Universo. No entanto, se eles existem, é razão suficiente para demonstrar que Deus é plenamente justo, pois se não houvesse a possibilidade de erro e de acerto em nossas decisões, não seríamos seres livres, e Deus não seria justo.
A escala espírita foi construída para auxiliar evocadores e médiuns a compreender a natureza dos Espíritos que se comunicam. Allan Kardec, ao realizá-la, privilegiava essa necessidade; mas, por outro lado, ao fazer a classificação, ele deixou ali a possibilidade de se colocarem também os homens, enquanto Espíritos vivendo na Terra; esse mundo não é próprio para Espíritos que seguiram sempre o caminho do bem absoluto, tampouco para Espíritos que seguiram o caminho do mal absoluto. Existe a possibilidade de Espíritos do último grupo viver aqui, em tese, mas do primeiro não; a Terra é própria aos Espíritos em expiação ou provas, e são poucos os que estão aí em provas; a grande massa de Espíritos que habita esse planeta expia as faltas cometidas por decisões voluntariamente baseadas na maldade. Todavia, se desejardes inserir na escala espírita o grupo de Espíritos que seguiu sempre o caminho do bem absoluto, haveria a necessidade de reformulá-la, incluindo a ignorância total em relação às ciências, aos vários saberes, mas que tomaram as decisões corretas, diríamos: a ignorância e o bem.
Posso esclarecer alguns pontos da resposta, mas preciso de perguntas diretas, pois meu pensamento não consegue ser totalmente captado e transmitido pontualmente pelo médium, por isso é melhor e mais fácil com as perguntas.4
13. Poderia nos falar sobre item 25 de O Livro dos Espíritos5, quanto à afirmativa de que o espírito se une à matéria para intelectualizá-la? Como podemos entender essa intelectualização, se é esse mesmo o termo?
- Eu precisaria servir-me de outro médium, pois a resposta fixada neste cérebro é a resposta do Espírito que já a deu.6 Existem outras possibilidades, que não diferem radicalmente da explicação dada, mas, como na outra oportunidade em que a resposta foi dada, ela se fixou no cérebro do médium, não há nos arquivos cerebrais dele a plasticidade que precisaria para discorrer sobre ela; o que importa saber é que a ideia de a união servir para dar atividade inteligente à matéria é correta; o termo usado em O Livro dos Espíritos, no original, significa isso, mas as explicações podem ir além.7
14. Uma jovem que participava da sessão fez a seguinte pergunta: poderia nos dizer se é verdadeira a informação que um Espírito nos deu ontem, quando lhe pedimos? (Tratava-se de uma informação dada sobre um Espírito que na Terra tinha sido famoso.)
- São estas preocupações que ainda nos afastam de vocês.
15. E o que nos aproximaria?
- A sobriedade e a escolha das perguntas que merecem ser formuladas à vida e a si mesmos.
Observação: essas duas respostas encerram um ensinamento profundo: os Espíritos superiores não perdem seu tempo em alimentar nossas curiosidades vãs, ou com fofocas do além. Eles vêm de boa vontade quando se trata de dar uma instrução solicitada com seriedade e desejo sincero: "Seria fazer uma ideia completamente falsa pensar que Espíritos sérios se comprazem em responder a futilidades, a perguntas ociosas, que nem provam interesse nem respeito por eles, nem real desejo de instruir-se e, ainda menos, que possam vir dar espetáculo para divertir curiosos. Se não o fizeram em vida, não farão depois de mortos."8
Ocorre que formular perguntas com sobriedade ainda é uma dificuldade para muitos estudiosos do Espiritismo, uma vez que somos treinados mais para responder perguntas do que para perguntar.
16. Nós vamos nos preparar mais adequadamente, a fim de que possamos tornar o tempo melhor aproveitado.
- Mas, sem aflições.
17. Nós contamos com suas preces, a fim de que consigamos vencer as nossas imperfeições.
- Contem com elas. Preocupem-se com o que vale a pena, escolham o melhor; tenham uma vida boa, escolham as melhores companhias, leiam os melhores autores; vivam da melhor forma possível esta breve vida, e saiam logo desse mundo. Vinte, trinta, oitenta anos bem vividos mudam o Espírito de tal forma que o torna livre, enquanto que mil anos ou mil vidas mal vividas fazem com que o Espírito permaneça pobre, parado, infeliz. Não depositem as esperanças em vidas futuras; ocupem essa vida para que ela seja um marco, para que seja inesquecível. Assim como o adulto olha para trás e se lembra dos primeiros feitos da puberdade, e como a menina tornou-se moça, ou o menino rapaz, que Deus permita que seus esforços façam com que daqui há alguns anos, ao olharem para trás e recordarem desta vida, desse encontro mais profundo com a verdade que o Espiritismo lhes propicia, vejam-no como um importante marco.
18. As dúvidas são muitas, mas o inusitado da visita nos deixa um tanto perplexos, sem poder concatenar bem as ideias para fazer as perguntas de forma adequada. Nós esperamos contar com outras oportunidades de instrução.
- Pedirei a Allan Kardec a honra de escrever uma dissertação sobre a pergunta a respeito da escala espírita e dar subsídios para seus estudos neste campo. (A dissertação está reproduzida mais abaixo.)
19. Certamente será uma instrução útil para todos nós.
- Parto agora para o meu lar, mas antes digo: filosofar é um estado de alma, uma aspiração do espírito, não há necessidade de diplomas. O diploma não faz o filósofo, no máximo faz um professor de filosofia, um profissional, e esse mundo está repleto de professores. Até logo, almas queridas.
20. Nós lhe somos gratos, e também ao nosso mestre Allan Kardec.
(Comunicação por psicofonia, em 04 de fevereiro de 2009.)
Escala espírita
Sobre os Espíritos que sempre seguiram o caminho do bem
A despeito da reencarnação, um Espírito recém saído da fase que antecede a plena responsabilidade de escolha é como uma criança recém-nascida. Os pais a auxiliam, amparam, educam. Sua docilidade será reflexo da forma com que atende aos conselhos e diretrizes dos pais.
Um Espírito "infantil" não está solto no universo. Recebe influências diretas para o bem ou para o mal. Todavia, podemos garantir que as influências são mais benéficas do que maléficas, porquanto é alma nova e ainda sob supervisão. Não podemos imaginar que um ser, recém criado pelo Supremo Pai, seja deixado à mercê dos maus; mesmo que a ignorância ainda predomine, os bons o amparam.9 Se essa alma nova acata sempre, pelo misterioso livre-arbítrio, os conselhos dos bons, acaba por seguir o caminho do bem; e, ao negar quaisquer influências maléficas, e não optar pelo mal deliberadamente, trilha o caminho do bem absoluto.10
Como a criança, na Terra, que obedece seus pais e, ao escolher seu caminho segue sempre o mais correto é considerada "boa", os Espíritos que transitam do instinto para a instrução, unindo a isso o bom sentimento, podem ser considerados Espíritos benevolentes. Cabe ressaltar que uma classificação nessa transição teria a dificuldade comum aos seres em transição; mas, finda essa caminhada inicial, pautada pelas boas escolhas, o Espírito se encaixa perfeitamente na escala espírita kardequiana: são Espíritos benevolentes11; têm suas escolhas e ações sempre regidas pela vontade do bem, mas ainda lhes falta a ciência.
Espíritos que seguiram o caminho do bem absoluto são raros, assim como raros são os que trilharam o do mal absoluto. No entanto, caso eles não existissem, dificilmente daríamos crédito ao princípio do livre-arbítrio.
Ao sermos criados simples e sem ciência alguma, recebemos, num ato misterioso de Deus, a liberdade. O bem, que é tudo o que conforme à lei de Deus, e o mal, essência da criatura12, fazem parte das nossas possibilidades de escolhas. Se assim é, e se podemos escolher livremente, optarmos por um em detrimento de outro não é nada improvável, desde que é possível.
Sócrates
(Psicografada no dia 05 de fevereiro de 2009, em reunião familiar.)
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1 Em que consiste a felicidade dos Espíritos bons? R. - "Em conhecerem todas as coisas; em não sentirem ódio, nem ciúme, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões que ocasionam a desgraça dos homens. O amor que os une lhes é fonte de suprema felicidade. Não experimentam as necessidades, nem os sofrimentos, nem as angústias da vida material. São felizes pelo bem que fazem. (...)" O Livro dos Espíritos, item 967.
2 Trata-se de um Espírito que disse chamar-se Henry. Ele nos fez ver que a divulgação das obras de Allan Kardec, com o roteiro de estudo, que hoje é o portal do Ipeak, precisava sair do papel, pois fazia quase dois anos que planejávamos, discutíamos, mas pouco avançávamos. Na verdade ele nos deu um "puxão de orelha" e nos fez trabalhar. Hoje as obras de Allan Kardec estão todas disponíveis, e nossos esforços devem convergir para bem aproveitar esses ensinos para progredir moralmente e espiritualmente, a fim de podermos habitar, depois da morte, um mundo melhor do que a Terra.
3 Veja-se: O Livro dos Espíritos - Parte Segunda - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos - cap. I - Dos Espíritos - Progressão dos Espíritos; e O Livro dos Espíritos - Parte Terceira - Das leis morais, cap. X - 9. Lei de liberdade - Livre-arbítrio, item 849.
4 Veja-se: O Livro dos Médiuns - Segunda parte - Das manifestações espíritas, cap. XIX - Do papel dos médiuns nas comunicações espíritas, item 225.
5 O Livro dos Espíritos - Parte Primeira - Das causas primárias, cap. II - Dos elementos gerais do universo - Espírito e matéria, item 25.
6 Trata-se de uma comunicação do Espírito Shen Lung, que trouxe uma resposta a esses questionamentos, psicografada pelo mesmo médium dois dias antes.
7 O termo do francês, utilizado pelos Espíritos na resposta, é intelligenter, traduzido por intelectualizar.
8 Revista Espírita, abril de 1864 - Resumo da lei dos fenômenos espíritas, item 20. Leia-se: O Livro dos Médiuns, cap. XXVI - Das perguntas que se podem fazer aos Espíritos.
9 Veja-se: O Livro dos Espíritos - Parte Segunda - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos, cap. VI - Da vida espírita - Escolha das provas, item 262.
10 Veja-se: O Livro dos Espíritos - Parte Segunda - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos - cap. I - Dos Espíritos - Progressão dos Espíritos.
11 Veja-se: O Livro dos Espíritos - Parte Segunda - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos, cap. I - Dos Espíritos - Escala Espírita.
12 "Oh! Em verdade vos digo, cessai, cessai de pôr em paralelo, na sua eternidade, o Bem, essência do Criador, com o Mal, essência da criatura. Seria criar uma penalidade injustificável. Afirmai, ao contrário, o abrandamento gradual dos castigos e das penas pelas transmigrações e consagrareis a unidade divina, por meio da razão unida ao sentimento." PAULO, APÓSTOLO. (O Livro dos Espíritos, item 1009.)

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