Da procrastinação entre Espíritos e homens1
Num grupo que se ocupa com a cura de obsessões, seus membros comentavam sobre a possibilidade de um Espírito obsessor, após ter-se arrependido e abandonado sua presa, cair novamente no erro, mesmo estando sem os entraves que o corpo material poderia oferecer ao seu Espírito. Após os comentários, o grupo recebeu as seguintes comunicações:
I
Caros amigos,
É a primeira vez que me comunico em vosso meio, embora já tenha vindo às vossas sessões algumas vezes, sempre a convite de caros amigos que se interessam, no mundo espírita, pelo estudo das obsessões, e que de perto assistem aos trabalhos que realizais. Venho hoje, atendendo ao convite que me foi feito pelo sábio Albert, que me pediu para compartilhar algumas das experiências que tivemos na prática diária das curas das obsessões, conforme nos dedicávamos em nosso tempo.
Quando formamos o grupo em Marmande éramos muito poucos no mundo físico; alguns dos membros já possuíam conhecimentos do Magnetismo, e até mesmo dominavam com maestria essa arte e a aplicavam à cura das enfermidades, mas sem obter sucesso em alguns casos, especialmente naqueles cuja causa do mal, conforme descobriu-se mais tarde, era a obsessão. O que nos unia era o desejo sincero de aproveitar as luzes da nova ciência para aliviar nossos irmãos sofredores, e nos instruir enquanto prestávamos um serviço.
Nosso grupo era dirigido com firmeza e simplicidade pelo nosso caro amigo Dombre, a quem muito devo. Graças à sua sabedoria ele iluminou, com o próprio exemplo, a trajetória de todos os que o rodeavam; ele hoje se soma a nós, feliz por ver este grupo curador entregando-se a esta ordem tão especial de trabalhos, tal como outrora nos entregávamos, e por terdes vos inspirado em nosso grupo, graças aos artigos que o mestre Allan Kardec publicou em sua Revue.2
Naquele tempo, reuníamo-nos diariamente, salvo algumas raras exceções, conforme as circunstâncias, e evocávamos com grande frequência os Espíritos imperfeitos para moralizá-los. Lembro-me com grande alegria das conversões que tivemos a honra de acompanhar: naturezas brutas, seres ignóbeis, Espíritos maliciosos, maus, eram evocados, socorridos, moralizados; nossa maior alegria era vê-los mais felizes quando o arrependimento lhes tomava a alma. Em semelhantes ocasiões, orávamos todos juntos, profundamente comovidos, felizes mesmo, uma vez que a cada Espírito que se arrependia, pelo menos dois de nossos irmãos - um encarnado e outro errante - poderiam ser mais felizes.
Muitas vezes éramos feridos de diversas maneiras por aqueles que, dos dois lados da vida, se opunham ao exercício da nossa tarefa, e isso também nos ensinava a sermos melhores cristãos, a oferecer a outra face, a exercitar a indulgência e a caridade; aprendemos, assim, a ver que a mão que nos fere é sempre necessitada de compaixão, e que a melhor defesa não é o ataque, mas o enobrecimento da alma pela depuração de sua natureza, pela sua espiritualização.
Agora, é com certo pesar que vos digo que alguns dos Espíritos que tivemos a oportunidade de auxiliar permitiram-se voltar à trilha habitual de suas antigas torpezas. Isso geralmente ocorria com aqueles cujo arrependimento não tinha sido suficiente para modificar-lhes profundamente o caráter. Hoje vejo que alguns daqueles que um dia se ajoelharam, implorando o perdão de Deus, lentamente se deixaram abater pelos próprios vícios, seja como Espíritos, na erraticidade, seja como homens, quando retornaram à Terra numa nova encarnação.
Embora poucos, infelizmente alguns recaíram, e não me refiro a uma retrogradação, ideia incompatível com as leis de Deus, mas a um retorno à via que lhes era habitual, porque o bem não lhes chegou a ser de fato uma verdadeira conquista. No entanto, nem sempre os ex-obsessores puderam voltar a atormentar aqueles que antes perseguiam, graças aos esforços que estes últimos empreenderam para se transformar e verem-se livres.
Embora os Espíritos sejam de fato mais suscetíveis à moralização do que os homens, porque estão livres do corpo grosseiro, em muitos deles ainda prepondera uma procrastinação difícil de ser superada, vestígios do homem velho como uma sombra que lhes segue sem cessar; a visão da luz lhes comove por certo tempo, os sábios conselhos que recebem são objeto de algumas superficiais reflexões; o desejo de algo melhor até lhes invade a alma por certo período, mas tudo isso pode ceder, frente à inconstância de seu próprio espírito; em semelhantes casos, a felicidade eterna é adiada em prol de fogos fátuos, de prazeres pequenos e fugidios.
E se a recaída se verifica entre os Espíritos, o mesmo se dá, e ainda com mais frequência, entre os homens, conforme também pudemos notar em nosso tempo. Alguns homens cujo sofrimento fora aliviado pela divina Providência, se voltaram contra a poderosa mão invisível que os curou da obsessão; como punição para a dureza de seus corações, voltaram a experimentar males semelhantes ou até mesmo mais acerbos que os anteriores, com a finalidade de ajudá-los a se desgostarem de suas deformidades.
Digo-vos, amigos, por fim, que disso tudo Deus tira um bem, ensinando a cada uma de suas criaturas o valor sagrado da oportunidade, mostrando-lhes que sua justiça é misericordiosa, mas não é cega, e que a cada um é dado conforme as suas obras, assim na Terra, como no Céu.
Considero que ainda hoje a cura das obsessões é uma atividade tanto necessária quanto sagrada, e que deve ser conduzida com toda a seriedade, caridade e constância, porque assim se pode contar com a assistência dos bons Espíritos, e renderá os melhores frutos para todos os envolvidos.
Outrora eu não fora designado por meu nome, que desapareceu para que apenas os Espíritos tivessem voz, e de fato a nossa pessoa é insignificante em face de tão importante obra, como é a do Espiritismo. Despeço-me, não sem antes dar a cada um de vós um aperto de mão.
Aquele que foi, na Terra, médium do Grupo de Marmande.
(Psicografada em 22 de junho de 2017.)
II
Meus amigos,
Entrevendo mais facilmente e, porque não dizer, mais claramente o futuro que se lhe apresenta tão positivo quanto o presente, mais prontamente encontra o Espírito razões para progredir e subir os degraus que o separam da suprema felicidade. No entanto, se alguns Espíritos aproveitam-se da luz para iluminar o próprio caminho, por mais longo que lhes pareça, outros há que se desanimam em face da extensa rota que se abre à sua frente; admiram a luz, bendizem-na, beneficiam-se dela aqui e ali, realizando certos reparos em seu comportamento, mas em virtude de uma grande moleza e de uma perniciosa insegurança, preferem estacionar a progredir; admitem que um dia chegarão ao objetivo de se tornarem puros Espíritos, mas o temor de perder o que consideram certas regalias, e gozos tão simplórios, os paralisa. Essa última classe de Espíritos é bem numerosa em vosso mundo; a neutralidade é sua marca preponderante, uma vez que de ordinário já não se comprazem com o mal, mas também não conhecem as alegrias que o bem constantemente praticado proporciona. Tais Espíritos veem, ouvem, percebem a felicidade dos bons Espíritos, e ainda assim entregam-se à procrastinação, que não raro se associa a um cortejo de vícios, tais como a inveja da felicidade de que não desfrutam, uma admiração que não se transforma em emulação, e uma fraqueza que os leva a entregarem-se aos seus maus hábitos.3
Muito embora vislumbrem o futuro, falta-lhes uma fé racional capaz de ajudá-los a suplantar as más paixões, os preconceitos, e às vezes um fanatismo que os impede de apreciar corretamente as coisas e a não sondar as causas de sua desdita a fim de eliminá-las.
Entre os homens, a procrastinação muda um pouco de figura, mas as causas são as mesmas; havendo entre eles e o mundo dos Espíritos o véu da invisibilidade, a incerteza do futuro os faz vacilar, e mais facilmente deixam-se absorver pelos seus hábitos materiais, mais facilmente correm o risco de se distraírem. Esses ainda não compreendem que a encarnação num corpo material deve servir-lhes de meio de progresso, com o auxílio do qual devem fortalecer em seu Espírito uma vontade esclarecida e ativa. Percebendo-se Espírito, lembrando-se que o é, identificando-se com o mundo invisível que pulsa com intensa vitalidade ao seu redor, e do qual ele faz parte, pode o homem encontrar forças, razões e coragem para vencer a moleza que o separa de seu destino, que é ser Espírito livre e feliz.
Sócrates
(Psicografada em 14 de julho de 2017.)
"O homem que crê, mas quer conciliar com a fé seus interesses temporais, seu amor do repouso, suas esperanças de fortuna, teme as verdades que o inquietam em seus gozos e lhe prescrevem uma coragem e uma abnegação que ele não quer praticar. Para tranquilizar-se ele se esforça para afastar essas verdades de suas vistas e de sua lembrança; ele diz, antes de tudo e sem exame: isso não é verdade. Só pelo fato de ter dito isso uma vez ele continua a afirmá-lo; acolhe com entusiasmo os ruídos mais ridículos e os menos fundados, quando estes apoiam o seu erro. A todo custo ele quer não crer, e faz partidários de sua incredulidade para repousar com mais segurança em sua ilusão e seus gozos." (...)4
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1 A palavra procrastinação é formada pela união de dois termos de origem latina: pro, que quer dizer "a favor", "partidário", e crastinus, que significa "do amanhã". Procrastinar, portanto, significa tendência a adiar sistematicamente as ações para um futuro incerto.
2 Veja-se: Revista Espírita de junho de 1864 - Cura da jovem obsedada de Marmande e outros artigos relacionados às curas de obsessões feitas pelo Grupo curador de Marmande.
3 Veja-se: O Livro dos Espíritos - Escala Espírita - Terceira ordem - Espíritos imperfeitos, item 105.
4 Le passé et l'avenir expliqués par des événements extraordinaires arrivés à Thomas Martin, laboureur de la Beauce. Paris, 1832. (O passado e o futuro explicados por eventos extraordinários ocorridos a Thomas Martin, trabalhador de la Beauce.) Citado por Allan Kardec na Revista Espírita de dezembro de 1866.

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