Instruções dos Espíritos
Sobre o egoísmo
Em nossos estudos sobre o egoísmo1, um dos membros comentou que seria difícil pensar em auxiliar o próximo enquanto precisamos cuidar de nós mesmos, de nossa própria conservação, já que precisamos viver. Outro membro perguntou qual seria a melhor maneira de desenvolver o amor ao próximo, a caridade, que é o oposto do egoísmo. Pedimos aos nossos Guias que nos trouxessem instruções sobre o tema estudado, e recebemos o que se segue:
Meus bem amados.
Perguntais qual é a ciência de amar; qual a maneira pela qual faríeis brotar em vossos corações o sentimento ardente do amor e da caridade. Vejo os esforços que fazeis para acender pequenas faíscas a fim de que este fogo aqueça vossas almas. E digo que, quanto mais gelado o coração, pelo egoísmo e pelo orgulho, mais difícil será de acender esse fogo. Na procura das razões que fariam com que o amor brotasse, muitas vezes vos perdeis em elucubrações, esquecidos das ações que dariam essas razões. As questões do coração demandam habilidades que a razão muitas vezes desconhece. Pensa-se em dar coisas; mas, o que deu o Cristo quando esteve na Terra? Que bens distribuiu ele àqueles que o buscavam? Digo-vos: nenhum, pois nada tinha.
A viagem interior deve ser buscada com o objetivo de fazer com que dali se saia mais caridoso, quando no trato com o semelhante, enxergando os meandros do egoísmo, as facetas do orgulho, investindo esforços continuados para domá-los e, oxalá um dia, extirpá-los.
Pedis conselhos e eu vos dou um: começai pelo olhar. Tentai; esforçai-vos para olhar todos os homens com caridade; usai da indulgência, se forem faltosos; se vos ferirem, usai do perdão. Sede benevolentes para com todos: sejam aqueles mais distantes ou os que estão mais próximos aos vossos corações. Não se dará passos largos sem que antes as pernas se encontrem fortalecidas pelo engatinhar, pelos pequenos tombos, se for o caso, e pelo levantar-se. Começai então pelo olhar, meus amigos, mas começai: eis o conselho que vos dou.
- Quem nos fala?
- Pascal. Recebam o meu abraço.
Posso ainda, por alguns instantes, confabular convosco. Se tiverdes alguma pergunta, tentarei responder.
Uma vez que vivemos numa sociedade em que poucos são os que pensam primeiro nos outros antes de pensar em si, como faria um homem de bem, como cuidar primeiro do interesse do próximo sem descuidar dos nossos interesses pessoais?
- Crede-me, não deixareis de cuidar de vós ao olhar alguém de forma caridosa; de perceberdes no outro, não o que ele é, mas o que ele poderá e virá a ser: esse é um primeiro passo.
O equilíbrio é importante, obviamente, mas chegará o momento em que, a despeito de vossas próprias vidas, quando soar o momento da provação maior, escolhereis o outro mais do que a vós, mas isso requer uma preparação prévia. Chegará o dia em que agireis como o Cristo, como os mártires de todas as ideias que, por amor ao próximo, por amor ao ideal, deixaram-se imolar por saberem que nesses casos suas vidas eram menos importantes; não chegareis lá hoje, nem amanhã, sem começar pelo olhar. No esforço de observar o outro de maneira diferente encontra-se no coração impulsos de, ao perceber o indivíduo necessitado, independentemente do tipo de sua necessidade, vê-lo no que ele poderá tornar-se, no que virá a ser, Espírito puro, filho de Deus que é. É assim então que o coração encontra as razões para auxiliá-lo a tornar-se o que ele deve ser; é uma espécie de fé no outro, se posso me utilizar de um tema recorrente em vossos estudos.
- Parece que aí está o nosso maior desafio.
- Desafio compensatório, posso vos afirmar.
Meu tempo se extingue, mas antes de partir faço votos que possais enxergar vossos semelhantes no que eles poderão ser. Olho-vos, meus caros, e vejo-vos Espíritos, lá na frente, caminhando livres pelo Universo, pelas moradas do nosso Criador. É por isso que virei quando chamado, e vos auxiliarei no que puder.
- Pedimos a Deus que o recompense por isso, caro amigo.
- Que ele nos ilumine a todos, e que possamos unir-nos em torno das suas leis e agirmos de acordo com a sua vontade.
- É o que nós também desejamos.
(Por psicofonia, em 05 de julho de 2009.)
"A origem do mal está no egoísmo e no orgulho; os abusos de toda natureza cessarão por si mesmos quando os homens se regerem pela lei de caridade." Allan Kardec2
Onde há egoísmo não há fraternidade
Em outro grupo foi lido e comentado sobre o problema moral publicado na Revista Espírita de outubro de 1858, intitulado "Assassinato de cinco crianças por uma criança de doze anos". Uma senhora, membro do grupo havia preparado algumas perguntas a serem feitas ao Anjo guardião de seu filho adolescente, a respeito da sua indiferença com o próximo e sua tendência ao isolamento. Além das respostas dadas especificamente às perguntas da mãe, a seguinte dissertação foi ditada espontaneamente:
O panorama que observais em vosso mundo, onde tantas vezes a falta de preocupação com o próximo ressalta em todas as camadas sociais, é efeito do egoísmo, uma das chagas que corrói sem se deixar perceber por aquele que o agasalha na intimidade.
Quando dissemos, alhures, que o egoísmo é sugado com o leite3, víamos o quanto esse vício fazia, e ainda faz, parte dos hábitos, tidos como naturais e aceitáveis por aqueles que são incumbidos da educação da criança. Esse mal deve ser colocado a descoberto e extirpado pela raiz, especialmente do coração do espírita, para que não produza novos rebentos e gere mais frutos de sabor amargo, sabor esse que a grande maioria dos habitantes da Terra já experimentou.
O exemplo, meus amigos, é o melhor meio de ensinar virtudes de maneira eficaz; assim, é preciso observar cada movimento da alma, cada ação levada a efeito no dia-a-dia diante de expectadores tão atentos, que são as crianças, Espíritos que já trazem suas próprias tendências e inclinações, tantas vezes marcadas pelo egoísmo. Fazer amar a virtude e odiar o vício, ainda que este seja aparentemente pequeno, é tarefa a que os pais devem se dedicar, se quiserem ver brotar a semente da verdadeira fraternidade que garantirá condições melhores a quem habita esse mundo de expiação e de provas. No entanto, sem caridade não há fraternidade; atentai, pois, para esse ponto dentro dos vossos lares, em vossas conversas habituais, em vossas escolhas, e questionai: que frutos dará esta conduta, este pensamento, este comentário? Se a resposta for a de que os frutos serão bons e promoverão uma boa consciência, então estareis fazendo uma boa sementeira para o futuro.
Lembrai-vos de que não sois observados apenas por aqueles que tendes ao vosso lado no corpo físico, e que podeis dar bons exemplos de virtude também aos Espíritos imperfeitos que se aproximam de vós, nem sempre com boas intenções; atraireis assim os bons e repelireis os maus pela vossa boa conduta, e a presença constante dos bons, o que é desejável, trará benefícios em todos os sentidos. Assim a educação se fará em melhores condições, porque o ambiente doméstico estará saturado de bons pensamentos, tornando mais fácil perceber quando o egoísmo se insinuar, e dará mais forças para fazê-lo calar-se a fim de que a fraternidade possa surgir com mais vigor e constância.
Allan Kardec
(Psicografada em 27 de março de 2017.)
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1 O Livro dos Espíritos - Parte Terceira - Das leis morais, cap. XII - Da perfeição moral - O egoísmo; O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XI - Amar o próximo como a si mesmo - Instrução dos Espíritos - O egoísmo.
2 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVI - Não se pode servir a Deus e a Mamón - Desigualdade das riquezas.
3 Revista Espírita, fevereiro de 1864 - Primeiras lições de moral da infância.

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