PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Instruções de Allan Kardec sobre a prece e a evocação dos Espíritos
01 / DEZEMBRO / 2021

Instruções de Allan Kardec sobre a prece e a evocação dos Espíritos

 

   Num grupo que se ocupa de Espiritismo prático, Allan Kardec fora evocado para trazer algumas instruções. Assim que a evocação foi feita, um Espírito hipócrita tentou se passar por ele, mas foi descoberto já nas primeiras palavras. Kardec foi evocado novamente, mas o médium estava com dificuldade para ouvir o Mestre. O grupo fez então uma prece fervorosa a Deus, e o evocou uma terceira vez. Foi só na terceira tentativa que, pela natureza das respostas, o Espírito evocado pareceu comunicar-se, o que justifica as instruções dadas por ele ao longo da conversa.

   Evocação.

   - Estou aqui.

   1. Quem nos fala?

   - Allan Kardec. 

   2. Nós desejamos ouvi-lo em nome de Deus, e sabemos que o senhor pode nos instruir.

   - Sim, e aqui me encontro desde o primeiro chamado.

   3. Enfrentamos algumas dificuldades para ouvi-lo, mas sabemos que o senhor pode nos ajudar a superá-las, e mesmo a evitá-las no futuro.

   - Por vezes, ainda vos dirigis aos Espíritos como se eles fossem entidades abstratas, o que faz com que nem sempre vossos pensamentos estejam inteiros na evocação; isso faz com que o laço entre médium e Espírito não seja tão forte como poderia ser sem esses preconceitos que ainda vos fazem pensar em nós, e a nós vos dirigirdes como se fôssemos de natureza diferente da vossa. Essa também é uma das causas pelas quais nem sempre vossas preces são tão eficazes quanto poderiam, se as fizésseis conscientes de que vos dirigis a vivos; a ideia que tendes do mundo dos Espíritos sofre ainda com alguns desses preconceitos.

   Agir assim é considerar o mundo dos Espíritos como quem assiste a um teatro dentro da própria mente, e não como quem dialoga com seus pares. Levai em conta que a prece é a comunicação do pensamento, e que, quando orais a um Espírito, com ele dialogais. Não se trata de uma reflexão íntima diante de um personagem imaginário, mas de uma conversa. O fato de nem sempre ouvirdes a resposta com clareza, não deve servir para que creiais que vosso interlocutor existe apenas em vossa imaginação; fazer isso seria tornar a prece um ato inútil, e agir como os romancistas que elaboram diálogos mentais para suas personagens, e não como quem deseja verdadeiramente sair de si mesmo e conversar com aqueles que são seus iguais, ainda que estejam estes fora do corpo. Se agirdes bem, quando buscardes uma comunicação espírita - que é como a prece é respondida de modo mais claro, - ela será mais natural, mais desenvolvida, e o complemento material das instruções obtidas apenas pela inspiração.

   Se vos dizemos essas coisas, é porque às vezes vos vemos orando e notamos que por vezes são apenas diálogos mentais que fazeis, fechados em vós mesmos, sem buscar ouvir o pensamento daqueles a quem vos dirigis, ainda que citeis os seus nomes. E se a resposta não vos chega, não é por falta de benevolência da parte deles. Sugiro-vos, como meio prático, que ao vos dirigirdes a nós nos representeis ao vosso lado, como quem se dirige a um interlocutor vivo; vede que diante de um interlocutor encarnado vos esforçais para ordenar o vosso pensamento a fim de explicar-lhe o que sentis, o que pensais e, ao mesmo tempo, aguardais por uma resposta. Portanto, não façais da prece um motivo de elucubrações desarrazoadas, para pensamentos confusos. A prece é um momento em que dialogais, caso contrário ela seria uma simples oração a si mesmo.

   4. Nesse caso, parece que oramos como se o fizéssemos diante de estátuas ou de imagens, com a ideia de que não podem nos responder.

   - Sim, ao trazer a ideia de que o ser representado pela imagem é estático como ela. Ao compreenderes que os Espíritos são os seres inteligentes, individuais, que povoam o espaço fora do mundo material, e dotados, como vós, de um corpo fluídico, sabereis também que falais com um ser real, como o era quando vivo.

 Alguns de vós se permitem, diante de um ser real, apenas pensar alto, falar consigo mesmo, tendo diante de si uma testemunha, sem receio de parecer louco diante desse espectador? Certamente não. Então não deveis agir desse modo na prece, nem quando nos evocais. (Veja-se: O Livro dos Médiuns - Há Espíritos?)

   5. Poderia ser essa uma das causas da falta de interação, da parte dos médiuns espíritas de hoje, com seus Anjos guardiães e demais Guias?

   - Do mesmo erro cometido nas preces acaba por ressentir-se o emprego da faculdade medianímica. Vede que também nesse ponto a mediunidade contribui para expor-vos um problema que antes ficaria oculto; trata-se de um assunto sutil, é verdade, no entanto, guarda ele mais resultados do que supondes. Por isso, nós vos alertamos e desejamos que percebais com mais clareza os Espíritos, sua natureza, e que saibais que ainda tendes certos preconceitos, relativos ao mundo espírita, que acabam por fazer com que ele aparente ser menos real do que o mundo dos vivos. Não se trata apenas do fato de não poderdes ver, ao menos em vigília, esse mundo, já que todas as partes do mundo material, exceto a em que estais em determinado momento, também não são vistas por vós. Todavia, nem por isso desconfiais da sua realidade, mesmo dos lugares que não conheceis; assim também deveis ver o mundo dos Espíritos: nele estão os Espíritos com suas ocupações, muitos agindo sobre vós, uns com más intenções, outros com boas, alguns indiferentes. Em resumo, a realidade do mundo dos Espíritos com toda a sua diversidade não deve ser esquecida, assim como também não esqueceis do mundo material.

"O pensamento do evocador é mais ou menos facilmente ouvido segundo certas circunstâncias?"

- "Sem dúvida alguma; o Espírito chamado por um sentimento simpático e benevolente é mais vivamente tocado: é como uma voz amiga que ele reconhece; sem isso, acontece com frequência que a evocação não chega. O pensamento que jorra da evocação toca o Espírito; se é mal dirigido, toca no vazio. Dá-se com os Espíritos o que se dá com os homens; se aquele que os chama lhes é indiferente ou antipático, podem ouvi-lo, mas quase sempre não lhe dão atenção."1

 

   6. Poderíamos com isso entender que a fé como ensina o Espiritismo, que é a inteligência perfeita daquilo em que se crê, assim o é justamente porque acreditamos piamente naquilo que não vemos, mas que é evidente para o nosso entendimento?

   - Tendes razão em parte ao pensar dessa maneira, já que a fé espírita faz com que tenhais perfeita confiança naquilo que vos feriu, não pelos sentidos físicos, mas pelo senso moral, e é nessa medida que ele requer um certo grau de desenvolvimento; por esse motivo é que o apego aos sentidos materiais, desviando a atenção do senso moral é um verdadeiro obstáculo ao desenvolvimento da fé inabalável.

   7. Parece que ainda temos mais confiança em nossos sentidos físicos do que no sentido espiritual: precisamos ver para crer.  

   - Sim. Há um outro ponto a esse respeito que precisa ser levantado, e que diz respeito à vossa própria vontade. Como encarnados, em geral sois livres para escolher vossas companhias, aqueles a quem buscais e aqueles que evitais, assim também tendes a liberdade no que diz respeito às companhias do mundo dos Espíritos. Não podeis crer que buscareis por boas companhias no mundo espírita apenas quando estiverdes livres do corpo, já que o mundo dos Espíritos não está longe do vosso, mas se confunde com ele numa mistura inextricável. Assim, desde quando ainda encarnados e em vigília deveis ter a vontade de vos encontrar diante de bons Espíritos, das boas almas que fazem a felicidade uns dos outros pelo amor que os une no seio de Deus. Buscai, portanto, vos unir a nós desde já, se desejardes; não aguardeis que a porta de um mundo superior se abra para nele encarnar e só então nos buscar. Nós vos oferecemos nossa assistência e nossa amizade nesse vale de lágrimas; se é verdade que não podemos, nem devemos, fazer cessar todas os vossos sofrimentos, também é certo que somos constantemente acessíveis a todos aqueles que nos buscam. 

   Não creiais que haja momentos de vossas vidas em que não possais estar em relação conosco. Nem mesmo a maior das barreiras físicas, que em vosso mundo é representada pelas prisões, é capaz de impedir nossas relações, e a mediunidade serve de meio para isso.2 Por que então criarem-se barreiras morais? É delas que precisais vos libertar. Pensai quão mais doce seria a vida nesse mundo, se a cada momento cogitásseis do Anjo que vos guarda, e que num olhar de ternura pode vos inspirar melhores sentimentos, e vos reassegurar dizendo: estou contigo!

   8. É por essa mesma razão que os Espíritos imperfeitos não veem os Espíritos superiores muitas vezes, ou se os veem pensam que não podem se aproximar deles?

   - É também pela falta de vontade a que me referi acima. Tudo tendes a ganhar com a comunicação constante com os bons Espíritos: é preciso derrubar as barreiras que apenas em vosso pensamento existem. Credes que só os Espíritos imperfeitos se acotovelam convosco? Pensais que os bons não se importam com os encarnados? Agi de modo a que nossas relações sejam cada vez mais constantes; assim, quando vosso corpo der o último suspiro apenas se romperá a última barreira que atrapalhava a nossa convivência definitiva. Dessa maneira, não tereis que buscar o que antes não tínheis, mas apenas desfrutar de modo mais perfeito daquilo que já buscáveis em vida.

"Graças às comunicações estabelecidas doravante de maneira permanente entre os homens e o mundo invisível, a lei evangélica, ensinada a todas as nações pelos próprios Espíritos, não será mais letra morta, porque cada um a compreenderá e será incessantemente solicitado a colocá-la em prática, pelos conselhos de seus guias espirituais. As instruções dos Espíritos são verdadeiramente as vozes do céu que vêm esclarecer os homens e convidá-los à prática do Evangelho." 3

Kardec está distante da Terra

 

   9. A ideia de que Kardec está distante da Terra e não se prestaria a vir instruir os espíritas que têm a fraqueza de lhe pedir suas luzes, é um preconceito bastante arraigado nos corações de alguns espíritas. Para estes, cogitar de evocar Allan Kardec seria admitir uma heresia. Poderíamos entender que isso é consequência do que o senhor disse acima, ou teria ainda outra razão?

   - Assim como no passado os homens atribuíram aos deuses seus próprios vícios, hoje também o fazem com os Espíritos, os quais, com certa frequência, ainda encaram como os deuses pagãos. Um dos vícios bastante presente nos homens, e que é atribuído aos Espíritos, é o egoísmo. Da mesma forma que muitas vezes os homens egoístas não se importam com o próximo que sofre, e portanto não o buscam, creem que os Espíritos que estão em melhores condições do que as suas agiriam de forma semelhante. Creem que tais Espíritos agiriam conforme gostariam eles próprios de agir: estar longe da visão dos que sofrem, fechados em sua própria felicidade e negligentes do auxílio que poderiam prestar. Pensam que os bons Espíritos, não tendo nos homens nada que os atraia, às vezes só aceitam estar entre eles em missões específicas e ingratas, das quais logo querem se desincumbir. No entanto, os bons Espíritos veem os que sofrem como um pai vê seu próprio filho. Ao vos compenetrardes desse sentimento, que é comum a todos os Espíritos de ordem elevada, compreendereis definitivamente que não estamos longe.

(Comunicação obtida por psicofonia, em 20 de março de 2021.)

 

"Assim como se dá entre os homens, os Espíritos mais adiantados podem instruir-nos sobre muitas coisas, dar-nos opiniões mais judiciosas do que os atrasados. Pedir conselhos aos Espíritos não é dirigir-se a potências sobrenaturais, mas a seus iguais, àqueles mesmos a quem nos dirigiríamos quando vivos: aos parentes, aos amigos, ou a indivíduos mais esclarecidos do que nós. Eis o que importa de que se persuadam, mas que ignoram os que, não tendo estudado o Espiritismo, fazem uma ideia completamente falsa sobre a natureza do mundo dos Espíritos e das relações de além-túmulo."4

   Quando evocamos Allan Kardec para nos dar instruções, ainda no ano de 2014, ao final nós o agradecemos por ocupar-se conosco, e ele respondeu:

   - Não seria certo eu não vir ao ser evocado. Se eu não me comunicasse com aqueles que me chamam, alguns dos pontos mais importantes de tudo o que eu escrevi em minhas obras cairiam por terra, e é o que tentam fazer os adversários. Deixo meu incentivo a todos, e reafirmo que estamos próximos. 

Allan Kardec

(Comunicação por psicofonia, em 16 de agosto de 2014, em reunião familiar.)

 

__________

1 O Livro dos Médiuns - Segunda parte - Das manifestações espíritas, cap. XXV - Das evocações - Questões sobre as evocações, 7ª.

2 Leia-se: Revista Espírita, fevereiro de 1864 - O Espiritismo nas prisões.

3 O Evangelho segundo o Espiritismo - Introdução - I - Objetivo desta obra.

4 A Gênese - A Gênese segundo o Espiritismo, cap. I - Caráter da revelação espírita, item 60.

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