PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Dr. Demeure - Sobre os efeitos da prece e da evocação de certos Espíritos
01 / ABRIL / 2022

Instruções dos Espíritos

 

Dr. Demeure - Sobre os efeitos da prece e da evocação de certos Espíritos

 

   Fazia pouco tempo que tínhamos formado o grupo espírita familiar e havíamos começado a evocar os Espíritos. Tínhamos muitas dúvidas, certamente por desconhecimento do que ensina o Espiritismo, e ainda assim os nossos bons Guias não se negavam a nos dar as instruções que solicitávamos, como até hoje não se negam.

   Queríamos compreender melhor porque a evocação dos Espíritos obsessores lhes é útil, e também como se dão os benefícios que a prece proporciona aos Espíritos sofredores. Para nos instruir, evocamos o bom Dr. Demeure, e ele consentiu em vir.

   Evocação.

   - Meus amigos, estou aqui. Nem sempre a comunicação é tão fácil quanto desejamos, mas sempre vale a pena o esforço das almas que se buscam, pois a recompensa é o júbilo dos corações queridos batendo em uníssono; essa força faz com que queiramos nos buscar cada vez mais, apesar dos vossos afazeres, das vossas tarefas ou dos desvios que ocorrem, não raras vezes. 

   Venho para tentar esclarecer algumas das vossas dúvidas, e espero poder contribuir. Algumas das vossas questões não são passíveis de respostas precisas, devido à limitação da linguagem humana, mas farei o melhor que o cérebro do médium permitir, a fim de que em vigília possais compreender melhor e vos animeis a continuar nos esforços das tão benfazejas preces. Peço-vos a gentileza de ler as perguntas que escrevestes.

   1. Como entender os efeitos que a prece produz no Espírito em favor do qual oramos?

   2. A comunicação pela mediunidade provoca algum efeito benéfico para o Espírito obsessor que é evocado? Se sim, poderia nos explicar?

   3. Como poderíamos melhorar a prática de orar pelos Espíritos que precisam de preces?

   - A última questão é mais fácil, pois já possuís conhecimento suficiente para embasar a compreensão. Obviamente que as respostas à primeira e à segunda questões levam, como corolário, à resposta da terceira, considerando sempre que aquele que ora tenha o coração puro, desenvolva vontade e fé firmes. Então, embora seja a resposta mais fácil, indubitavelmente é aquela que demanda mais esforços, mas é uma ação possível de ser praticada na Terra, sim.

   A prece tem a propriedade de fazer com que, pela vontade, esse pensamento tão especial da alma, a matéria sutil do mundo espiritual, ou fluido espiritual, se adapte, se transforme, se altere. Sendo matéria, o perispírito do desencarnado é passível de influenciação, é passível de receber impressões vindas do exterior. Sendo o perispírito a matéria mais próxima do foco, que é a alma, é ele que mais diretamente recebe e transmite ao Espírito as influências externas e vice-versa.

   No entanto, é importante que entendais que ninguém transforma outrem à sua revelia, senão seria muito fácil para os Espíritos puros, a grande quantidade de Espíritos puros que servem somente a Deus, que o compreendem plenamente, influenciarem com a sua força e pujança os Espíritos imperfeitos, e mesmo os bons, para que mudassem. Pensar que se pode mudar a outrem somente pela ação da prece ou por algumas palavras, é ingenuidade, pois não é assim. No entanto, Deus age por meio das criaturas nas criaturas, para que Sua lei se cumpra. 

   Quando oramos por alguém, duas coisas acontecem: primeiro, iluminamos a nós mesmos; segundo, essa iluminação se transmite através da matéria sutil do mundo espiritual para aquele a quem se deseja ajudar; os fluidos, que carregam informações de bondade, de fé, de esperança, de afeto, de força, de consolo, são transmitidos, via perispírito do Espírito sofredor. Tais informações podem despertar nele sentimentos adormecidos. Lembrai-vos que os sentimentos surgem à revelia da vontade da alma, e é o perispírito que faz com que a alma seja tocada por tais ou quais sentimentos.1

   Para tentar exemplificar com uma metáfora, poderíamos dizer que muitos remédios não acabam com as doenças que acometem o doente, mas fazem com que o corpo produza mais, com sua própria força, agentes que eliminem a doença; daí a Homeopatia usar desses recursos fazendo com que o corpo possa, por si mesmo, apropriando-se dos elementos mais espiritualizados, no caso da homeopatia, curar-se, pois foi provocado, animado a buscar a cura. O mesmo processo se dá pelo uso do magnetismo no tratamento das doenças.

   Voltando para a alma, que é especialíssima em relação ao corpo, mutatis mutandis o princípio pode ser entendido como o mesmo. Não há um elixir da felicidade, não há uma pílula da alegria, mas pode-se, pela prece, ou por técnicas que, claro, levam sempre em consideração as virtudes, a bondade daquele que deseja aplicá-las, fazer com que brotem na alma sentimentos que ela por si só não faria brotar. Desculpai-me se estou insistindo nesse ponto, mas o assunto é deveras importante e carece, da parte dos encarnados, de comparações possíveis. Quanto a esta resposta, tendes ainda alguma questão?

"Ora, o que fazem geralmente os médicos? Eles cuidam do corpo e o curam; mas curam a doença? Não. Por quê? Porque sendo o perispírito um princípio superior à matéria propriamente dita, poderá tornar-se a causa em relação a esta, e se for entravado, os órgãos materiais que se acham em relação com ele serão igualmente atingidos na sua vitalidade. Cuidando do corpo, destruís o efeito; mas, residindo a causa no perispírito, a doença voltará novamente, quando cessarem os cuidados, até que se perceba que é preciso levar alhures a atenção, cuidando fluidicamente o princípio fluídico mórbido. Se, enfim, a doença proceder da mente, do espírito, o perispírito e o corpo, postos sob sua dependência, serão entravados em suas funções, e não é cuidando de um nem do outro que se fará desaparecer a causa.

Não é, pois, vestindo a camisa de força num louco ou lhe dando pílulas ou duchas que conseguirão restituir-lhe o estado normal. Apenas acalmarão seus sentidos revoltados; acalmarão os seus acessos, mas não destruirão o germe senão o combatendo por seus semelhantes, fazendo homeopatia, espiritual e fluidicamente, como fazem materialmente, dando ao doente, pela prece, uma dose infinitesimal de paciência, de calma, de resignação, conforme o caso, como se lhe dá uma dose infinitesimal de brucina, de digitális ou de acônito. Para destruir uma causa mórbida, há que combatê-la em seu terreno." Dr. Morel Lavallée2 

 

   1. Poderíamos dizer que a prece funciona mais ou menos como um abraço de encarnado para encarnado, quando um transmite ao outro informações de bondade e de afeto?

   - Sim. Funciona da mesma maneira, com ou sem abraço. O abraço pode ser a manifestação física de uma prece que se faz por outrem; digo que é uma prece no sentido de querer auxiliar, de querer fazer o outro sentir-se bem.

   Vede que Deus fez a alma de maneira especialíssima: é a de que ela tem em si a lei do progresso, a lei de amor. A alma escolhe o sofrimento porque há a lei de liberdade, mas esta lei não apaga as outras. Pela lei de liberdade outros quererão auxiliá-la e, fazendo uso da lei do progresso, da lei de amor que se encontra na tessitura da alma, faz com que essas fibras diferentes, por favor entendais que é só uma metáfora, essas fibras diferentes vibrem e façam com que, de alguma maneira, o Espírito comece a perceber, racionalmente ou não, o que ocorre, até que se decida livremente por modificar-se, por buscar o porto de salvação. Há, infelizmente ainda, dependendo do grau de endurecimento do Espírito, a necessidade de que as fibras que vibrem sejam as da dor, do sofrimento. Mas, nesses casos, a prece vibra outras que acalmam o sofrimento e fazem, em conjunto com este, com que a vontade mude; daí a missão das grandes almas que, por não quererem ver seus irmãos em sofrimentos desnecessários, intercedem em favor deles por meio da prece. Assim, as preces podem tocar o coração dessas criaturas para o arrependimento, e quanto mais forem aqueles que oram de coração, mais efeitos benéficos farão as preces. Mesmo as almas mais endurecidas, mais cínicas, como a do amigo que amiúde se apresenta entre vós, não ficam incólumes ao poder da prece, por que a lei é imutável, como sabeis, por isso nenhuma prece fica perdida.

 

Observação: trata-se de um Espírito inimigo do Espiritismo que de vez em quando se comunicava espontaneamente em nosso grupo tentando nos convencer a deixar de evocar os Espíritos.

 

   2. O senhor tem acompanhado a cura de obsessão com que temos nos ocupado há algum tempo, evocando o Espírito obsessor, conforme os exemplos de cura que Kardec publicou na Revista Espírita?3

   - Sim, tenho vos assistido sempre, e digo que vós mesmos podeis constatar os benefícios da prece e da evocação dos Espíritos obsessores. No entanto, nem todos os espíritas da atualidade fazem dessa maneira. Muitos agem de boa fé, mas ingenuamente acreditam que apenas uma conversa é passível de mudar um Espírito endurecido e muitas vezes obstinado numa vingança. Obviamente que não é assim. O trabalho que têm feito com o Espírito da Sra. Maria, tanto serve para ela quanto para todos os envolvidos e para vós. É importante salientar que a prece muitas vezes vale mais do que o diálogo, porque os Espíritos obtusos pouco guardam das conversas, mas a alma não consegue não sentir, mais cedo ou mais tarde, uma prece sincera que lhe é dirigida por um coração puro, e  isso faz muita diferença.

   3. Com relação à nossa segunda pergunta, pedimos que o senhor tenha a bondade de nos esclarecer sobre a utilidade que a comunicação pela mediunidade tem para o Espírito obsessor, quando é evocado.

   - Quando o Espírito obsessor, ou apenas sofredor, é evocado por via da mediunidade, há uma espécie de choque, que ele percebe pelo chamado que lhe é dirigido com fervor. Não imaginem um choque como o elétrico, mas é como, fazendo uso de uma metáfora, se alguém que se encontra dormindo e que, de repente, lhe assopram um apito e o acordam, ou chamam-lhe a atenção com uma buzinada, o som de uma sirene, e faz o Espírito olhar para o lado de onde vem o ruído. O chamado faz o seu pensamento sair do círculo em que se encontra, e quebra, ainda que temporariamente, sua sintonia com certos Espíritos para que a estabeleça sintonia com bons que querem auxiliá-lo; faz, finalmente, com que mais diretamente se possa agir sobre ele, inspirando-lhe bons pensamentos. É mais ou menos assim que se dá.

   4. Por isso Kardec ensinou que a prece e a evocação ajudam, não somente na cura das obsessões, mas também os Espíritos recém desencarnados a saírem da perturbação.4

   - Perfeitamente. São as duas possibilidades de quem se encontra encarnado, que outras haveria? O Mestre aconselhava muitos nesse sentido, principalmente depois de perceber a gravidade das obsessões. Não tive, infelizmente, tanto conhecimento dessas influências, quando encarnado, mas se tivesse provavelmente faria mais curas, teria ajudado mais. 

Todos podem auxiliar, orando pelos Espíritos sofredores, pois toda prece sincera é secundada pelos Anjos guardiães e ouvida por Deus. Sabeis que só o egoísta não encontra motivos para ser útil. Muitas vezes, quando tu dormes, conforme tens te lembrado5, ajudas, e sempre que encontramos a boa vontade aceitamos a ajuda. Alguns casos particulares que desejamos atender, de Espíritos que de alguma maneira têm vínculo com alguns membros do grupo, precisam do apoio de pessoas bem dispostas. 

   5. Parece que o fluido do encarnado tem alguma utilidade em certos casos, pois só o fluido dos Espíritos, talvez muito sutil, não seja suficiente. Ou só nos é dada a oportunidade de servir sob a assistência dos bons Espíritos para que nos exercitemos no bem?

   - Tudo em a natureza é sábio. Não ouso sondar os motivos do grande Arquiteto, mas talvez as duas coisas sejam uma só. Por que teriam os Espíritos superiores necessidade de um fluido que não podem, devido à sua natureza já adiantada, produzir, senão como oportunidade para que também aprendam aqueles que o podem?

   Ah! mil vezes graças à sabedoria da natureza, à sabedoria do grande Arquiteto, de Deus! 

   6. O senhor poderia nos dar  notícia do nosso mestre Allan Kardec?

   - Trabalhando incansavelmente. Alma nobre, sabe que os frutos do trabalho servem para os que os utilizam mais do que para a árvore que os produziu. A alma nobre não espera compensações, nem se entristece por ver alguns de seus frutos apodrecerem; trabalha para que novos frutos brotem, talvez de outras árvores, talvez em outros solos; mas reconhece seus frutos, cuida daqueles que poderão germinar novas árvores, torce para que os que recolhem o fruto o aproveitem, e deixa àquele que é o responsável pelo jardim, se o fruto dará sementes e árvores; não questiona, não se ensoberbece pelo fruto, nem se entristece se ele seca. Está longe de nós, ainda, ter tal grandeza.

   Digo-vos que é um dos sentimentos mais difíceis de se livrar, essa melancolia por ver o sofrimento dos outros, por perceber os caminhos errados que tomam as criaturas insanamente; este ainda é um trabalho que tenho feito; mas o grande mestre já superou isso.6 Então, ele é feliz; trabalha, não só por este fruto, o Espiritismo, mas para que o Universo e as criaturas que o habitam melhorem. Compreendem que para um Espírito dessa envergadura o rótulo não faz nenhum sentido? No entanto, ao evocarem o nome de Allan Kardec ele responderá como o fundador do Espiritismo. 

   Despeço-me, caros amigos, mas antes digo que, cada vez que olho o infinito, as estrelas, muitas vezes sinto-me entre elas e não me canso de louvar a Deus, que nos criou.

   7. Nós também queremos amar nosso bom Pai.

   - Ah! Impossível é não amá-lo! Às vezes um pouco bruxuleante, a chama do amor de Deus está sempre acesa, porque é a Sua impressão inolvidável em nós; e, ao olharmos para as estrelas, ela se acende; ao vislumbrarmos o nosso íntimo ela se acende; e, ao amarmos nossos semelhantes ela se acende e brilha... 

   Vida! Vida é um outro nome para Deus. Recebam um abraço carinhoso do vosso amigo Demeure.

8. Receba também o nosso abraço carinhoso, bom amigo.

(Comunicação por psicofonia, 30 de agosto de 2009, em reunião familiar.)

 

Sobre o Doutor Demeure

 

   "O Sr. Demeure era um médico homeopata muito distinto de Albi. Seu caráter, tanto quanto seu saber, lhe haviam conciliado a estima e a veneração de seus concidadãos. Sua bondade e sua caridade eram inesgotáveis, e, apesar da idade avançada, nenhuma fadiga lhe custava quando se tratava de ir cuidar de pobres doentes. O preço de suas visitas não o preocupava; custava-lhe menos deslocar-se pelo desgraçado do que por aquele que ele sabia poder pagar, porque, dizia, este último, na falta dele, podia sempre conseguir um médico. Ao primeiro, não só dava os remédios gratuitamente, mas com frequência lhe deixava com o que prover às necessidades materiais, o que, por vezes, é o medicamento mais útil. Pode-se dizer dele que era o cura d'Ars da medicina.

   O Sr. Demeure havia abraçado com ardor a doutrina espírita, na qual encontrou a chave dos mais graves problemas cuja solução pedira em vão à ciência e a todas as filosofias. Seu Espírito profundo e investigador fez-lhe imediatamente compreender todo seu alcance, assim ele foi um de seus mais zelosos propagadores. Relações de viva e mútua simpatia se haviam estabelecido entre ele e nós por correspondência." Allan Kardec 7

 

__________

1 Veja-se: A Gênese - Os milagres segundo o Espiritismo, cap. XIV - Os fluidos - II - Explicação de alguns fenômenos considerados sobrenaturais - Vista espiritual ou psíquica - Dupla vista - Sonambulismo - Sonhos, item 22.

2  Revista Espírita, fevereiro de 1867 - Dissertações espíritas - As três causas principais das doenças.

3 Trata-se do Espírito de Maria que estávamos evocando há várias sessões, conforme orienta Kardec, na tentativa de ajudá-lo a abandonar a vingança que levava a efeito sobre seu marido vivo. Havíamos pedido ao Dr. Demeure que curasse as feridas da alma de Maria, para que ela abandonasse a ideia de vingança. Ele a ajudou, e em poucas semanas Maria se arrependera.

4 Veja-se: O Céu e o Inferno - Segunda Parte - Exemplos, cap. I - A passagem, especialmente os item 14 e 15.

5 O evocador havia sonhado, dois dias antes desta evocação, que o Dr. Demeure lhe dava instruções sobre o magnetismo, fato este desconhecido do médium.

6 O Livro dos Espíritos - Parte Quarta - Das esperanças e consolações, cap. II - Das penas e gozos futuros - Natureza das penas e gozos futuros, item 976.

7 O Céu e o Inferno - Segunda Parte - Exemplos, cap. II - Espíritos felizes - O Doutor Demeure.

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