Espíritas, amai-vos verdadeiramente uns aos outros?
(Psicografada pela Sra. W. Krell, em março de 1874, em Bordeaux.)1
"Quando volta dos mundos superiores, onde de tempos em tempos o Espírito vai instruir-se e fortalecer-se, ao aproximar-se da Terra ele fica espantado com a discordância, com a dissonância dos pensamentos humanos.
Uma parte da humanidade, o cume, o lado inteligente, quereria marchar ao progresso cuja consequência seria a felicidade geral; as outras partes, preferindo mais ou menos a lama ao azul, regressam, e aí afundam ainda mais, ou não se dão ao trabalho de dar um passo para daí sair. Disso resulta uma luta de ideias que é causa de todas as catástrofes sociais.
Atribuo a falta de harmonia principalmente à primeira parte, ao cume inteligente a que me referi acima, e é a ela que reprocho as perturbações, as agitações na sociedade.
Como esses homens que, mais inteligentes, deveriam ser melhores, esses Espíritos encarnados na Terra para aí introduzir o progresso, não compreenderam que somente o amor os sustentaria, os fortaleceria e lhes daria a vitória? É preciso então que a união, a solidariedade, sejam colocadas à prova primeiro a serviço de causas todas materiais?....
Filósofos de todas as doutrinas que visam ao progresso, se não fizerdes abnegação desse egoísmo que vos prende pouco a pouco, desse espírito de partido que vos mina e vos dilacera como a água dilacera o rochedo, jamais chegareis a conduzir as inteligências para a luz, para a verdade, com o harmonioso conjunto que faz a vida e a prosperidade de um mundo!
Cada um de vós se acredita forte, cada um crê ter contemplado de mais perto o radioso sol de justiça, e cada um de vós, condenando seu semelhante, julgando as ideias com intolerância, repelindo em vez de sustentar, perde suas forças e não mais avança.
Quão triste é esse espírito! À leitura dessas poucas linhas ireis todos recusá-las, e eu gostaria que estivésseis com a verdade, mas, infelizmente, tenho bastante razão para vos falar assim.
Crede, espíritas, vós a quem é dado ouvir as vozes de além-túmulo, vós que aproveitais de dupla experiência e que deveis, que deveríeis ser duplamente bons, acreditais, digo-vos, que minha pequena lição não vos pode ser aplicada?
Sois em pequeno número, e sois sempre exortados pelas vozes amigas, e no entanto.... Amais-vos verdadeiramente uns aos outros?... Não vos distanciais, não vos separais com frequência em vez de vos unir, de vos perdoar, de vos sustentar mutuamente?... Alguns de vós julgam que nós pregamos sempre sobre o mesmo assunto, que dizemos muitas vezes a mesma coisa, e é verdade, mas não é preciso que façamos nosso dever e que ensinemos os mesmos capítulos enquanto não os aprenderdes?... Amigos, eu vos permito dizer que eu sou enfadonho, mas constatai pelo menos que vos quero ver perfeitos, e que, se vos advirto, é para vos impulsionar um pouco mais vivamente a serdes unidos entre vós pela mais sincera, a mais franca, a mais completa fraternidade.
Espíritas, eu gostaria de ver a caridade praticada por vós na sua mais ampla acepção. Gostaria de vê-la completa, sem interrupção e sem nevoeiro. Gostaria que, graças à cordialidade, ao entendimento de seus adeptos, a filosofia espírita atraísse todas as almas bastante avançadas intelectualmente para apreciá-la, todos os espíritos dotados de bastante moralidade para fazer dela mais do que uma bela e admirável teoria.
A harmonia dos pensamentos e dos sentimentos é o superlativo da beleza moral; ora, toda beleza é uma atração.
Vosso dever, caros espíritas, meus amigos, é levar, onde quer que estejais, a paz, a consolação, a esperança!
Pode-se ser feliz apesar das provas, quando se tem em si a força e a satisfação do dever cumprido. Eu peço aos espíritas o que os apóstolos do Cristo pediam aos ferventes adeptos dos primeiros dias do cristianismo. "Que sejam um só coração e uma só alma!"
O segredo do triunfo está aí, e os resultados desse triunfo são muito belos para que vos permitais o mais ligeiro sofrimento ao empreender uma luta com as paixões a fim de obtê-lo."
Pascal.
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1 Do livro Rayonnementes de la vie spirituelle - science et morale de la philosophie spirite. Communications des Esprits. Obtidas pela Sra. W. Krell. Bordeaux, 1876. Traduzida do francês pela equipe da Revista Espírita - periódico de divulgação de Espiritismo prático.

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