Carta de Allan Kardec ao Espírito de Verdade
Alguns amigos, após terem lido o manuscrito abaixo transcrito, atribuído a Allan Kardec, ficaram tocados pela prece fervorosa escrita e dirigida ao Espírito de Verdade, que é seu Guia, e também pela situação ali descrita. São poucas as palavras, mas trazem o cunho de uma alma bastante elevada, pela fé inabalável e a humildade cristã com que são escritas, e que devem servir como exemplo a todos aqueles que passam por dificuldades neste mundo.
Eis o que foi transcrito e traduzido para o português:
[1860]
"Estou hoje num estado detestável; a que isso se deve? Ignoro. Contrariado o dia todo e, por conseguinte, de mau humor. Se é minha falta, dai-me, eu vos peço, a força de apartar a causa; se é uma má influência, dai-me a força para a repelir; se é uma prova, que ela sirva a minha humildade; se é para a instrução, dai-me a luz necessária para descobri-la.
Eu não tenho o espírito livre; estou confuso, descontente, cheio de ansiedade.
Em nome de Deus Todo-Poderoso, Espírito de Verdade, eu te peço para restaurar a minha calma e me inspirar as melhores resoluções a tomar. Faz com que, durante meu sono, eu venha a me retemperar e a me fortalecer entre os bons Espíritos e restabelecer, ao meu despertar, uma intuição saudável."
]Da mão de Allan Kardec.[ 1
Desejosos de compreender o que se passara então, os amigos evocaram o mestre para que os esclarecesse.
Caro mestre Allan Kardec, desejamos nos instruir com o senhor sobre a carta acima transcrita, a fim de que possamos tirar proveito dela também para as nossas almas, por isso pedimos que tenhais a bondade de vir esclarecer-nos.
1. A carta acima transcrita foi escrita pelo senhor?
- Sim, eu mesmo a escrevi numa circunstância em que tinha o espírito da forma como descrevi. Já acostumado ao recolhimento, fiz esforços redobrados para não permitir que o mau humor atrapalhasse aqueles que me circundavam, para não me tornar áspero com quem quer que fosse. Conduzi todas as obrigações do dia, mas com uma dificuldade adicional, que depois percebi ter sido causada por alguns fatores. Os esforços dos inimigos do Espiritismo geralmente eram percebidos por mim, mesmo quando se manifestavam pelo comportamento alheio. Entretanto, aquela circunstância constituiu o efeito de uma ação conjunta deles, que tentaram atacar-me de todos os lados para evitar a revisão de O Livro dos Espíritos. Queriam solapar meus esforços e tentaram fazê-lo envolvendo-me numa espécie de atmosfera tóxica que agia sobretudo no meu corpo e o tornava pesado. Lançavam algo como um gás capaz de gerar perturbação e ansiedade. Não vendo com clareza a causa dessas sensações que percebia, sentia-me naquele estado de ânimo que descrevi na carta. Ao acordar, no dia seguinte, trouxe a intuição da causa, mas a ninguém a comunicara. Evoquei por um médium o meu Guia e ele me confirmou o que eu houvera pensado. Assim que orei com fervor por aqueles Espíritos senti a névoa desfazer-se como a bruma da manhã diante dos raios do Sol, e segui sem peso o meu trabalho.
2. O manuscrito acima citado foi datado pelo catalogador como sendo do ano de 1860. Entretanto, a edição revisada de O Livro dos Espíritos teve sua publicação anunciada para janeiro de 18602, o que nos leva a crer que já estivesse pronta no ano anterior. Foi em 1860 que o senhor a escreveu?
- Não, foi no final do ano anterior. No entanto, quando do processo de catalogação esse documento estava junto com outros, também sem data, entre alguns datados de 1859 e 1860, o que levou o catalogador a optar por atribuir-lhe o ano de 1860.
As circunstâncias, no período em que escrevi a carta citada, foram realmente atribuladas. Tínhamos na Sociedade membros que tomavam parte ativa nos trabalhos que publicávamos, assim como hoje fazeis com o que publicais, sob nossa inspiração; remetíamos a eles os textos que tínhamos a intenção de divulgar, a fim de que constituíssem uma espécie de filtro prévio à publicação. Agia dessa maneira tanto com relação ao nosso periódico, quanto com os livros. A notícia da publicação de O Livro dos Médiuns, bem como o conhecimento de seu conteúdo, que agora constituiria uma obra separada da primeira edição de O Livro dos Espíritos, despertou um incômodo em alguns médiuns porque, ainda muito suscetíveis, encararam algumas de suas páginas como críticas ao próprio comportamento, ao passo que elas objetivaram a instrução geral. Isso causou um estado de ânimo desagradável entre os membros da Sociedade, e assim se iniciaram certas dissensões. Dessa maneira, não tínhamos a certeza do que fazer: se o melhor seria conservar as instruções da parte experimental dentro de O Livro do Espíritos, ou publicá-las em uma obra à parte, como havíamos planejado. Isso fez com que, embora a revisão do novo livro estivesse feita, ele não fosse publicado no tempo previsto porque julguei prudente revisá-lo ainda uma outra vez, levando-se em conta os problemas a que me referi. Além das questões internas da Sociedade, tivemos também alguns contratempos menores com o nosso editor, o que me deixava em dúvida a respeito da oportunidade da publicação da nova edição.3
Buscamos então os conselhos dos bons Espíritos, por diversos médiuns; recebemos algumas comunicações apócrifas, ditadas pelos mesmos Espíritos aos quais me referi acima, cujo objetivo era confundir-nos e atrasar o trabalho. Não obstante, chegamos à certeza de que o progresso da Doutrina não poderia ser entravado pelo receio de ferir suscetibilidades, uma vez que, sendo frágeis, tais pessoas seriam feridas mais cedo ou mais tarde, e talvez pelas mais inocentes circunstâncias.
Logo vimos que acertamos ao ter feito a divisão dessas obras, e ficamos felizes por saber que os adeptos do Espiritismo possuem hoje um manual ditado pelos Espíritos, acrescido das nossas experiências práticas, no qual podem basear-se para seguir com segurança na prática do Espiritismo.
3. O fato de o senhor saber, pelo aviso dos bons Espíritos, das defecções que iriam acontecer na Sociedade de Paris, principalmente dos médiuns mais capazes, lhe causou algum tipo de tristeza também?
- Não. Já conhecia desde cedo o caráter da maioria dos homens deste mundo, e sabia que a inconstância é característica da imperfeição. Os alertas dos Espíritos, ao invés de me deixarem ansioso, como muitos ficariam diante da perspectiva das defecções, me predispunha à misericórdia. Agradecia a Deus enquanto eu tinha trabalhadores fiéis ao meu lado, mas sabia que o chamado das paixões poderia a qualquer momento levá-los à deserção. Entretanto, a fé espírita já me mostrava que tais atitudes seriam corrigidas pelo arrependimento e pela reparação. Era assim um prejuízo com que já contava.
4. Caro mestre, sabemos que os Espíritos de ordem superior têm total império sobre si mesmos e por isso não são obsidiados pelos maus Espíritos.4 No entanto, o senhor disse acima que teria sofrido um ataque dos maus. Pedimos que o senhor tenha a bondade de nos esclarecer sobre essa questão.
- Deveis fazer a seguinte distinção, para melhor compreenderdes esse assunto: os Espíritos imperfeitos investem indistintamente contra quem quer que nesse mundo tente fazer o bem. Entretanto, mantém suas investidas, exercendo uma má influência, apenas sobre aqueles que lhes dão ouvidos. Vede o ensino de Jesus a respeito da tentação no deserto5: ao relatar tal exemplo aos seus discípulos, mostrou que todos estamos, nesse mundo, sujeitos a receber a injunção dos maus. As agressões físicas que eles, quando encarnados, exercem sobre os homens, têm o seu correspondente nas tentativas de agressão moral que, como Espíritos, também tentam exercer. Quando assim agem sobre um bom Espírito encarnado, logo percebem que seus esforços são frustrados pois não conseguem exercer uma obsessão sobre essa categoria de Espíritos, e logo desistem de suas tentativas.
Desavenças na SPEE
5. As desavenças havidas entre os membros da Sociedade teriam contribuído fluidicamente para a investida dos maus Espíritos que o senhor sofrera então?
- Sim. Antes de tais desavenças, as sessões da Sociedade eram um exemplo de homogeneidade e serviam a todos que ali frequentavam, dos quais não me excluo, como uma oportunidade para retemperar as forças morais. No entanto, com o surgimento das desavenças, o ambiente tornara-se pesado, as comunicações boas eram ditadas pelos Espíritos com maior dificuldade, e a Sociedade perdera o caráter familiar que tinha inicialmente. Às vezes, ao adentrá-la, sentíamos como se estivéssemos num campo de batalha, onde era preciso prudência e total recolhimento para pôr-nos em guarda contra os inimigos que sabíamos que ali seriam encontrados.6
Eis parte de uma carta escrita por Allan Kardec ao Sr. Pierre Dubois, em março de 1860:
"A Sociedade, dizeis, é minha filha; com efeito, eu servi de alguma coisa para sua existência, mas com frequência acontece de o filho esquecer seu pai, e este é, de certa maneira, o caso aqui, porque ela não leva em conta o que fiz por ela, em particular, e pela causa do Espiritismo em geral, à qual devotei minha vida, minhas vigílias, e sacrifiquei meus interesses materiais. Com efeito, quero que a Sociedade prospere, e é por isso que certas medidas me parecem indispensáveis; mas digo-vos com toda sinceridade que, se ela não adotar medidas eficazes para prevenir o retorno desses inconvenientes indicados pela experiência; se entrevejo nela elementos de perturbação, melhor que eu me retire por completo, e é isso que farei, pois não quero perder meu tempo em discussões inúteis e incessantemente recorrentes."(p. 12 de https://projetokardec.ufjf.br/item-pt?id=132)
6. Caro mestre, os seus esforços valeram a pena, pois eles estão dando frutos no século XXI, graças a Deus.
- A vontade de Deus é realizada apesar das nossas imperfeições, pois ele sabe utilizar-se de instrumentos imperfeitos e falhos, como nós mesmo o éramos; isso deve mostrar-vos a misericórdia de Deus e ao mesmo tempo a confiança que deveis ter nele, quando vos dedicais a uma tarefa que vos pode parecer superior às vossas próprias forças.
Allan Kardec
(Por psicofonia, em 25 de janeiro de 2022.)
Observação: embora não tenhamos como ter certeza de que os motivos da carta escrita por Allan Kardec foram os acima expostos, existem registros de que houve problemas com o lançamento do Livro dos Médiuns, e também divergências entre os membros da SPEE nos seus primeiros anos.
Reproduzimos abaixo algumas passagens da Revista Espírita em que Allan Kardec fez referência à publicação e adiamentos de O Livro dos Espíritos, 2ª edição, e O Livro dos Médiuns, ou guia dos médiuns e dos evocadores, em cuja epígrafe consta: Espiritismo Experimental.
O Livro dos Espíritos 2.º edição
Aviso sobre esta nova edição
"Na primeira edição desta obra, anunciamos uma parte suplementar. Ela devia compor-se de todas as questões que ali não haviam entrado, ou que circunstâncias ulteriores e novos estudos deveriam originar. Mas, como são todas relativas a alguma das partes já tratadas, e das quais constituem o desenvolvimento, sua publicação isolada não representaria uma continuidade. Preferimos esperar a reimpressão do livro, para reunir tudo, e aproveitamos para dar à distribuição das matérias uma ordem bem mais metódica, ao mesmo tempo que eliminamos tudo o que estava repetido. Esta reimpressão pode, pois, ser considerada como uma obra nova, posto não tenham os princípios sofrido qualquer alteração, salvo muito poucas exceções, que são antes complementos e esclarecimentos do que verdadeiras modificações. Essa conformidade nos princípios emitidos, apesar da diversidade das fontes em que foram hauridas, é um fato importante para o estabelecimento da ciência espírita. Nossa própria correspondência prova que comunicações em tudo idênticas, senão na forma, pelo menos no fundo, têm sido obtidas em várias localidades, muito antes da publicação do livro que veio confirmá-las e dar-lhes um corpo regular. Por seu lado, a História atesta que a maioria desses princípios foram professados pelos homens mais eminentes dos tempos antigos e modernos, e vem assim trazer a sua sanção."7
"Lembramos aos leitores que a obra "Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas" está esgotada e será substituída por outra, bem mais completa, sob o título de "O Espiritismo Experimental", [O Livro dos médiuns] que está no prelo e aparecerá em dezembro próximo [1860]."8
Aviso de lançamento do Livro dos Médiuns para janeiro de 1861
"Há muito tempo anunciada, mas com a publicação retardada por força de sua própria importância, esta obra aparecerá de 5 a 10 de janeiro [1861], pelos Srs. Didier & Cie., livreiros editores, Quai des Augustins, 35. Ela constitui o complemento de O Livro dos Espíritos e encerra a parte experimental do Espiritismo, assim como este último contém a parte filosófica.
Nesse trabalho, fruto de longa experiência e de estudos laboriosos, procuramos esclarecer todas as questões que se ligam à prática das manifestações. De acordo com os Espíritos, ele contém a explicação teórica dos diversos fenômenos e das condições em que os mesmos se podem reproduzir. Mas a seção concernente ao desenvolvimento e ao exercício da mediunidade foi de nossa parte objeto de particular atenção.(...)"
"Este trabalho, não temos dúvidas a respeito, provocará críticas da parte daqueles a quem desagrada a severidade dos princípios, bem como dos que, vendo as coisas de um outro ponto de vista, já nos acusam de querermos fazer escola no Espiritismo. Se é fazer escola procurar nesta ciência um fim útil e proveitoso para a Humanidade, teríamos o direito de nos sentirmos envaidecidos com a acusação. Mas uma tal escola não necessita de outro chefe além do bom-senso das massas e da sabedoria dos bons Espíritos que a criariam, independentemente de nós. Eis por que declinamos da honra de tê-la fundado, sentindo-nos, ao contrário, felizes por nos colocarmos sob a sua bandeira, aspirando apenas ao modesto título de divulgador. Se um nome for necessário, inscreveremos em seu frontispício: Escola do Espiritismo Moral e Filosófico, e para ela convidaremos todos quantos têm necessidade de esperanças e de consolações."9
Observação: Kardec havia anunciado o lançamento da obra que teria por título O Livro dos Médiuns, ou guia dos médiuns e dos evocadores, para abril de 1860. Mas, segundo o próprio Kardec, o trabalho foi retardado por circunstâncias independentes de sua vontade. Em julho de 1860 ele avisa que o livro está no prelo e que brevemente anunciaria a data de seu aparecimento, mas a primeira edição desse livro só é publicada em janeiro de 1861. A segunda edição, publicada em novembro do mesmo ano, foi consideravelmente aumentada, como se lê abaixo.
O Livro dos Médiuns
Segunda edição
"A primeira edição do Livro dos Médiuns, publicada no começo deste ano [1861], esgotou-se em alguns meses, o que não é um dos traços menos característicos do progresso das ideias espíritas. Nós mesmo constatamos, em nossas excursões, a influência salutar que essa obra exerceu sobre a direção dos estudos espíritas práticos. Assim, as decepções e mistificações são muito menos numerosas do que outrora, porque ela ensinou os meios de descobrir as astúcias dos Espíritos enganadores. Esta segunda edição é muito mais completa que a precedente. Ela encerra numerosas instruções novas muito importantes e vários capítulos novos. Toda a parte que concerne mais especialmente aos médiuns, à identidade dos Espíritos, à obsessão, às questões que podem ser dirigidas aos Espíritos, às contradições, aos meios de discernir os bons e os maus Espíritos, à formação de reuniões espíritas, às fraudes em matéria de Espiritismo recebeu desenvolvimentos muito notáveis, frutos da experiência. No capítulo das dissertações espíritas adicionamos várias comunicações apócrifas acompanhadas de observações adequadas a dar os meios de descobrir a fraude dos Espíritos enganadores que se apresentam com falsos nomes.
Devemos acrescentar que os Espíritos reviram a obra inteiramente e trouxeram numerosas observações do mais alto interesse, de sorte que se pode dizer que é obra deles, tanto quanto nossa.
Recomendamos com instância esta nova edição, como o guia mais completo, quer para os médiuns, quer para os simples observadores. Podemos afirmar que seguindo-a pontualmente evitar-se-ão os escolhos tão numerosos contra os quais se vão chocar tantos neófitos inexperientes. Depois de a ter lido e meditado atentamente, os que forem enganados ou mistificados certamente não poderão queixar-se senão de si mesmos, porque tiveram todos os meios para se esclarecerem."10
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1 https://projetokardec.ufjf.br/item-pt?id=40
2 "A nova edição do Livro dos Espíritos aparecerá em janeiro." Allan Kardec (Revista Espírita, janeiro de 1860 - Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas - Sexta-feira, 23 de dezembro de 1859 - Sessão geral.) Veja-se também: Revista Espírita, março de 1860 - O Livro dos Espíritos 2.º edição.
3 "Anunciamos uma continuação do Livro dos Espíritos sob o título de Espiritismo Experimental [O Livro dos Médiuns], que seria publicada em abril último [de 1860]. O trabalho foi retardado por circunstâncias independentes de nossa vontade e sobretudo pela maior importância que julgamos dever lhe dar. Hoje [julho de 1860] está no prelo e brevemente anunciaremos a data de seu aparecimento." (Revista Espírita, julho de 1860 - Bibliografia.)
4 O Livro dos Espíritos, item 122
5 A Gênese - Os milagres segundo o Espiritismo, cap. XV - Os milagres do Evangelho - Tentação de Jesus
6 Allan Kardec comunica a resolução que tomou de renunciar a qualquer função na SPEE, inclusive à presidência, conforme se lê na Revista Espírita, julho de 1859 - Sociedade Parisiense - Discurso de encerramento do ano social 1858-1859, e na Revista Espírita de julho 1859 - Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.
7 Revista Espírita, março de 1860 - O Livro dos Espíritos 2.º edição
8 Revista Espírita, novembro de 1860 - Aviso

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