PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
O Espiritismo transforma sofrimento em esperança
01 / ABRIL / 2026

   Os nossos leitores já devem ter lido os artigos que publicamos anteriormente1 e que se relacionam com este que a Sra. Jaqueline nos enviou recentemente, contando-nos um pouco mais sobre as lutas que ela e a filha têm enfrentado depois da morte do esposo, e como o Espiritismo lhe tem auxiliado.

 

O Espiritismo transforma sofrimento em esperança

 

   "No artigo anterior, que intitulei “Quando o amor vence a morte”, escrevi sobre o impacto da perda repentina do meu esposo Eduardo, e sobre como o Espiritismo prático ensinado por Allan Kardec, me amparou nos primeiros e mais difíceis dias. Compartilhei ali o choque, o luto, a saudade e, sobretudo, o consolo que nasce quando compreendemos que a vida não se encerra com a morte do corpo e que o amor verdadeiro não se rompe com a separação física.

   Hoje escrevo para dar continuidade à nossa história, e dar mais um testemunho de como o Espiritismo pode verdadeiramente nos consolar. Se naquele primeiro texto falei sobre aceitar a partida, agora escrevo sobre aprender a seguir. Seguir vivendo, educando, trabalhando e amando — mesmo quando a presença física não mais existe, mas o vínculo de amor persiste, se fortalece e se torna ainda mais profundo.

   Há dores que não cabem em palavras…
   Existem ausências que mudam o som da casa, o ritmo da vida, o jeito de respirar.
   Partidas que nos obrigam a escolher: ou endurecemos o coração, ou aprendemos a nos resignar e a amar de outra maneira.

   Quando meu esposo partiu de forma repentina, aos 32 anos, num acidente de carro, em segundos meu mundo desabou. Em nosso lar restou um silêncio incômodo, às vezes entrecortado pelos soluços de uma criança de seis anos, que olhava para mim em busca das respostas que eu mesma ainda não tinha.

   Foi nesse palco de dor que a Doutrina Espírita surgiu da teoria como poderosa força capaz de nos dar sustentação diária. O Espiritismo prático, ou seja, a conversa com os Espíritos, não retirou do meu peito a saudade, mas me impediu de adoecer nela. Não devolveu a presença física do meu amado esposo, mas me convenceu, pela fé racional, que o amor não depende do corpo de carne.

   Hoje escrevo não como quem já superou tudo, afinal, ainda estou no meu processo de evolução espiritual,  mas como quem aprendeu a seguir sem revolta.

   Seguimos, eu e minha filha, sozinhas, mas amparadas espiritualmente. Vivemos longe da família de origem, sem uma rede de apoio, contando com amigos que Deus colocou em nosso caminho. Assim eu trabalho, sustento o lar, educo, busco fazer o meu melhor… e, quase todos os dias, respondo a perguntas que não vêm apenas da infância, mas também de almas feridas pela saudade dos afetos que partiram.

   Foi numa dessas noites — simples, silenciosa — que vivi mais uma experiência marcante nessa minha caminhada de Espírito imortal."

 

Uma noite de lágrimas, perguntas e expectativas

 

    "Já deitadas para dormir, percebi minha filha chorando baixinho. Não era um choro alto, nem desesperado. Era aquele choro contido de quem sente muito, mas tenta ser forte para proteger a quem ama.

   Quando perguntei o que a entristecia, ela respondeu:
   “Eu não queria chorar para não lhe deixar triste também.”

   Eu disse a ela que o choro, quando não nasce da revolta ou do desespero, pode aliviar o coração. E que eu também chorava às vezes. Então ela continuou.

   Disse que sentia muita saudade do pai. Disse que era difícil aceitar que o pai tivesse partido tão novo, com apenas 32 anos. Perguntou por que Deus havia permitido o acidente que o levou. Falou da tristeza que sente na escola, onde todos os coleguinhas têm o pai na Terra — e o dela agora está no mundo dos Espíritos. Disse que aquilo não parecia justo.

   Falou do medo de não ter sido uma boa filha. De ter desobedecido o pai em alguns momentos. E, com a voz embargada, revelou a angústia que mais lhe apertava o coração: não lembrar se havia dado um último beijo no pai quando ele a deixou na escola, poucas horas antes do acidente.

   Mas o medo mais perturbador ainda estava por vir:
   “Mãe… e se você também morrer? Quem vai cuidar de mim?”

   Desde a partida do pai, ela passou a demonstrar receio sempre que preciso me afastar para trabalhar ou quando imagina que posso viajar. Um medo legítimo. Um medo que não se corrige, mas que é preciso enfrentar com a razão.

   Conversei longamente com minha filha. Falei-lhe de Deus, da justiça divina, da vida aqui na Terra como escola. Expliquei, com palavras simples, que antes de virmos para esta vida escolhemos provas que nos ajudam a crescer como Espíritos.2 Aos poucos, seu coração foi se acalmando.

   Antes de adormecer, fez um pedido que atravessou a minha alma:
“Mãe, amanhã, quando você for falar com os Espíritos, chame o pai… pergunte a ele porque ele morreu tão novo. Pergunte se Deus vai te levar também.”

   Guardei esse pedido comigo e, na manhã seguinte, com o coração humilde, chamei o Espírito do Eduardo, em nome de Deus.

   Segue-se a conversa que tivemos.


   P. Está aqui, meu amor Eduardo?
   R. – Sim, estou, meu amor.

   P. Peço que deixe uma mensagem para nossa filha Giovanna, que na última noite sentiu muita saudade, chorou muito e pediu para que eu te chamasse e para que você pudesse trazer uma cartinha a ela, falando sobre a saudade, sobre o medo que ela tem de que eu também vá para o mundo dos Espíritos e ela fique sozinha, e sobre a volta à escola, onde os coleguinhas têm o pai e ela não.

   R. – "Minha filha, amor do pai, o pai estava com você e com a mãe de noite, quando seu coração ficou apertado de saudade. O pai ouviu quando você pediu para a mãe me chamar.
   Você ainda é criança, mas já entende muitas coisas sobre o mundo dos Espíritos e, com o tempo vai entender ainda mais por que o pai veio para mundo dos Espíritos, quando ainda novo no corpo. Porém, nosso Espírito é muito antigo, tem muitos e muitos séculos de aprendizado.
   O pai quer lhe explicar uma coisa importante: Deus deixou que o pai saísse do corpo porque sabia que você tem uma mãe muito forte, que faz tudo por você, que cuida, protege e lhe dá tudo o que você precisa na Terra. O pai continua dando amor, conselhos e proteção pois não há distância entre nós apenas porque você não me vê.
   O pai escuta tudo o que você fala e tudo o que pensa. Sempre que você pensa no pai, eu venho. Estou com você em todos os lugares: na escola, nos passeios, nas viagens e mais ainda quando você dorme, nos seus sonhos.
   Você ficou triste porque vai voltar para a escola e percebeu que seus coleguinhas têm o pai perto, na Terra. Mas o pai quer lhe dizer algo: muitos pais estão no corpo, mas não podem estar próximos dos filhos como o pai pode estar com você em todos os lugares, porque eles precisam trabalhar. Além disso, alguns pais não conseguem amar seus filhos como o pai ama você.
   Quando sentir medo, pense no pai que você vai sentir no seu coração que o pai está ali, lhe protegendo. E não precisa ter medo de que a mãe também volte ao mundo dos Espíritos e você fique sozinha. A mãe está aí com você, lhe cuidando, e Deus sempre faz o melhor para todos nós. Vocês nunca estão e jamais estarão sozinhas.
   O pai quer que saiba que você foi e é uma boa filha. E, sim, minha filha, você deu um beijo no pai naquele dia 9 de setembro, antes de eu partir. Quando o pai acordou no mundo dos Espíritos, a lembrança do seu beijo e do seu amor ajudou muito o pai a aceitar essa nova vida. Agora, mesmo vocês não me vendo, estamos mais juntos do que antes. O pai pode estar com você em todos os momentos.
   Continue cuidando da mãe com amor, obedecendo, ajudando e lembrando sempre de fazerem preces juntas. Quando você chama o pai, eu venho, viu? Você pediu, a mãe chamou e o pai está aqui escrevendo para você.
   Volte para a escola tranquila. Este vai ser um ano de muito aprendizado. Continue sendo essa menina amorosa e não deixe maus pensamentos entrarem na sua cabecinha.
   O pai também está com você quando você está com a "Tata" (a babá), que Deus colocou na vida de vocês para ajudar a mãe. Fique feliz, meu amor, porque você tem um pai que pode estar com você o tempo todo.
   Não se preocupe com o dentinho que está amolecendo. Na hora certa ele vai cair, e o pai vai estar com você.
   Dê muitos abraços e beijos na mãe, porque o pai sente todo o seu amor por intermédio dela, e você também pode sentir o amor do pai por intermédio da mãe.
   O pai lhe ama muito e vai estar sempre com você. Um dia, quando for a hora, nós iremos nos encontrar de novo. Por enquanto, a gente se encontra nos sonhos e mata a saudade.

   Com amor,

papai Eduardo."

 

   Após as respostas para a filha, Eduardo seguiu sua comunicação:

   "Não desanime, meu amor. Não deixe que a saudade te impeça de ter fé e de seguir com confiança. Entendo que às vezes as lembranças e a falta da presença física fazem doer o coração. Nesses momentos, silencie o pensamento e volte a me ouvir. Você sabe que podemos nos comunicar sempre. Continuo a lhe dar conselhos, agora também amparado pela assistência dos anjos guardiães.
   Você está no caminho certo e não deve se preocupar tanto com o futuro na Terra, e sim seguir fazendo o bem hoje, para colher os frutos na vida futura. Por aqui, os dias têm sido de muito aprendizado e entendimento. Estou também auxiliando a receber aqueles irmãos que voltam para cá por morte repentina. Consigo usar o meu exemplo para ajudar nesse sentido. Algumas vezes é bem difícil, pois nem todos compreendem que aqui é a nossa verdadeira morada e que a vida na Terra é apenas uma breve passagem. Então sigamos, meu amor. Eu fazendo o que preciso fazer aqui e você segue aí fazendo o que pode, também ensinando pelo bom exemplo. Ajude, pelo exemplo, outras pessoas a entenderem mais sobre a vida e seu real sentido.
   Não vacile na fé. Estou sempre disposto a lhe apoiar.

   Com amor,


Eduardo."

(Psicografadas dia 2 de fevereiro de 2026.)

 

   As respostas que recebemos não  foram uma simples comunicação, foram remédio para uma criança, força para uma mãe e a prova evidente de que o amor não se rompe com a morte.

   Meu esposo falou à nossa filha com a ternura que sempre teve. Explicou que o Espírito não tem idade. Que Deus confiou a ela uma mãe forte. Que ele continua presente, embora invisível para nós no dia a dia. Afirmou que ouviu seu chamado naquela noite de choro contido. Dissipou o medo que a filha tinha de ficar sozinha, sem a mãe, e respondeu à sua dúvida mais angustiosa: sim, ela lhe havia dado um beijo naquele dia. Depois que li as respostas que obtivemos, imprimi-as e deixei o texto ao lado do travesseiro da minha filha. Ela ainda dormia. Eu precisava ir trabalhar.

   Ao meio-dia, quando retornei para casa, ela veio ao meu encontro radiante. Disse que havia lido a cartinha com a "Tata". Que o pai tinha respondido a todas as suas questões. Seu rosto não era mais de tristeza, refletia paz.

   E o Espiritismo prático ainda me mostraria algo mais.

   Naquela noite, ao descer com nossa cachorrinha, deixei minha filha no hall do prédio enquanto me dirigi até à calçada. Quando voltei, ela me olhou sorrindo e disse, com a serenidade que só a fé verdadeira traz:
   — “Mãe, eu senti medo… mas fechei os olhos, chamei o pai, fiz uma prece… e ele veio me proteger.”

   E completou:
   — “Agora eu entendo. Agora ele pode estar mais perto da gente do que os pais que estão na Terra. Deus é muito bom, né mãe?”

   Naquele instante, compreendi: o Espiritismo não só é Consolador, ele educa a alma, sustenta a infância, fortalece lares abalados pela ausência física dos afetos e transforma sofrimento em esperança.

   Hoje, olhando com serenidade, sei que não estaria de pé sem o entendimento das leis de Deus ensinadas pelo Espiritismo, e sem a comunicação com nossos afetos ‘mortos". Ele não me poupou da realidade: ensinou-me a atravessá-la.

   Escrevo este relato e o dedico especialmente aos que sofrem: mães, pais, filhos, viúvas, viúvos. Para quem se sente órfão da presença física, e ainda não descobriu que o amor é imortal e que ninguém é órfão do amor de Deus.

   Se antes escrevi que o amor vence a morte, hoje afirmo com mais convicção ainda: mesmo após a morte do corpo físico, o amor permanece, educa, consola e sustenta a vida.

   Com fé e gratidão,


Jaqueline."

 

"A possibilidade de entrar em comunicação com os Espíritos é uma doce consolação, visto que nos proporciona o meio de conversar com nossos parentes e nossos amigos que deixaram a Terra antes de nós. Pela evocação, aproximamo-los de nós; eles estão a nosso lado, nos ouvem e nos respondem; não há mais separação, por assim dizer, entre eles e nós. Eles nos ajudam com seus conselhos, testemunham-nos sua afeição e o contentamento que experimentam por nos lembrarmos deles. Para nós é uma satisfação saber que estão felizes, conhecer com eles próprios os detalhes de sua nova existência, e adquirir a certeza de que um dia nos reuniremos a eles.” Allan Kardec3

 

__________

1 "Uma morte prematura e o consolo dado pelo Espiritismo” e "Quando o amor vence a morte: testemunho de fé e de consolo”.

2 O Livro dos Espíritos - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos, cap. VI - Da vida espírita - Escolha das provas.

3 O Livro dos Espíritos - Das esperanças e consolações, cap. I - Das penas e gozos terrestres - Perda de pessoas amadas, item 935

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