Instrução dos Espíritos
Virtude da paciência
Como o Sr. Nicolau de Bari havia dito, numa comunicação anterior1, que lhe agrada o tema das virtudes, e que oportunamente poderia instruir-nos sobre a virtude da paciência, ao ser evocado novamente ele ditou a instrução que se segue.
"Nenhuma cela escura, nenhuma dor infligida, nenhum momento de solidão é capaz de esgotar ou revoltar uma alma que ama, que espera, que tem fé.2 A paciência é a confluência, frente às aflições do mundo, das três divinas virtudes.3
A paciência opera para a perfeição, segundo o apóstolo4, pois com ela se trabalha com vigor, mesmo em meio às aflições do cotidiano, às dores nas provas que vos são partilha nesse mundo.
Os cristãos, nas funestas perseguições que sofreram nos primeiros tempos do cristianismo, deram mostras de paciência mantendo a fé e a alegria mesmo no martírio, porque o amor dava ao indivíduo tocado pelo exemplo do Cristo, o sentimento que amenizava o sofrimento; a fé lhes sustentava o vigor diante das agressões, pois a razão indicava que a vida do corpo não é a verdadeira ou a definitiva, e a esperança embalava suas aspirações de que logo estariam com o Cristo, em seu reino.
Todavia, a adesão à virtude da paciência já se verificava no mundo antigo, em diferentes estratos sociais, sob a denominação de Fortaleza, como a virtude que levaria o sábio ao estado ideal do ser, à tranquilidade suprema. Desde o mais alto posto das esferas do poder imperial, na pessoa de Marco Aurélio5, até à sua base servil, na figura de um escravo, chamado de Epicteto6, a fortaleza era uma virtude buscada. Estes dois personagens serão novamente citados em meus escritos, visto que deram valiosa contribuição à noção de excelência cristã que seria desenvolvida depois.7
Mais tarde, quando os pais da Igreja desenvolveram suas perspectivas filosófico-teológicas, promoveram a paciência a um indicativo do bom cristão. A tristeza, mal que poderia impedir o servo do Cristo de prosperar em sua fé, tinha na paciência seu eficaz antídoto. Saber suportar as aflições, das menores às mais agudas, é essencial ao cristão a fim de passar pela vida material cumprindo seus deveres, realizando seus bons propósitos.
A paciência é, pois, a virtude de todos os dias, que deve ser buscada pelo exercício da razão unida à fé, frente aos incômodos do corpo e às aflições da alma, que são inerentes ao estado do mundo em que viveis.8
Os exemplos de paciência de Santo Agostinho, que uniu em sua filosofia o melhor dos antigos e o melhor da cristandade, deram provas de quanto esse paternal Espírito consagrou a sua vida de convertido, não somente a fundar as bases teologais da Igreja Cristã, mas a pôr em prática aquilo que elaborava em teoria.
Fazemos votos para que a alegria paciente, instituída pelas reflexões e ações de Agostinho, toque o raciocínio dos que estudam seriamente as virtudes. Da mesma maneira, que o exemplo de paciência dado pelos mártires do cristianismo dos primeiros séculos sensibilize os corações daqueles que buscam vencer a própria fraqueza, em meio às provas que a vida hoje lhes impõe.
E, para aqueles a quem a vida se mostra como um conjunto de pequenas aflições, pequenos desgostos que perturbam, que desorientam pela insistência com que se manifestam, que a paciência seja o antídoto da tristeza, do desencorajamento. Que a paciência, virtude característica da caridade, seja uma dádiva de esperança buscada nas verdades espíritas, numa explicação racional e consoladora das leis de Deus, que é soberanamente justo, bom, misericordioso."9
Nicolau de Bari."
(Psicografada dia 23 de abril de 2025.)
Palavras de Santo Agostinho sobre a paciência
"A paciência do homem - refiro-me à paciência verdadeira, louvável, aquela que merece o nome de virtude - consiste em suportar os males com igualdade de alma, para que a desigualdade da alma, que gera a iniquidade, não nos faça abandonar os bens espirituais, que são para nós os meios de alcançar os bens superiores.
Daí se segue que os impacientes, ao se recusarem a sofrer os males, não conseguem livrar-se deles, mas antes atraem males ainda maiores. Os pacientes, ao contrário, que preferem suportar o mal sem cometê-lo, do que cometê-lo por não suportá-lo, têm um duplo ganho: tornam mais leves os males que sofrem pela paciência, e escapam dos males mais graves nos quais cairiam pela impaciência. Além disso, evitam a perda dos grandes bens da eternidade, ao não sucumbirem ao peso dos males passageiros do tempo. Pois, como diz o Apóstolo "os sofrimentos desse tempo não são comparáveis à glória futura que será manifestada em nós" (Rom. VIII, 18); e ainda: "As tribulações temporais, que são ao mesmo tempo leves, produzem em nós uma força imensa e eterna de glória" (Cor. IV, 17).10
Observação: A palavra paciência vem do latim patientia, derivada do verbo patior, que quer dizer sofrer, suportar, tolerar. (Dictionnaire Gaffiot - Latin-français.)
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1 Trata-se da comunicação que intitulamos Nicolau de Bari e seu encontro com Jesus, já publicada em nossa revista.
2 Veja-se o artigo: A fé é posta à prova em momentos graves, ditada pelo mesmo Espírito.
3 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XV - Fora da caridade não há salvação - Necessidade da caridade, segundo S. Paulo
4 Rom. 5:3-5
5 Marco Aurélio (Roma, 26 de abril de 121 d.C - Vindobona ou Sirmio, 17 de março de 180) foi o imperador romano de 161 até sua morte. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Marco_Aurélio)
6 Epicteto (em grego antigo Epíktêtos, que significa "homem comprado, servidor", (Hierápolis, Frígia, em 50 d. C., Nicópolis, Épiro, entre 125 ou 130) foi um filósofo da escola estoica. Sua vida é relativamente pouco conhecida e ele não deixou nenhuma obra escrita por sua mão. Seu discípulo Lúcio Flávio Arriano assegurou a transmissão de sua obra ao publicar as notas tomadas durante as lições dadas por seu mestre, em oito livros, dos quais a metade está hoje perdida; Arriano também publicou um condensado de doutrina moral, o Manual de Epicteto, textos que exerceram uma certa influência sobre Marco Aurélio." (https://fr.wikipedia.org/wiki/Épictète).
7 Vide o artigo Epicteto e a virtude da paciência.
8 Veja-se: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V - Bem-aventurados os aflitos - Instruções dos Espíritos - Bem e mal sofrer.
9 Veja-se: O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V - Bem-aventurados os aflitos - Instruções dos Espíritos - O mal e o remédio
10 Santo Agostinho De la patience (Da paciência), in OEUVRES COMPLÈTES DE SAINT AUGUSTIN, T. XII, p. 294-305. BAR-LE-DUC, 1866. (Trad. pela equipe do Geak/Ipeak.)

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