PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
A saudade não acaba, apenas se transforma - Por Jaqueline M.
02 / JULHO / 2026

   Jaqueline, a jovem senhora que ficara viúva em setembro de 2025, já conhecida dos leitores por seus artigos publicados em nossa revista1, enviou-nos mais um de seus escritos, o qual reproduzimos abaixo.

 

A saudade não acaba, apenas se transforma
 
Por Jaqueline M.

 

    "Quando meu esposo partiu para o mundo dos Espíritos, uma das dores mais profundas que senti não foi apenas por sua ausência física, mas o medo de que o tempo apagasse tudo o que havíamos vivido juntos. Doía pensar que, aos poucos, a vida seguiria e que um amor tão importante pudesse ficar apenas nas fotografias, nas lembranças provocadas pelas datas mais difíceis.

   No início do luto, a saudade parecia pesada, sufocante. Era uma dor que apertava o peito ao acordar, ao dormir, ao olhar para nossa filha e perceber que ela cresceria sem o abraço físico do pai. Mesmo conhecendo a Doutrina Espírita antes da partida dele, viver depois a teoria na prática foi completamente diferente.

   Foi então que comecei a compreender algo que hoje transformou profundamente a forma como vejo a saudade: ela não acaba. Mas pode amadurecer.

   Pelo estudo, pela prece, e nas comunicações recebidas ao longo desses meses, nas reuniões espíritas familiares, fui entendendo que o amor verdadeiro não termina com a morte do corpo, mas também não pode permanecer aprisionado à dor.

   Em uma das primeiras reuniões familiares, em 30 de dezembro de 2025, um irmão vivo perguntou ao Espírito de Eduardo se ele sentia saudade ou falta de algo do que deixara no mundo físico e o que os familiares deveriam fazer para aliviar a saudade que sentiam dele.

   Eduardo lhe respondeu:

   – "Vocês sabem que eu já me desprendia do material ainda na Terra. Graças ao Espiritismo e ao entendimento da vida futura, consegui me melhorar e me desapegar de muitas coisas. Até a alimentação, que era algo difícil para mim, consegui mudar, e hoje não sinto falta de nada material. 

   "Logo que deixei o corpo físico, a saudade que eu sentia da Jaqueline (esposa), da Giovanna (filha) e de todos vocês (familiares), foi o que mais me fez sofrer. Esse sentimento quase me fez balançar. Mas, graças à ajuda dos bons anjos e à maneira como vocês foram amparados, evitando revolta e sofrimento excessivo, que também me atingiriam, consegui aos poucos me desfazer desse sentimento que me fazia mal.

   "Agora a saudade que sinto é diferente. Ela é leve. É amor. E é também o desejo de que vocês se melhorem e consigam superar a minha partida, pois somente assim iremos nos reencontrar no futuro.

   "A superação da saudade se dará quando vocês compreenderem melhor como é estar deste lado. E, para isso, somente o estudo sério da Doutrina dos Espíritos irá ajudar. 

   Essa frase de Eduardo ficou gravada em mim: “Agora a saudade que sinto é diferente. Ela é leve. É amor."

   Até então eu acreditava que amar alguém que partira significava sofrer continuamente pela ausência do ser amado. Era como se a intensidade da dor fosse uma prova do tamanho do amor. Mas, com o Espiritismo e com as comunicações constantes com meu amado aprendi exatamente o contrário.

   A saudade excessivamente alimentada prende quem fica e muitas vezes também alcança quem partiu.

   Em diversas comunicações, os Espíritos aconselharam para que não transformássemos a dor em revolta ou paralisação.

   Numa de nossas reuniões em família, São Luís, guia do grupo, deu-nos o seguinte conselho:

   – “Cessem os questionamentos dos porquês da morte e das circunstâncias em que ela ocorreu. Não se alimentem da dor. Vejam, em tudo o que aconteceu, uma oportunidade de terem tido o véu retirado, o conhecimento de que a vida não termina com a morte do corpo. Busquem seus anjos. Pratiquem a verdadeira caridade, que não é apenas a material, que é a mais fácil. Exercitem a caridade moral, nas palavras que confortam, nos bons efeitos que o Espiritismo tem produzido em suas vidas, na capacidade de acalmar outros corações que sofrem sem fé.

   "A justiça de Deus existe e é perfeita. Deus não faz ninguém sofrer, não tira nada de ninguém. Cumpre-se apenas aquilo que vocês mesmos escolheram experimentar, como forma de reparação ou prova para a própria evolução. O vitimismo em nada auxilia. A revolta apenas amplia a dor. A dúvida impede o avanço.

   Reflitam e encontrarão as respostas no estudo sério e no entendimento da doutrina espírita, aliados às conversas com os Espíritos e, sobretudo, aos esforços sinceros de melhoria moral."

   Percebi então que a saudade do afeto que partiu não deve destruir a vontade de viver. É ela que mantém vivo o amor, a gratidão e a ligação espiritual.

   Isso não significa ausência de lágrimas.

   Ainda existem dias difíceis. Dias em que a falta física dói profundamente. Dias em que minha filha sente saudade do pai ao voltar da escola. Dias em que eu gostaria apenas de ouvi-lo entrando pela porta de casa novamente, em carne e osso.

   Mas, à medida que eu busco mais entendimento, e sigo cada dia com fé, os sentimentos também vão mudando.

   A saudade deixou de ser somente ausência e passou a ser também presença.

   Presença nas inspirações silenciosas, nas preces, nos sonhos, no aprendizado, na maneira como nosso afeto continua cuidando de nós, como Espírito, mesmo que invisível aos olhos da carne.

   Numa comunicação dada no dia 2 de fevereiro de 2026, Eduardo escreveu para nossa filha Giovanna:

   – "Mesmo vocês não me vendo, estamos mais juntos agora do que antes. O pai pode estar com você em momentos que antes não podia."

   Quando li essas palavras pela primeira vez, chorei muito, porque compreendi que o Espiritismo não nos convida a esquecer quem partiu. Ele nos ensina uma nova maneira de amar. Uma maneira menos possessiva, menos desesperada, mais espiritualizada.

   Aprendi também que o sofrimento intenso e contínuo de quem fica no corpo, principalmente a revolta, só prejudicam aqueles que amamos. 

   Depois de algumas comunicações que recebemos, entendi que permanecer presa à revolta, à culpa ou ao desespero não era amor. Amar também é desejar que o ser querido siga em paz em seu caminho evolutivo.

   E isso talvez seja uma das coisas mais difíceis para nós, encarnados: aceitar que aqueles que amamos continuam vivendo, aprendendo, trabalhando e evoluindo, sem nós fisicamente ao lado.

   A doutrina espírita foi ensinando-me que o vínculo verdadeiro não é rompido pela morte. Mas ele precisa amadurecer.

   O amor deixa de depender apenas do toque, da presença física, da convivência material, e passa a se manifestar também nas comunicações, na oração, na lembrança equilibrada e no desejo sincero de crescimento mútuo. 

   Hoje compreendo por que tantas vezes Eduardo repetia em suas comunicações:

   – "Quando a saudade bater, façam uma prece."

   A prece não elimina a saudade, mas transforma o sentimento. Ela deixa de ser um grito de desespero e passa a ser encontro.

   Ao longo dessa caminhada, também aprendi algo que considero uma das maiores consolações que o Espiritismo nos dá: os laços construídos com base no amor verdadeiro não se rompem, nem se perdem. Eles continuam.

   Continuam vivos graças às lembranças guardadas na memória, à inspiração, aos valores ensinados, às mudanças que o ser que partiu nos ajudou a produzir em nós mesmos.

   Numa das comunicações mais emocionantes ditadas para nossa filha, Eduardo disse:

   – "O pai não abandonou você, só está invisível aos teus olhinhos."2

   Talvez seja isso que o Espiritismo faz de mais belo pelos corações enlutados: ele não promete ausência de dor, mas nos faz ver a imortalidade da alma e a continuidade do amor.

   Minha saudade ainda perdura. Ela aparece nos detalhes pequenos da vida. Nas datas importantes, nas conquistas da nossa filha, nos momentos em que eu gostaria de compartilhar algo olhando nos olhos do meu amado Eduardo.

   Todavia, a saudade já não me paralisa como antes, porque a fé começou a preencher o espaço em que antes o desespero queria ocupar.

   A saudade não acabou, apenas se transformou. Talvez, amadurecer espiritualmente seja justamente isso: aprender a amar sem apego.”

 

Jaqueline M.

 

__________

1 Vide: Uma morte prematura e o consolo dado pelo Espiritismo. Quando o amor vence a morte: testemunho de fé e de consolo. O Espiritismo transforma sofrimento em esperança.

2 Veja-se: Revista Espírita, setembro de 1859 - O lar de uma família espírita.

SE DESEJAR, ESCREVA UM COMENTÁRIO SOBRE ESSE ARTIGO NO FINAL DESTA PÁGINA
ARTIGOS RELACIONADOS
A fé precisa ser provada
A fim de que onde eu estiver, também vós aí estejais. Jesus
A mediunidade na educação moral da infância
A missão dos Espíritos e o dever dos Espíritas
Alice com Allan Kardec
Carta de um filho único, morto na idade de dois anos, à sua mãe
Conselhos de família
Conversão de um agnóstico de dezesseis anos
Da proibição de evocar os mortos - Pelo Sr. Allan Kardec
Dissertação sobre a morte - por Erasto
É sofrido não conseguir conversar com ninguém. - Sr. Renato Z.
Espírito feliz - São Luís
Ideias preconcebidas
Identidade dos Espíritos nas comunicações particulares
Instruções de Allan Kardec sobre a prece e a evocação dos Espíritos
Mediunidade I - Wireless universal
Mediunidade II - Meio de comunicação entre Espíritos e homens
Mediunidade VI - Todos os médiuns são chamados a servir à causa do Espiritismo
O aspecto mais belo e mais consolador do Espiritismo
O Espiritismo transforma sofrimento em esperança
Quando o amor vence a morte: testemunho de fé e de consolo
Reuniões Espíritas no Lar I - Espiritismo consolador
Reuniões espíritas no lar II - Chamadas não atendidas
Reuniões Espíritas no lar III - Crianças nas reuniões espíritas
Um jovem assassinado e os frutos do Espiritismo: consolo, perdão e esperança
Uma morte prematura e o consolo dado pelo Espiritismo
Orientações aos espíritas egressos de centros espíritas
O Espiritismo com os Espíritos - Pelo Sr. Ch. D.
COMENTÁRIOS
PARA ESCREVER COMENTÁRIOS, É NECESSÁRIO FAZER LOGIN
OU SE AINDA NÃO FEZ SEU CADASTRO, APROVEITE PARA FAZER AGORA